sábado, 30 de junho de 2012

Porque








Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andresen





Como diz o poeta anarquico e revolucionário:

" Isso de querer ser exactamente aquilo que a gente é 
ainda nos vai levar além ... "

PAULO LEMINSK






sexta-feira, 29 de junho de 2012

Ser mulher...





Ser mulher...
É viver mil vezes em apenas uma vida.
É lutar por causas perdidas e sempre sair vencedora.
É estar antes do ontem e depois do amanhã.
É desconhecer a palavra recompensa apesar dos seus atos.

Ser mulher...
É caminhar na dúvida cheia de certezas.
É correr atrás das nuvens num dia de sol.
É alcançar o sol num dia de chuva.

Ser mulher...
É chorar de alegria e muitas vezes sorrir com tristeza.
É acreditar quando ninguém mais acredita.
É cancelar sonhos em prol de terceiros.
É esperar quando ninguém mais espera.

Ser mulher...
É identificar um sorriso triste e uma lágrima falsa.
É ser enganada, e sempre dar mais uma chance.
É cair no fundo do poço, e emergir sem ajuda.

Ser mulher...
É estar em mil lugares de uma só vez.
É fazer mil papeis ao mesmo tempo.
É ser forte e fingir que é frágil...
Para ter um carinho.

Ser mulher...
É se perder em palavras e depois perceber que se encontrou nelas.
É distribuir emoções que nem sempre são captadas.

Ser mulher...
É comprar, emprestar, alugar, vender sentimentos,
mas jamais dever.
É construir castelos na areia,
vê-los desmoronados pelas águas.
E ainda assim amá-los.

Ser mulher...
É saber dar o perdão...
É tentar recuperar o irrecuperável.
É entender o que ninguém mais conseguiu desvendar.

Ser mulher...
É estender a mão a quem ainda não pediu.
É doar o que ainda não foi solicitado.

Ser mulher...
É não ter vergonha de chorar por amor.
É saber a hora certa do fim.
É esperar sempre por um recomeço.

Ser mulher...
É ter a arrogância de viver
apesar dos dissabores,
das desilusões,
das traições e das decepções.

Ser mulher...
É ser mãe dos seus filhos...
Dos filhos de outros.
É amá-los igualmente.

Ser mulher...
É ter confiança no amanhã e aceitação pelo ontem.
É desbravar caminhos difíceis em instantes inoportunos.
E fincar a bandeira da conquista.

Ser mulher...
É entender as fases da lua por ter suas próprias fases.
É ser "nova" quando o coração está à espera do amor.
Ser "crescente" quando o coração está se enchendo de amor.
Ser "cheia" quando ele já está transbordando de tanto amor.
E ser "minguante" quando esse amor vai embora.

Ser mulher...
É hospedar dentro de si o sentimento do perdão.
É voltar no tempo todos os dias e viver por poucos instantes.
Coisas que nunca ficarão esquecidas.

Ser mulher...
É cicatrizar feridas de outros
e inúmeras vezes deixar
as suas próprias feridas sangrando.

Ser mulher...
É ser princesa aos 20...
Rainha aos 30...
Imperatriz aos 40 e...
 "Especial" a vida toda.

Ser mulher...
É conseguir encontrar uma flor no deserto.
Água na seca...
Labaredas no mar.

Ser mulher...
É chorar calada as dores do mundo, e
em apenas um segundo,
já estar sorrindo.

Ser mulher...
É subir degraus
e se os tiver que descer
não precisar de ajuda.
É tropeçar, cair e voltar a andar.

Ser mulher...
É saber ser super-homem quando o sol nasce.
E virar cinderela quando a noite chega.

Ser mulher...
É ter sido escolhida por Deus
para colocar no mundo os homens.

Ser mulher...
É acima de tudo um estado de espírito.
É uma dádiva...
É ter dentro de si um tesouro escondido
E ainda assim dividi-lo com o mundo!



