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sexta-feira, 3 de abril de 2020

Vivo na esperança de um gesto







Vivo na esperança de um gesto 
Que hás-de fazer. 
Gesto, claro, é maneira de dizer, 
Pois o que importa é o resto 
Que esse gesto tem de ter. 
Tem que ter sinceridade 
Sem parecer premeditado; 
E tem que ser convincente, 
Mas de maneira diferente 
Do discurso preparado. 
Sem me alargar, não resisto 
À tentação de dizer 
Que o gesto não é só isto... 
Quando tu, em confusão, 
Sabendo que estou à espera, 
Me mostras que só hesitas 
Por não saber começar, 
Que tentações de falar! 
Porque enfim, como adivinhas, 
Esse gesto eu sei qual é, 
Mas se o disser, já não é... 


Reinaldo Ferreira




terça-feira, 3 de março de 2020

O Futuro





Aos Domingos, iremos ao jardim. 
Entediados, em grupos familiares, 
Aos pares, 
Dando-nos ares 
De pessoas invulgares, 
Aos Domingos iremos ao jardim. 
Diremos nos encontros casuais 
Com outros clãs iguais, 
Banalidades rituais 
Fundamentais. 
Autómatos afins, 
Misto de serafins 
Sociais 
E de standardizados mandarins, 
Teremos preconceitos e pruridos, 
Produtos recebidos 
Na herança 
De certos caracteres adquiridos. 
Falaremos do tempo, 
Do que foi, do que já houve... 
E sendo já então 
Por tradição 
E formação 
Antiburgueses 
- Solidamente antiburgueses -, 
Inquietos falaremos 
Da tormenta que passa 
E seus desvarios. 

Seremos aos domingos, no jardim, 
Reaccionários.


Reinaldo Ferreira




quarta-feira, 11 de abril de 2018

Sei que a ternura

 




Sei que a ternura
Não é coisa que se peça,
E dar-se não significa
Que alguém a queira ou mereça.
Estas verdades,
Que são do senso comum,
Não me dão conformação
Nem sentimento nenhum
De haver força e dignidade
Na minha sabedoria...
Eu preferia
- Sinceramente, preferia! -
Que, contra as leis recolhidas
No que ficou dos destroços
De outras vidas,
Tu me desses a ternura que te peço;
Ou que, por fim, reparasses
Que a mereço.


Reinaldo Ferreira
in, "Dispersos"






segunda-feira, 2 de abril de 2018

Medo

 




Quem dorme à noite comigo?
É meu segredo, é meu segredo!
Mas se insistirem lhes digo.
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo!

E cedo, porque me embala
Num vaivém de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.

Que farei quando, deitado,
Fitando o espaço vazio,
Grita no espaço fitado
Que está dormindo a meu lado,
Lázaro e frio?

Gritar? Quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me.
Mas eu sei que ele há-de esperar-me 
Ao pé da ponte do fim. 


Reinaldo Ferreira