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sexta-feira, 30 de abril de 2021

Memoriam Memoriae

 
Esat Ferruh Gürsel





Da nem sempre sublime variedade do Mundo, 
da não rara amargura, 
do remorso, 
de tudo, 

dia a dia te nutres, dia a dia te envolves! 

Dia a dia te expandes - tão grande que és o vulto 
sobreposto por vezes à linha do horizonte...
Dia a dia no dia te enforcamos, 
                                                    e à noite 
apareces de novo no trópico do sono. 

Dia a dia, no vento. Dia a dia, no tronco. 

Tens na carne incorpórea, de memória, mil corpos, 
e concentras nos olhos, aglutinantes, glaucos 
- de um verde que não é de esperança nem de escarro, 
mas de lago, de lodo, de limo delinquente -, 
a saudade e o desprezo do Mundo que te foge, 

dia a dia no mármore, dia a dia no vento.


David Mourão-Ferreira
in, ‘Memoriam Memoriae’




terça-feira, 2 de junho de 2020

O Funcionário Cansado







A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos,
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só




David Mourão-Ferreira





quarta-feira, 1 de abril de 2020

Do Tempo ao Coração


Anek S




Morte, que te insinuas
como um navio torto,
avançando às escuras
no meu corpo,

do teu cruzeiro turvo
as rugas do meu rosto
vão marcando o percurso
rancoroso!

Conheces-me por dentro.
Por fora me assinalas.
E contas com o tempo.
E tens mapas

do regime dos ventos.
E gráficos. E cartas.
E não te impacientas,
porque sabes,

de antemão sabes tudo:
desde o começo, o porto
melhor para o mergulho
da âncora no lodo!




David Mourão-Ferreira






terça-feira, 5 de novembro de 2019

LITANIA DA SOMBRA






Não perguntem nada: nós estamos dentro
do aro de frio, no frio do muro,
tão longe, tão longe da feira do Tempo!
Não perguntem nada.
Nós estamos mudos.

Puseram açaimes nas ventas do vento,
ergueram açudes nas águas do Mar…
Não perguntem nada: nós estamos dentro,
ou fora de tudo.
Não perguntem nada.
Tumulto na estrada? O bicho na concha.
Miséria na casa? O farol na montra.
Não perguntem nada, não perguntem nada:
há sempre de gládios
a ríspida sombra.

Não perguntem nada: as razões são longas.
Não perguntem nada: as razões são tristes.
Não perguntem nada: nós estamos contra.
E talvez perdidos.
E talvez perdidos.


DAVID MOURÃO-FERREIRA
in, OS QUATRO CANTOS DO TEMPO





segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

A SECRETA VIAGEM


Domingos Lopes



No barco sem ninguém, anónimo e vazio, 
ficámos nós os dois, parados, de mão dada ... 
Como podem só os dois governar um navio? 
Melhor é desistir e não fazermos nada! 
Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos, 
tornamo-nos reais, e de maneira, à proa... 
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos... 
Por entre nossas mâos, o verde mar se escoa... 
Aparentes senhores de um barco abandonado, 
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem... 
Aonde iremos ter? - Com frutos e pecado, 
se justifica, enflora, a secreta viagem! 
Agora sei que és tu quem me fora indicada. 
O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos. 
- Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada, 
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos! 


DAVID MOURÃO-FERREIRA





quarta-feira, 26 de setembro de 2018

A SECRETA VIAGEM

 





No barco sem ninguém, anónimo e vazio, 
ficámos nós os dois, parados, de mão dada ... 
Como podem só os dois governar um navio? 
Melhor é desistir e não fazermos nada! 
Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos, 
tornamo-nos reais, e de maneira, à proa... 
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos... 
Por entre nossas mâos, o verde mar se escoa... 
Aparentes senhores de um barco abandonado, 
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem... 
Aonde iremos ter? - Com frutos e pecado, 
se justifica, enflora, a secreta viagem! 
Agora sei que és tu quem me fora indicada. 
O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos. 
- Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada, 
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!