Silvana Duboc





quinta-feira, 28 de junho de 2012

NAVEGUE





Navegue, descubra tesouros,
mas não os tire do fundo do mar,
o lugar deles é lá.
Admire a lua, sonhe com ela, mas não
queira trazê-la para a terra.
Curta o sol, se deixe acariciar por ele,
mas lembre-se que o seu calor é para todos.
Sonhe com as estrelas, apenas sonhe,
elas só podem brilhar no céu.
Não tente deter o vento,
ele precisa correr por toda parte,
ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde.
Não apare a chuva,
ela quer cair e molhar muitos rostos,
não pode molhar só o seu.
As lágrimas?
Não as seque, elas precisam correr na minha,
na sua, em todas as faces.
O sorriso!
Esse você deve segurar,
não deixe-o ir embora, agarre-o!
Quem você ama?
Guarde dentro de um porta-jóias,
tranque, perca a chave!
Quem você ama é a maior
jóia que você possui, a mais valiosa.
Não importa se a estação do ano
muda,se o século vira, se o milênio é outro,
se a idade aumenta;
conserve a vontade de viver,
não se chega à parte alguma sem ela.
Abra todas as janelas que encontrar
e as portas também.
Persiga um sonho,
mas não deixe ele viver sozinho.
Alimente sua alma com amor,
cure suas feridas com carinho.
Descubra-se todos os dias,
deixe-se levar pelas vontades,
mas não enlouqueça por elas.
Procure, sempre procure o fim de uma história,
seja ela qual for.
Dê um sorriso para quem esqueceu como se faz isso.
Acelere seus pensamentos, mas
não permita que eles te consumam.
Olhe para o lado, alguém precisa de você.
Abasteça seu coração de fé, não a perca nunca.
Mergulhe de cabeça nos seus desejos e satisfaça-os.
Agonize de dor por um amigo,
só saia dessa agonia se conseguir tirá-lo também.
Procure os seus caminhos,
mas não magoe ninguém nessa procura.
Arrependa-se, volte atrás, peça perdão!
Não se acostume com o que não o faz feliz,
revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças,
mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades,mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se achá-lo, segure-o!
Caso sinta-se só, olhe para as estrelas:
eu sempre estarei nelas.
Não estão ao seu alcance mas estarão eternamente
brilhando para você!




Silvana Duboc




quarta-feira, 27 de junho de 2012

É possível







"Se me vires cansado…fora do caminho,
quase sem forças para andar;
se me vires a achar que a vida é difícil
porque já não posso, porque já não vou em frente,
vem-me lembrar como é o início,
vem-me desafiar com o teu desafio.

Move-me a Alma,
devolve-me o impulso
conduz-me a mim mesmo.

Eu saberei acender a minha lâmpada
na escuridão, no vento frio,
voltarei a ser fogo a partir de brasas quietas,
que acenda e reviva o meu andar peregrino.
Volta a sussurrar-me aquela ordem
desde o primeiro passo para um princípio.

Mostra-me a necessária
para eu me levantar do chão.

Se me vires cansado, fora do caminho,
sem ver mais espaços que o dos abismos,
lembra à minha memória que também há pontes,
que também há alas, que ainda não vimos.

Devemos seguir armados de fé e de bravura,
e seremos sempre aquilo em que acreditamos.
Que somos guerreiros da vida plena,
que tudo nos guia para o nosso lugar,
que num primeiro passo, e num novo empenho,
nos conduz de modo a não sermos vencidos.

Que a árvore se dobre,
se agite, estremeça, perca as folhas e torne a brotar,
mas permaneça erguida,
porque o único trecho que está mais à frente
é aquele que cobre o nosso pé estendido

Se me vires cansado, fora do caminho,
solitário e triste, quebrado e ferido,
senta-te do meu lado, toma as minhas mãos,
entra pelos meus olhos até ao meu esconderijo…
e diz-me…é possível! E insiste, é possível!
até que eu entenda que eu posso.


Que a tua voz desperte, a partir da tua certeza,
o que pelo cansaço ficou adormecido.
E talvez, se quiseres, empresta-me os teus braços
para incorporar-me, novo e decidido.
Porque a união é triunfo
quando seguimos ombro a ombro
com o mesmo brio.

