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sábado, 8 de abril de 2023

Não é inútil beijar as pedras

 








Todas as manhãs saía da solidão do bolor 
e vinha para a rua 
pintado de carne de fantasma.

E o espanto era que eu não ficasse esfarrapado nas árvores 
- nevoeiro com cabelos.

O espanto era que eu não atravessasse as paredes 
mesmo ao lado das portas.

O espanto era que eu continuasse fugidiamente real 
nos olhos dos outros.

Eu que muitas vezes chorava, muitas vezes ria, muitas vezes cantava 
- mas só para dar a ilusão de boca ao silêncio.

Eu, reflexo nas montras 
onde as mulheres de chuva me acariciavam com mãos de vidro.

Eu, corpo de fumo de um incêndio que não ardia.

Eu, a solidão das palavras.

Depois vieste tu.
Bateste à porta. Abriste a todos os alçapões.
Apagaste todos os frios. Varreste as raivas dos recantos.
E num despir de lágrimas disseste-me:
"Toma os meus olhos, são de carne mágica.
Vê-te nos meus olhos para seres real,
Abre-te nos meus olhos tão de espelho doido.
Veste-te dos meus olhos para além dos poços."

E eu pus-me a cantar a alegria do Segredo Novo.

(Não, não é inútil beijar as pedras.)


José Gomes Ferreira




domingo, 19 de março de 2023

O Tempo Nos Teus Olhos

 







A história dos teus Olhos começou no Dia da Primeira Árvore 
quando as estrelas saíram dos poços para apodrecerem no céu.

Então as aves existiam apenas dentro da imaginação da luz 
e as flores ainda voavam no cio dos perfumes enlaçados.
O canto não tinha limites. Prolongava o silêncio 
até ao murmúrio das últimas constelações.

Foi então que os teus Olhos criaram o mundo.
Ordenaram as pedras com cuidado para não as acordar.
Pentearam os lagos com lírios.
Adormeceram os voos nas açucenas.
Separaram o mar das lágrimas dos homens
e deram às fogueiras este jeito de vento e de cabelos.

E pouco a pouco os teus Olhos desfizeram-se no mundo.
Diluíram-se nos vales dos regatos de choro oculto,
na fixidez de remorso dos pirilampos,
nas pálpebras verdes do crepúsculo,
nos astros ainda trémulos de lágrimas no teu rosto.

E nesta Penumbra de coração em cinzas 
que me enreda e beija e quer e dói e ama,
e és tu, és tu, és tu a olhar para mim
- num envolver de braços no pescoço.


José Gomes Ferreira



sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Morrer por um bocadinho

 







O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.

O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens não se transformam
Não cai neve vermelha
Não há flores que voem,
A lua não tem olhos
Ninguém vai pintar olhos à lua

Tudo é igual, mecânico e exacto

Ainda por cima os homens são os homens
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis, sempre os mesmos
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe
automóveis de corrida…

E obrigam-me a viver até à morte!

Pois não era mais humano
Morrer por um bocadinho
De vez em quando
E recomeçar depois
Achando tudo mais novo?

Ah! Se eu pudesse suicidar-me por seis meses
Morrer em cima dum divã
Com a cabeça sobre uma almofada
Confiante e sereno por saber
Que tu velavas, meu amor do norte.

Quando viessem perguntar por mim
Havias de dizer com teu sorriso
Onde arde um coração em melodia
Matou-se esta manhã
Agora não o vou ressuscitar
Por uma bagatela

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo…



JOSÉ GOMES FERREIRA
in, ‘VIVER SEMPRE TAMBÉM CANSA’





quarta-feira, 18 de abril de 2018

CHORO!

 





Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro 
as crianças violadas
nos muros da noite
úmidos de carne lívida
onde as rosas se desgrenham
para os cabelos dos charcos. 

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
diante desta mulher que ri
com um sol de soluços na boca
— no exílio dos Rumos Decepados. 

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
este seqüestro de ir buscar cadáveres
ao peso dos poços
— onde já nem sequer há lodo
para as estrelas descerem
arrependidas de céu. 

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
a coragem do último sorriso
para o rosto bem-amado
naquela Noite dos Muros a erguerem-se nos olhos
com as mãos ainda à procura do eterno
na carne de despir,
suada de ilusão. 

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
todas as humilhações das mulheres de joelhos nos tapetes da súplica
todos os vagabundos caídos ao luar onde o sol para atirar camélias
todas as prostitutas esbofeteadas pelos esqueleto de repente dos espelhos
todas as horas-da-morte nos casebres em que as aranhas tecem vestidos para o sopro do
silêncio
todas as crianças com cães batidos no crispar das bocas sujas
de miséria... 

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro... 

Mas não por mim, ouviram?
Eu não preciso de lágrimas!
Eu não quero lágrimas! 

Levanto-me e proíbo as estrelas de fingir que choram por mim! 

Deixem-me para aqui, seco,
senhor de insônias e de cardos,
neste òdio enternecido
de chorar em segredo pelos outros
à espera daquele Dia
em que o meu coração
estoire de amor a Terra
com as lágrimas públicas de pedra incendiada
a correrem-me nas faces
— num arrepio de Primavera
e de Catástrofe!



José Gomes Ferreira





terça-feira, 19 de abril de 2016

Iluminar por dentro as palavras de todos os dias







Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias
para te dizer, com a simplicidade do bater do coração,
que afinal ao pé de ti apenas sinto as mãos mais frias
e esta ternura dos olhos que se dão.

Nem asas, nem estrelas, nem flores sem chão
- mas o desejo de ser a noite que me guia
e baixinho ao bafo da tua respiração
contar-te todas as minhas covardias.

Ao pé de ti não me apetece ser herói
mas abrir-te mais o abismo que me dói
nos cardos deste sol de morte viva.

Ser como sou e ver-te como és:
dois bichos de suor com sombra aos pés.
Complicações de luas e saliva.


José Gomes Ferreira