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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Louvor do Revolucionário

 
Adrian Limani




Quando a opressão aumenta 
Muitos se desencorajam 
Mas a coragem dele cresce. 
Ele organiza a luta 
Pelo tostão do salário, pela água do chá 
E pelo poder no Estado. 
Pergunta à propriedade: 
Donde vens tu? 
Pergunta às opiniões: 
A quem aproveitais? 

Onde quer que todos calem 
Ali falará ele 
E onde reina a opressão e se fala do Destino 
Ele nomeará os nomes. 

Onde se senta à mesa 
Senta-se a insatisfação à mesa 
A comida estraga-se 
E reconhece-se que o quarto é acanhado. 

Para onde quer que o expulsem, para lá 
Vai a revolta, e donde é escorraçado 
Fica ainda lá o desassossego. 


Bertold Brecht
in, 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas' 







sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Louvor do Aprender

 

Joel Robison




Aprende o mais simples! Pra aqueles 
Cujo tempo chegou 
Nunca é tarde de mais! 
Aprende o abc, não chega, mas 
Aprende-o!   E não te enfades! 
Começa! Tens de saber tudo! 
Tens de tomar a chefia! 

Aprende, homem do asilo! 
Aprende, homem na prisão! 
Aprende, mulher na cozinha! 
Aprende, sexagenária! 
Tens de tomar a chefia! 

Frequenta a escola, homem sem casa! 
Arranja saber, homem com frio! 
Faminto, pega no livro: é uma arma. 
Tens de tomar a chefia. 

Não te acanhes de perguntar, companheiro! 
Não deixes que te metam patranhas na cabeça: 
Vê c'os teus próprios olhos! 
O que tu mesmo não sabes 
Não o sabes. 
Verifica a conta: 
És tu que a pagas. 
Põe o dedo em cada parcela, 
Pergunta: Como aparece isto aqui? 
Tens de tomar a chefia. 



Bertold Brecht
in, 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas' 






quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

O Horror de ser Pobre

 

Jack Savage




Risco c'um traço 
(Um traço fino, sem azedume) 
Todos os que conheço, eu mesmo incluído. 
Para todos estes não me verão 
Nunca mais 
Olhar com azedume. 

O horror de ser pobre! 
Muitos gabavam-se que aguentariam, mas era ver- 
-lhes as caras alguns anos depois! 
Cheiros de latrina e papéis de parede podres 
Atiravam abaixo homens de peitaça larga como toiros. 
As couves aguadas 
Destroem planos que fazem forte um povo. 
Sem água de banho, solidão e tabaco 
Nada há que exigir. 
O desprezo do público 
Arruina o espinhaço. 
O pobre 
Nunca está sozinho. Estão todos sempre 
A espreitar-lhe para o quarto. Abrem-lhe buracos 
No prato da comida. Não sabe para onde há-de ir. 
O céu é o seu tecto, e chove-lhe lá para dentro. 
A Terra enxota-o. O vento 
Não o conhece. A noite faz dele um aleijado. O dia 
Deixa-o nu. Nada é o dinheiro que se tem. Não salva ninguém. 
Mas nada ajuda 
Quem dinheiro não tem. 


Bertold Brecht
in, 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'





sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

De que Serve a Bondade

 

Anton Okicki





1

De que serve a bondade 
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos 
Aqueles para quem foram bondosos? 

De que serve a liberdade 
Quando os livres têm que viver entre os não-livres? 

De que serve a razão 
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa? 


Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos 
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor; 
A faça supérflua! 

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos 
Por criar uma situação que a todos liberte 
E também o amor da liberdade 
Faça supérfluo! 

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos 
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos 
Um mau negócio! 



Bertold Brecht 
in, 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas' 





segunda-feira, 28 de agosto de 2017

De que Serve a Bondade

 




1
De que serve a bondade 
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos 
Aqueles para quem foram bondosos?

De que serve a liberdade 
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão 
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?

2
Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos 
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor; 
A faça supérflua!

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos 
Por criar uma situação que a todos liberte 
E também o amor da liberdade 
Faça supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos 
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos 
Um mau negócio!




Bertold Brecht
in, 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas' 






sexta-feira, 15 de abril de 2016

Aos que vierem depois de nós







É verdade, vivo num tempo de sombras!
Uma palavra dita sem malícia
é sinal de tolice.
Uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Ri quem
Ainda não recebeu a terrível notícia.
Que tempos são esses, em que
Falar sobre árvores é quase um crime
Pois significa guardar silêncio sobre tanta injustiça?
Aquele que atravessa a rua tranquilo
Já está inacessível aos amigos
Que passam necessidades?
É verdade: eu ainda ganho o suficiente para viver.
Mas acreditem: é por acaso.
Nada do que faço
Me dá o direito de comer quando tenho fome.
Estou a ser poupado por acaso.
(Se a minha sorte me abandonar estou perdido.)
Há quem me diga: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que eu posso comer e beber
Se a comida que como é tirada a quem tem fome?
Se a água que bebo, faz falta a quem tem sede?
Mas mesmo assim, como e bebo.
Eu queria ser um sábio.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
Se conseguir manter-me afastado dos conflitos do mundo
E atravessar sem medo
O curto tempo que se tem para viver;
Seguir caminho sem violência;
Pagar o mal com o bem;
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!
Mas eu não consigo agir assim!
É verdade, eu vivo num tempo sombrio!
Eu vim para a cidade no tempo da desordem
Quando a fome reinava.
Eu cheguei ao convívio dos homens no tempo da revolta
E foi ao lado deles que me revoltei.
Assim se passou o tempo
Que me foi dado viver sobre a Terra.
Eu comi o meu pão no meio das batalhas.
Para dormir, deitei-me entre assassinos.
Fiz amor sem muita atenção
E não tive paciência com a Natureza.
Assim se passou o tempo
Que me foi dado viver sobre a Terra.
No meu tempo as ruas conduziam ao lodo,
E as palavras denunciavam-me ao carrasco.
Eu podia muito pouco, mas o poder dos patrões
Era mais seguro sem mim, espero.
Assim se passou o tempo
Que me foi dado viver sobre a Terra.
As forças eram limitadas.
O objectivo permanecia muito distante.
Era visível com nitidez, mas para mim
Quase fora de alcance.
Assim se passou o tempo
Que me foi dado viver sobre a Terra.
Vós que ireis emergir
Das ondas em que nos afogamos.
Pensai quando falarem das nossas fraquezas,
Nos tempos sombrios a que tiveram a sorte de escapar.
Nós existíamos através das lutas de classes,
Mudando mais de país do que de sapatos,
Desesperados quando só havia injustiça
E não havia revolta.
Sabemos as seguintes coisas:
O ódio contra a baixeza
Também endurece o rosto;
A cólera contra a injustiça
Também faz a voz ficar rouca.
Infelizmente nós,
Que queríamos preparar o terreno para a amizade,
Não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vós, quando chegar o tempo
Em que o Homem seja amigo do Homem,
Pensai em nós
Com simpatia.



Bertolt Brecht