Se me vires cansado, fora do caminho,
leva o meu olhar para o teu caminho.
Faz-me ver as pegadas, que lá estão marcadas,
um passo atrás do outro por onde vieste.

E virá contigo uma madrugada,
a voz insistente para um novo começo,
que abrirá outro rumo porque…
Sim, eu acreditei!...que é sempre possível!...
é possível…"







terça-feira, 26 de junho de 2012

É importante Foder?







É importante foder(ou não foder)?
É evidente que não, não é importante.
Fode quem fode e não fode quem não quer.
Com isso ninguém tem nada
Mas mesmo nada
A ver.

O que um tanto me tolhe é não poder confiar
Numa coisa que estica e depois encolhe,
Uma coisa que é mole e se põe a endurar e
A dilatar, a dilatar
Até não se poder nem deixar andar
Para depois se sumir
E dar vontade de rir e d'ir urinar.

Isso quiz dizer naquele verso louco que tenho ao pé:
"O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é"
Verso que, como sempre, terá ficado por perceber(por mim até).

Também aquela do "outrora-agora" e do "ah pode ser tu sendo eu"
Foi um bom trabalho
Para continuar tudo co'a cara de caralho
Que todos já tinham e vão continuar a ter
Antes, durante e depois de morrer.


in,"O Virgem Negra: 
Fernando Pessoa Explicado às Criancinhas Naturais e Estrangeiras"
Mário Cesariny





p.s.- O Virgem Negra de que ele fala, é o Fernando Pessoa...
        Interessante...e muito!
Mário Cesariny deixou aqui, em versão revista e aumentada, a suas impressões pessoais sobre Fernando Pessoa (o Virgem Negra) e a sua poesia.
O escritor constrói assim uma biografia explicativa deste poeta do Orpheu: a sua obra, de Mensagem a Poemas Ingleses, os poetas que admirava, a teoria da heteronímia e a inspiração em Aristóteles e Platão, entre outros.
Satíricos na medida certa, são versos que brincam com as palavras em português, aventurando-se por vezes pelo espanhol e pelo inglês.
Uma forma interessante de ver Fernando Pessoa através de olhos mais irreverentes.






segunda-feira, 25 de junho de 2012

Quando eu morrer






Quando morrer quero essas mãos nos meus olhos:
quero a luz e o trigo das tuas mãos amadas
passando uma vez mais em mim sua frescura:
sentir a suavidade que mudou meu destino.

Quero que vivas enquanto eu, dormindo, te espero,
quero que os teus ouvidos fiquem ouvindo o vento,
que cheires o aroma do mar que amamos ambos
e fiques pisando a areia que pisamos.

Quero que tudo o que amo fique vivo,
E a ti amei e cantei sobre todas as coisas,
Por isso fica tu florescendo, florida,
Para que alcances tudo o que este amor te
ordena,

Para que esta sombra corra o teu cabelo,
Para que assim conheçam a razão do meu
canto.


Pablo Neruda






domingo, 24 de junho de 2012

A minha viagem à recuperação







No começo
Eu duvidava que fosse possível
Resistir até ao fim.
Houve tempos de ira,
Dor, tristeza e sofrimento;
Tempos em que me perguntei:
Porquê eu?

Mas um dia
Houve um clarão de luz
E em seguida outro.
As nuvens começaram a abrir-se
E pude ver além delas.

Os momentos de alegria,
De me sentir segura,
Foram-se somando mais
Que os de medo e melancolia.
Foram tecidas novas amizades;
A desolação, a falta de confiança no meu valor,
Foram-se convertendo
Em firmeza, em resolução.
Era como passar das trevas
Para a luz, com uma nova sensação
De poder.

Agora compreendo que no meu passado há coisas
Que não posso alterar;
O que posso é impedir que mandem
na minha vida e na minha felicidade.
Sei que esta parte da minha vida
jamais acabará totalmente,
mas o lugar que ocupa na minha existência
é menos proeminente.
Comecei a permitir que outras ideias
Povoem a minha mente.
Tenho um melhor conhecimento de mim mesma,
Das minhas fragilidades e dos meus pontos fortes.
Já não temo impor limites.
Começo a desfrutar outra vez da vida
E a pensar no futuro.
Agora posso ver todo este tempo
como ele foi:
um tempo de crescimento,
de descoberta de mim mesma,
de cura.


