Mostrar mensagens com a etiqueta Adolfo Casais Monteiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Adolfo Casais Monteiro. Mostrar todas as mensagens

domingo, 5 de outubro de 2025

Sem Fim

 

Jason Peterson




Sempre e sem fim a vida... 
tão pesada de incerteza 
tão plena de impossíveis 
mas a tamanha altura erguida! 

Um invisível suporte
- foi-se-lhe o fio e o norte! -
sem fim aos céus sem nome 
projecta o sonho incansável 
dum reviver sem retrocesso 
dum atingir sempre passando. 

Plenitude atingida 
quer dizer nova largada 
sempre e sem fim rediviva 
a chama que não se apaga
- que a vida não tem sentido 
se dum momento parado 
se faz água estagnada 
charco em que se adormeça 
das canseiras do caminho. 

Fonte sem par 
nuvem sem forma 
a força que não se extingue 
alevanta o seu pendão 
de combate sem naufrágio
- que quanto mais as balas dão 
as setas vão a morte voa 
mais clara a nota soa 
do clamor de vitória! 

Que não há vida sem mortes 
avanço sem retrocesso 
montanha sem precipícios! 
E quanto mais sobe a vida 
na projecção dum destino 
envolto em bruma de signos 
de astrais irreais desígnios 
maior a queda se ousa 
e mais se ganha a vitória 
do quase certo de perdê-la. 

Sonhos de mares de procela 
sem bússola nem equipagem 
sem velas e sem navio! 
Mares da angústia vencida 
calcada por um desígnio 
de não parar sequer no fim! 

E lá ao longe na bruma 
num longe que sempre e sem fim 
renasce sempre mais longe 
quando vai ser atingido 
envolto em voos de chamas 
o cume sem onde espera. 
Lá 
onde sem fio 
onde sem norte 
o rumo se tece e manda.


Adolfo Casais Monteiro





domingo, 26 de setembro de 2021

Paz aos Mortos

 

 Ana Junko





Detestei sempre os arquitectos de infinito:
como é feio fugir quando nos espera a vida!
Nunca tive saudades do futuro
e o passado… o passado vivi-o, que fazer?!
– e não gosto que me ordenem venerá-los
se eu todo não basto a encher este presente.
Não tenho remorsos do passado. O que vivi, vivi.
Tenho, talvez, desprezo
por esta débil haste que raramente soube
merecer os dons da vida,
e se ficava hesitante
na hora de passar da imaginação à vida.

As pazadas de terra cobrindo o que já fui
sabem mal, às vezes; noutros dias
deliro quando lanço à vala um desses seres tristonhos
que outrora fui, sem querer.


Adolfo Casais Monteiro
in, ‘Sempre e Sem Fim’



sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Tudo se foi

 

 Daniya





Um desespero sem razão, sem origem 
na linha atual da vida até onde a conheço: 
uma visita da sombra que anda em mim, lá no fundo ... 
Um protesto do ser contra quê? Um apelo 
de que obscura lei dentro de mim negando 
a luminosa lei clara do meu norte? 

Como tudo é simples, nítido e visível 
no mundo de à flor das águas, 
no mundo real, palpável, bem presente, 
de quem sou olhando estas paredes, 
estes objetos familiares, estas coisas indiscutíveis e 
bem vivas, 
que vejo, ouço, toco! 
Mas se eu de facto sou inteiro 
nesta dádiva espontânea e amorosa ao mundo de nós 
todos, 
se não há nenhum voluntário fingimento 
nas mãos que estendo para colher! 
Que presença estranha me perturba, 
me arrasta a um mundo de trevas, de silêncios, 
de angustiosos silêncios recalcados? 

Um calafrio sobe dos confins da terra de ninguém, 
do deserto de silêncio que guardo lá bem no fundo. 
Sobe, e é ele que me ilumina, é ele que me ensina 
como núcleos, os filhos, os sabores, a doçura das coisas, 
uma magia desta vida que amo e me arrasta, 
é ele que me dá a ânsia, a esperança, o sonho, 
é ele que me dá o mundo! 

