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quarta-feira, 30 de maio de 2018

CORAÇÃO

 




Deixa ver se lembro
o coração
se é poema ainda no meu corpo

se ao encostar nele
a minha mão
e com ela escrever ainda o ouço

Deixa ver se entendo
a cor das lágrimas
correndo devagar pelo meu rosto

se as entorno dentro do olhar
e ao torná-las suspensas
logo as pouso

Deixa ver se encontro
entreaberta
a branda açucena do meu gosto

e ao entregá-la ao fogo
dos teus lábios
a desfolho devagar a contragosto


Maria Teresa Horta
in, Poesis




quarta-feira, 14 de junho de 2017

ABRIGO

 




Abrigo-me de ti
de mim não sei
há dias em que fujo
e que me evado

há horas em que a raiva
não sequei
nem a inveja rasguei
ou a desfaço

Há dias em que nego
e outros onde nasço

há dias só de fogo
e outros tão rasgados

Aqueles onde habito
com tantos dias vagos.



MARIA TERESA HORTA 
in, Minha Senhora de Mim




segunda-feira, 27 de março de 2017

Masturbação

 




Eis o centro do corpo
o nosso centro
onde os dedos escorregam devagar
e logo tornam onde nesse
centro
os dedos esfregam - correm
e voltam sem cessar

e então são os meus
já os teus dedos

e são meus dedos
já a tua boca

que vai sorvendo os lábios
dessa boca
que manipulo - conduzo
pensando em tua boca

Ardência funda
planta em movimento
que trepa e fende fundidas
já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde

E todo o corpo
é esse movimento
que trepa e fende fundidas
já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde

E todo o corpo
é esse movimento
em torno
em volta
no centro desses lábios

que a febre toma
engrossa
e vai cedendo a pouco e pouco
nos dedos e na palma



Maria Tereza Horta