Anna Marie Edwards





sábado, 23 de junho de 2012

Façamos um trato esta noite...







"Façamos um trato esta noite...
não sejamos tão realistas.
Você geme e suspira, eu ouço
enquanto minha boca te explora como louco
flutuando em luas surrealistas.

Façamos um trato esta noite...
efêmera é esta carne que nos lacra.
O tempo pára enquanto te despes.
O mundo desaba quando te vestes.
Ama-me antes que o pudor te rasgue como faca.

Façamos um trato esta noite...
as lágrimas são cristais do coração.
Eu sinto o fel em teus lábios maculados.
Vejo o abismo de teus olhos mascarados
que se escondem atrás de tormentos vãos...

Façamos um trato esta noite...
não adianta fugir da própria vida !
Ainda temes a flor pelos espinhos.
Ainda crês que terminaremos sozinhos.
E o amor é não mais que uma mentira.

Façamos um trato esta noite...
prometo te convencer na quietude
que o amor ideal é ao desfolhar dos dias
a felicidade nublando nosso ódio
e ter consigo sempre esta virtude."






sexta-feira, 22 de junho de 2012

Mimosa boca errante






Mimosa boca errante
à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.

Boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereces
a seu volume e jato apaixonados
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?

Mimosa boca e santa,
que devagar vais desfolhando a líquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta-lambente-lambilusamente
ligada à forma ereta qual se fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e, na morte, de viver-me.

Já sei a eternidade: é puro orgasmo.


Carlos Drummond de Andrade







quinta-feira, 21 de junho de 2012

Se eu pudesse...







"Se eu pudesse,
eu te amarraria junto a mim,
para que colado a mim,
eu pudesse ter o prazer de te sentir
 e estar contigo o tempo todo,
sentir seus sabores, suas emoções,
sua franqueza, sua fome,
sua paixão, sua dor,
seu amor...

Se eu pudesse,
nada mais existiria,
só você e eu,
um mar azul ou verde,
coqueiros altos, nuvens, céu,
calor e brisa suave...

Se eu pudesse
me mudaria com você para algum lugar tranquilo,
feliz, suave,
onde o mínimo das coisas teriam
 tanta graça, tanta cor, tanta vibração...

Se eu pudesse,
eu construiria todas as pontes
para você atravessar todas as fases da sua vida
sem se preocupar tanto, se chatear,
se decepcionar...

Se eu pudesse,
pararia o mundo
no instante que nós estamos juntos,
porque nosso amor
é gostoso demais!

Se eu pudesse fazer tudo isso e muito mais,
eu faria com gosto!
Mas, o que faço por você ou melhor,
o que consigo fazer é uma grande parte
de todo meu respeito, amor, carinho
e como sempre,
para tornar alguém livre,
devemos deixa-lo livre.

Que nossa liberdade
seja sempre
saudável,
em paz,
cheia de respeito,
reciprocidade,
maturidade.

Amor,
amo amar você!"







quarta-feira, 20 de junho de 2012

Um Adeus Português




Alexandre O'Neill




Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti



Alexandre O'Neill






terça-feira, 19 de junho de 2012

Saudades








Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades…

Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei…

Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser…

Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro…

Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser…

Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.

Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!

Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!

Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!

Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.

Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências…

Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!

Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!

Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,

Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.

Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que…
não sei onde…
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi…

Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades
Em japonês, em russo,
em italiano, em inglês…
mas que minha saudade,
por eu ter nascido no Brasil,
só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.

Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
espontaneamente quando
estamos desesperados…
para contar dinheiro… fazer amor…
declarar sentimentos fortes…
seja lá em que lugar do mundo estejamos.

Eu acredito que um simples
"I miss you"
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua,
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.

Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.