DAVID MOURÃO-FERREIRA
in, OBRA POÉTICA





quarta-feira, 11 de julho de 2018

Segunda Elegia de Natal

 




Teria hoje dezasseis anos
a nossa filha que nasceu morta
Só no silêncio a recordamos
tanto a sentimos à nossa volta

Ano após ano sempre em silêncio
emocionados fomos seguindo
todos os passos de um crescimento
no seu sorriso que nunca vimos

Subiu aos ferros da nossa cama
sem termos medo de que tombasse
Tocou nos livros que fui comprando
sem que rasgasse nem uma página

Andou connosco por longe e perto
sem ter saído do seu abrigo
Hoje intercede pelos meus netos
que nem suspeitam ser seus sobrinhos

Não teve nome    Não há retrato
E de tais dados não precisamos
Mesmo sem rosto cresceu-lhe o rasto
ao longo destes dezasseis anos

Senta-se à mesa da consoada
numa cadeira que não existe
mas cujas tábuas trazem a marca
das mãos aladas de Jesus Cristo

Agora vejo-a da tua altura
com uma fita sobre o cabelo
Vem ilibar-me de toda a culpa
dentro dos versos em que a descrevo

É tão sensata que até parece
ser mais adulta que nós os dois
Os nossos laços ela os aperta
Mal-entendidos ela os transpõe

É ela sempre quem nos reúne
Mais porventura que estando viva
Que importam chamas luas ou lumes
perante o brilho daquela cinza

Da sua morte nunca falamos
Ei-la a velar-nos do alto céu
E já tem hoje dezasseis anos
a nossa filha que não morreu.


David Mourão Ferreira






sábado, 16 de junho de 2018

Noite Apressada

 




Era uma noite apressada 
depois de um dia tão lento. 
Era uma rosa encarnada 
aberta nesse momento. 
Era uma boca fechada 
sob a mordaça de um lenço. 
Era afinal quase nada, 
e tudo parecia imenso!

Imensa, a casa perdida 
no meio do vendaval; 
imensa, a linha da vida 
no seu desenho mortal; 
imensa, na despedida, 
a certeza do final.

Era uma haste inclinada 
sob o capricho do vento. 
Era a minh'alma, dobrada, 
dentro do teu pensamento. 
Era uma igreja assaltada, 
mas que cheirava a incenso. 
Era afinal quase nada, 
e tudo parecia imenso!

Imensa, a luz proibida 
no centro da catedral; 
imensa, a voz diluída 
além do bem e do mal; 
imensa, por toda a vida, 
uma descrença total!


David Mourão-Ferreira
in, "À Guitarra e à Viola"





segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Penélope

 




Mais do que um sonho: comoção!
Sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

E recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

Mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor. 



David Mourão-Ferreira
in, Obra Poética






quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Ladainha dos Póstumos Natais

 




Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que se veja à mesa o meu lugar vazio 
Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido 
Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que só uma voz me evoque a sós consigo 
Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que não viva já ninguém meu conhecido 

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que nem vivo esteja um verso deste livro 
Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que terei de novo o Nada a sós comigo 

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que nem o Natal terá qualquer sentido 
Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que o Nada retome a cor do Infinito 



David Mourão-Ferreira
in, 'Cancioneiro de Natal' 






segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

O que ficou num fundo mar

 




Fico, depois, branco, a teu lado,
sereno, alheio e, para cúmulo,
empedernido de cansado:
estátua jacente sobre o túmulo
do meu próprio passado.

Estaco ante o sono a recear
que por meus lábios alguém diga
o que ficou num fundo mar,
o que pertence à história antiga.

Mas, como um anjo, tu te inclinas
sobre o meu sono de acordado:
e dispersas as cinzas
do passado.


David Mourão-Ferreira






segunda-feira, 26 de junho de 2017

E por vezes

 





E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos  E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos



David Mourão-Ferreira 
in, 'Matura Idade'





segunda-feira, 20 de março de 2017

PRESÍDIO





Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo 
Que dizer do pescoço, às vezes mármore, 
às vezes linho, lago, tronco de árvore, 
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

E o ventre, inconsistente como o lodo?... 
E o morno gradeamento dos teus braços? 
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne: 
é também água, terra, vento, fogo...

É sobretudo sombra à despedida; 
onda de pedra em cada reencontro; 
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono... 
Nem só de carne é feito este presídio, 
pois no teu corpo existe o mundo todo!


DAVID MOURÃO-FERREIRA 
in, OBRA POÉTICA





sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Ternura

 






Desvio dos teus ombros o lençol, 
que é feito de ternura amarrotada, 
da frescura que vem depois do sol, 
quando depois do sol não vem mais nada... 

Olho a roupa no chão: que tempestade! 
Há restos de ternura pelo meio, 
como vultos perdidos na cidade 
onde uma tempestade sobreveio... 

Começas a vestir-te, lentamente, 
e é ternura também que vou vestindo, 
para enfrentar lá fora aquela gente 
que da nossa ternura anda sorrindo... 

Mas ninguém sonha a pressa com que nós 
a despimos assim que estamos sós! 


David Mourão-Ferreira
in, "Infinito Pessoal"