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terça-feira, 28 de abril de 2026

Relato sentimental da memória

 
empowernetwork
 




Amor e tempo é um conflito

que se resolve sempre com dor e esquecimento.

Porque compreender não quer dizer amar,

mas afastar-se mais: já o suspeitava

há muitos anos, quando ainda exercia arquitectura.

Aprendo tudo de novo.

Agora preciso apenas de lealdade

a alguma coisa vaga e solitária,

dura como uma rocha no meio do mar.

Às vezes a mente dos velhos

engrena com fúria a sua lógica.

Vejam-na deambular pelas suas memórias:

percorre uma costa desolada,

porque compreender não quer dizer amar,

mas afastar-se mais. Aprendo tudo de novo.


Joan Margarit




segunda-feira, 2 de setembro de 2024

HELENA


Alexandra PP





 Teu inferno é ontem, é cada instante
em que, sem saber, te perdeste
e cada instante em que te salvaste.
Quando o jovem que foste está já longe,
amar é a vingança do passado.
Vem de uma guerra onde foste vencido,
de acampamentos e armas que um dia abandonaste
na Tróia que tens dentro de ti mesmo.
Hão-de buscar-te de noite os aqueus
e apertar o cerco. Voltarás,
por uma mulher, a perder a cidade.
Helena é estes sonhos
que a vida foi apropriando.
Defende-a outra vez, a última.
E fá-lo com valentia, desarmado.

Joan Margarit



quarta-feira, 24 de julho de 2024

Vida Imaginada

  




Na minha juventude estava convencido 
de que a serenidade ajuda a imaginar. 
Agora sei que na vida imaginada 
o pior de mim já está nos alicerces. 
Já me esqueci de tantas versões históricas: 
as mentiras dos clássicos e dos românticos. 
E, ao mesmo tempo, quão aborrecido 
o actual labirinto, quão complexo e sujo, 
e, envolvendo tudo, uma noite estrelada 
que em caso algum serei capaz de compreender. 
Hoje só uma voz me fala 
surgida da dureza que há na própria vida, 
a única na qual vejo ainda alguma verdade: 
a música a cobrir o nada de beleza, 
os meus poemas, a força do amor 
e da palavra juntas. Tu e eu. 
Os que os lerem na sua própria solidão.


Joan Margarit





domingo, 7 de abril de 2024

NÃO ESTAVA LONGE, NÃO ERA DIFÍCIL

 



 

Chegou este tempo 
em que a vida perdida não magoa, 
em que a luxúria é uma luz inútil 
e a inveja se esquece. É um tempo 
de perdas prudentes, necessárias, 
não é um tempo de chegar mas de partir. 
O amor, agora, 
coincide por fim com a inteligência. 
Não estava longe, não era difícil. 
É um tempo que me deixa apenas o horizonte 
como medida da solidão. 
O tempo da tristeza protectora.


Joan Margarit




sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Relato sentimental da memória

 

Alexei Bednij




 Amor e tempo é um conflito
que se resolve sempre com dor e esquecimento.
Porque compreender não quer dizer amar,
mas afastar-se mais: já o suspeitava
há muitos anos, quando ainda exercia arquitectura.
Aprendo tudo de novo.
Agora preciso apenas de lealdade
a alguma coisa vaga e solitária,
dura como uma rocha no meio do mar.
Às vezes a mente dos velhos
engrena com fúria a sua lógica.
Vejam-na deambular pelas suas memórias:
percorre uma costa desolada,
porque compreender não quer dizer amar,
mas afastar-se mais. Aprendo tudo de novo.


Joan Margarit



sexta-feira, 15 de julho de 2022

O SAPATEIRO

 








 Costumávamos jogar ali à bola.
A praça da igreja erguia-se
uns dois metros acima de umas pequenas hortas
que estavam ao lado de um sapateiro.
Quando a bola caía, algum dos nossos
tinha de ir rápido dependurando-se.
Se o sapateiro chegava lá antes,
cortava-a com o seu cutelo.
Não sei que pescoço cortava na bola
de borracha daquelas crianças. Dava-me medo.
Um medo que já não era o mesmo
que o dos contos ou do quarto escuro.
Era um medo mais duro. Mais real.
Como quando tu estavas com outro,
ou quando morreu a nossa filha.