E é por isso que eu tenho mais saudades…
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.

Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência…



Clarice Lispector







segunda-feira, 18 de junho de 2012

Rifa-se um coração









Rifa-se um coração
Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste
em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade está um
pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos e, cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente que nunca desiste
de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração
que acha que Tim Maia
estava certo quando escreveu…
"…não quero dinheiro, eu quero amor sincero,
é isso que eu espero…".
Um idealista…Um verdadeiro sonhador…
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece, e mantém sempre viva a
esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando
relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer
sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome
de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional
que abre sorrisos tão largos que quase dá
pra engolir as orelhas, mas que
também arranca lágrimas
e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado
por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para
quem quer viver intensamente
contra indicado para os que apenas pretendem
passar pela vida matando o tempo,
defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras
e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer
para São Pedro na hora da prestação de contas:
"O Senhor pode conferir. Eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e,
se recusa a envelhecer"
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por
outro que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate
tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda
não foi adotado, provavelmente, por se recusar
a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio,
sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento
até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar,
mas vez por outra,
constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence
seu usuário a publicar seus segredos
e a ter a petulância de se aventurar como poeta


Clarice Lispector






domingo, 17 de junho de 2012

Renascence




Edna St. Vincent






All I could see from where I stood
Was three long mountains and a wood;
I turned and looked another way,
And saw three islands in a bay.
So with my eyes I traced the line
Of the horizon, thin and fine,
Straight around till I was come
Back to where I'd started from;
And all I saw from where I stood
Was three long mountains and a wood.
Over these things I could not see;
These were the things that bounded me;
And I could touch them with my hand,
Almost, I thought, from where I stand.
And all at once things seemed so small
My breath came short, and scarce at all.
But, sure, the sky is big, I said;
Miles and miles above my head;
So here upon my back I'll lie
And look my fill into the sky.
And so I looked, and, after all,
The sky was not so very tall.
The sky, I said, must somewhere stop,
And -- sure enough! -- I see the top!
The sky, I thought, is not so grand;
I 'most could touch it with my hand!
And reaching up my hand to try,
I screamed to feel it touch the sky.
I screamed, and -- lo! -- Infinity
Came down and settled over me;
Forced back my scream into my chest,
Bent back my arm upon my breast,
And, pressing of the Undefined
The definition on my mind,
Held up before my eyes a glass
Through which my shrinking sight did pass
Until it seemed I must behold
Immensity made manifold;
Whispered to me a word whose sound
Deafened the air for worlds around,
And brought unmuffled to my ears
The gossiping of friendly spheres,
The creaking of the tented sky,
The ticking of Eternity.
I saw and heard, and knew at last
The How and Why of all things, past,
And present, and forevermore.
The Universe, cleft to the core,
Lay open to my probing sense
That, sick'ning, I would fain pluck thence
But could not, -- nay! But needs must suck
At the great wound, and could not pluck
My lips away till I had drawn
All venom out. -- Ah, fearful pawn!
For my omniscience paid I toll
In infinite remorse of soul.
All sin was of my sinning, all
Atoning mine, and mine the gall
Of all regret. Mine was the weight
Of every brooded wrong, the hate
That stood behind each envious thrust,
Mine every greed, mine every lust.
And all the while for every grief,
Each suffering, I craved relief
With individual desire, --
Craved all in vain! And felt fierce fire
About a thousand people crawl;
Perished with each, -- then mourned for all!
A man was starving in Capri;
He moved his eyes and looked at me;
I felt his gaze, I heard his moan,
And knew his hunger as my own.
I saw at sea a great fog bank
Between two ships that struck and sank;
A thousand screams the heavens smote;
And every scream tore through my throat.
No hurt I did not feel, no death
That was not mine; mine each last breath
That, crying, met an answering cry
From the compassion that was I.
All suffering mine, and mine its rod;
Mine, pity like the pity of God.
Ah, awful weight! Infinity
Pressed down upon the finite Me!
My anguished spirit, like a bird,
Beating against my lips I heard;
Yet lay the weight so close about
There was no room for it without.
And so beneath the weight lay I
And suffered death, but could not die.

