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segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

A PAISAGEM

 




Essa foi a paisagem, nada abstracta,
aos poucos revelada a uma luz
crescente insinuada dentro da
casa depois na rotação
das asas sempre as aves expandindo
designações perpétuas no momento
de cobrir com a fala o céu
aí se debruçaram corpos desconhecidos
sobre a cara, esperando
por começar; então a porta tornava-se
mais clara e já não se sabia
se existia porque o exterior
perdia a forma ou era realmente
a casa que a perdia e o rosto do
pai já vinha para morrer
embora continuasse a regressar
a casa muitos dias sempre que no jardim
ao fim do dia começava aquele
bater de asas semelhante ao,
talvez menos abstracto, do início
Sempre as aves voltando me ensinavam
alguma coisa mais do que viria,
um pouco como sempre acontecia
com o bater do mar quando se ouvia
durante a noite ou ao nascer do dia
esse ruído certo entre as dispersas
palavras que no sono se partiam
dos que em barcos chegavam pela ria
Para tudo haveria uma razão
audível ou visível mesmo que
nem sempre o entendimento fosse além
das razões da poesia Era essa
a paisagem onde tudo

caberia uma existência
gravada só no esquecimento que
nela baixará, cenário da memória
por começar quando nomes houver
que possam designar
as caras sobre a cara debruçadas


Gastão Cruz





terça-feira, 2 de outubro de 2018

GOLPE

 




Por medo da insónia adio o sono
nas noites em que com um golpe frio
a memória levanta a onda morta
do irrecuperável: o que adio?

Estou deitado num tempo muito extenso
entre a luz e o escuro, estou perdido
entre o imaginado e a verdade
de um mundo sem imagens: o que adio

não é o sono de que temo a falta
nem o sonho feroz nele contido
é a história do corpo percutindo
na fundura impiedosa do vazio.


GASTÃO CRUZ
in, EXISTÊNCIA





sexta-feira, 27 de maio de 2016

DENTRO DA VIDA






Não estamos preparados para nada:
certamente que não para viver
Dentro da vida vamos escolher
o erro certo ou a certeza errada

Que nos redime dessa magoada
agitação do amor em que prazer
nem sempre é o que fica de querer
ser o amador e ser a coisa amada?

Porque ninguém nos salva de não ser
também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada:
certamente que não para morrer



GASTÃO CRUZ 
 in, A MOEDA DO TEMPO





segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

No Sol






Irás achar que foi um erro e foi 
um erro, que nada se passou 
e na verdade nada acontece nunca 
de verdade: a verdade seria 

eterna e o acontecido pertence 
aos eclipses do tempo precipícios 
em que depois da morte ficam vivos, 
como se o não estivessem, os momentos 

caídos; 
foi isso um erro porque nada existe 
nem nós, já ao império das vagas 
submetidos, 

porém na praia oblíqua onde estivemos 
permanecer no sol foi tudo o que quisemos 


Gastão Cruz
 in, A Moeda do Tempo