Joan Margarit




quarta-feira, 8 de junho de 2022

Aventura doméstica

  

Bimago





Sozinho em casa procuro nos armários.
Encontro antigos mapas de estradas,
contratos que venceram, esferográficas
que não escreverão mais cartas, velhas calculadoras
sem pilhas, relógios que o tempo derrotou.
O passado aninha-se no fundo das gavetas
como um rato triste. Vazios, os vestidos pendem
como velhas personagens que nos interpretaram.
Mas de súbito encontro a tua lingerie,
da cor da noite, da areia; fina, com pequenos bordados.
Cuecas, soutiens e meias que desdobro
e que me fazem regressar ao brilhante, embora misterioso,
fundo de amor e sexo: é ele que, de facto,
dá vida às casas, como os faróis e as luzes
de barcos e cafés a um porto ignorado.



Joan Margarit





segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Poesia

 

Gus Fine Art





 Como para Sísifo,
a vida para mim é esta rocha.
Carrego-a e conduzo-a até ao alto.
Quando cai volto a apanhá-la
e, tomando-a entre os braços,
levanto-a outra vez.
É uma forma de esperança.
Penso que teria sido mais triste
se não tivesse podido arrastar uma pedra
sem outro motivo que não fosse o amor.
Levá-la por amor até ao alto.


Joan Margarit
in, "Misteriosamente feliz"




sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

DISCURSO DO MÉTODO

 





 Em criança, eu já procurava as janelas
para fugir com o olhar.
Desde então, quando entro nalgum sítio,
Fixo onde é a porta e onde deixei o casaco.
Liberdade, para mim, quer dizer fuga.
O mundo está cheio de portas,
como o sexo, afinal, em caso de emergência.
Mas todas se vão fechando, e depressa,
para fugir, ficarão somente aquelas
janelas da infância.
De par em par abertas para saltar.


in, “Misteriosamente Feliz”
Joan Margarit




sábado, 5 de fevereiro de 2022

Não deites fora as cartas de amor

 


Westend61






 Elas não te abandonarão.
Passará o tempo, apagar-se-á o desejo
— essa flecha de sombra —
e os rostos sensuais, inteligentes, belíssimos
ocultar-se-ão em ti, no fundo de um espelho.
Cairão os anos. Cansar-te-ão os livros.
Decairás ainda mais
e perderás até a poesia.
O ruído frio da cidade nos vidros
acabará por ser a tua única música,
e as cartas de amor que tiveres guardado
serão a tua última literatura.



Joan Margarit





quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Ternura de Fundo

 




 Nos velhos discos de jazz também gosto 
de ouvir o ruído que vem do público. 
Há alguém que grita com a voz rouca, 
feliz pela prestação dos músicos. 
Há aplausos; um copo partido. 
O pulso do lugar no subúrbio 
de uma cidade do Sul. Momentos únicos 
que regressam sempre do passado. 
A vida deve ser qualquer coisa assim, 
para lá da morte: o perdido 
rumor de vozes numa noite de música. 
E a nossa alma imortal deve ser 
este instante preciso, frágil, breve, 
em que um copo retine num velho disco de jazz. 



Joan Margarit
in, "Misteriosamente Feliz"






quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Trabalhos de amor

 







 O motivo tanto faz.
É preciso procurar o que sobreviveu entre os restos.
Poderíamos sentir-nos mais seguros,
se os nossos sentimentos
são territórios de fronteira
perdidos, recuperados, outra vez perdidos?
Porque amar não é apaixonar-se.
É voltar a construir, uma e outra vez,
o mesmo pátio para ouvir os melros
quando na Primavera ainda é de noite.


Joan Margarit



domingo, 5 de dezembro de 2021

Chegas tarde ao teu tempo

 


Kathrin Federer







Chegas tarde ao teu tempo. Palavras duras
que escuto agora como uma derrota.
Mas já não sei de nenhum combate,
nem que tempo era o meu. É uma pena
não se ser ninguém, ter errado
o comboio, ter ficado sem malas,
adormecido no banco, passar ao largo,
e achar-se agora sem roupa limpa,
cansado, num hotel reles de uma só
e má estrela, que deve ser a minha.
Prescindirei de tudo menos do poeta
que fica do desastre. Fingirei ver
que no final de contas errei o século:
isto será Paris e eu Verlaine.


Joan Margarit





sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Relato sentimental da memória

  

Yukika





Amor e tempo é um conflito
que se resolve sempre com dor e esquecimento.
Porque compreender não quer dizer amar,
mas afastar-se mais: já o suspeitava
há muitos anos, quando ainda exercia arquitectura.
Aprendo tudo de novo.
Agora preciso apenas de lealdade
a alguma coisa vaga e solitária,
dura como uma rocha no meio do mar.
Às vezes a mente dos velhos
engrena com fúria a sua lógica.
Vejam-na deambular pelas suas memórias:
percorre uma costa desolada,
porque compreender não quer dizer amar,
mas afastar-se mais. Aprendo tudo de novo.


Joan Margarit