Long had I lain thus, craving death,
When quietly the earth beneath
Gave way, and inch by inch, so great
At last had grown the crushing weight,
Into the earth I sank till I
Full six feet under ground did lie,
And sank no more, -- there is no weight
Can follow here, however great.
From off my breast I felt it roll,
And as it went my tortured soul
Burst forth and fled in such a gust
That all about me swirled the dust.

Deep in the earth I rested now;
Cool is its hand upon the brow
And soft its breast beneath the head
Of one who is so gladly dead.
And all at once, and over all
The pitying rain began to fall;
I lay and heard each pattering hoof
Upon my lowly, thatched roof,
And seemed to love the sound far more
Than ever I had done before.
For rain it hath a friendly sound
To one who's six feet underground;
And scarce the friendly voice or face:
A grave is such a quiet place.

The rain, I said, is kind to come
And speak to me in my new home.
I would I were alive again
To kiss the fingers of the rain,
To drink into my eyes the shine
Of every slanting silver line,
To catch the freshened, fragrant breeze
From drenched and dripping apple-trees.
For soon the shower will be done,
And then the broad face of the sun
Will laugh above the rain-soaked earth
Until the world with answering mirth
Shakes joyously, and each round drop
Rolls, twinkling, from its grass-blade top.
How can I bear it; buried here,
While overhead the sky grows clear
And blue again after the storm?
O, multi-colored, multiform,
Beloved beauty over me,
That I shall never, never see
Again! Spring-silver, autumn-gold,
That I shall never more behold!
Sleeping your myriad magics through,
Close-sepulchred away from you!
O God, I cried, give me new birth,
And put me back upon the earth!
Upset each cloud's gigantic gourd
And let the heavy rain, down-poured
In one big torrent, set me free,
Washing my grave away from me!

I ceased; and through the breathless hush
That answered me, the far-off rush
Of herald wings came whispering
Like music down the vibrant string
Of my ascending prayer, and -- crash!
Before the wild wind's whistling lash
The startled storm-clouds reared on high
And plunged in terror down the sky,
And the big rain in one black wave
Fell from the sky and struck my grave.
I know not how such things can be;
I only know there came to me
A fragrance such as never clings
To aught save happy living things;
A sound as of some joyous elf
Singing sweet songs to please himself,
And, through and over everything,
A sense of glad awakening.
The grass, a-tiptoe at my ear,
Whispering to me I could hear;
I felt the rain's cool finger-tips
Brushed tenderly across my lips,
Laid gently on my sealed sight,
And all at once the heavy night
Fell from my eyes and I could see, --
A drenched and dripping apple-tree,
A last long line of silver rain,
A sky grown clear and blue again.
And as I looked a quickening gust
Of wind blew up to me and thrust
Into my face a miracle
Of orchard-breath, and with the smell, --
I know not how such things can be! --
I breathed my soul back into me.
Ah! Up then from the ground sprang I
And hailed the earth with such a cry
As is not heard save from a man
Who has been dead, and lives again.
About the trees my arms I wound;
Like one gone mad I hugged the ground;
I raised my quivering arms on high;
I laughed and laughed into the sky,
Till at my throat a strangling sob
Caught fiercely, and a great heart-throb
Sent instant tears into my eyes;
O God, I cried, no dark disguise
Can e'er hereafter hide from me
Thy radiant identity!
Thou canst not move across the grass
But my quick eyes will see Thee pass,
Nor speak, however silently,
But my hushed voice will answer Thee.
I know the path that tells Thy way
Through the cool eve of every day;
God, I can push the grass apart
And lay my finger on Thy heart!

The world stands out on either side
No wider than the heart is wide;
Above the world is stretched the sky, --
No higher than the soul is high.
The heart can push the sea and land
Farther away on either hand;
The soul can split the sky in two,
And let the face of God shine through.
But East and West will pinch the heart
That can not keep them pushed apart;
And he whose soul is flat -- the sky
Will cave in on him by and by.


Edna St. Vincent