E agora, tudo se foi ... 
nem angústias, nem ânsias, nem vida ... 
Caio sobre mim como coisa perdida da gravidade, gravidade 
caio sobre mim como um silêncio ... 
Já não sei ouvir lá fora, já não sei ver 
o que vai e vem mesmo mais junto de mim. 

Só este silêncio em que espero esquecer-me de que não 
posso esquecer. 


Adolfo Casais Monteiro






terça-feira, 6 de julho de 2021

Permanência

 
Farid Sharifian




Um fruto maduro ... 
ai se ele apodrece
por esperar de mais!

Ai se a árvore morre,
ai se a terra seca
- homem, não esperes!

Ai se a vida passa
sobre os nossos corpos,
e tu se acaba
sem que a nossa mão
se apoderado
do fruto que espera!

Que se tudo morre
nas ondas vencidas
dum mar que se acalma ...
que se nada resta
mais alto subindo
depois da derrota ...
que se nada há
tão forte de vida
que mais se levante
quanto mais caiu ...
então só nos resta
uma triste cantiga
da vida ceifada:

Fomos levados de mãos atadas,
nós traídos, fomos roubados
da nossa autêntica identidade.

Fomos ceifados da nossa vida,
de nós fizemos pior que entulho,
nada alterado do que era nosso.

Em vão lançámos as mãos prà vida;
em vão quisemos que fosse nossa.
Donos de nada, em tudo intrusos,
temos apenas, bem nossa, a morte.


Adolfo Casais Monteiro





domingo, 4 de julho de 2021

Eu falo das casas e dos homens

 

Cristian Townsend





 Eu falo das casas e dos homens, 
dos vivos e dos mortos: 
do que passa e não volta nunca mais... 
Não me venham dizer que estava materialmente 
previsto, 
ah, não me venham com teorias! 
Eu vejo a desolação e a fome, 
as angústias sem nome, 
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas 
das vítimas. 

E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima, 
uma insignificante parcela da tragédia. 
Eu, se visse, não acreditava. 
Se visse, dava em louco ou profeta, 
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada, 
- mas não acreditava! 

Olho os homens, as casas e os bichos. 
Olho num pasmo sem limites, 
e fico sem palavras, 
na dor de serem homens que fizeram tudo isto: 
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira, 
esta lama de sangue e alma, 
de coisa a ser, 
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança, 
se o ódio sequer servirá para alguma coisa... 

Deixai-me chorar - e chorai! 
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos, 
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama, 
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio, 
por um segundo seremos os mortos e os torturados, 
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados, 
seremos a terra podre de tanto cadáver, 
seremos o sangue das árvores, 
o ventre doloroso das casas saqueadas, 
- sim, por um momento seremos a dor de tudo isto... 

Eu não sei porque me caem as lágrimas, 
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim, 
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra, 
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto, 
eu que estou na minha casa sossegada, 
eu que não tenho guerra à porta, 
- eu porque tremo e soluço? 
Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós? 

Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros: 
as ruas são ruas com gente e automóveis, 
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis, 
e a miséria é a mesma miséria que já havia... 
E se tudo é igual aos dias antigos, 
apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir, 
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente, 
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos, 
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta, 
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...


Adolfo Casais Monteiro





terça-feira, 15 de junho de 2021

ANEL QUEBRADO

 

Adele Payman 





A vida não tem portas nem janelas ...
por isso vos enganais no jogo vão 
de lhe querer dar limites. 

Ouve, ouve em ti o grande apelo 
da tua própria vida que resiste 
ao voto de a fechares num já previsto 
anel de ininterruptos regressos. 

Aniquila a vão perserverança 
na resignação. 
Cala essa voz cobarde que te pede 
só descanso. 

Vai por aí fora, e deixa vir 
sobre ti o vendaval do inesperado! 
Deixa gritar como vozes da quimera, 
deixa clamar o apelo da loucura! 

E vai! Vai até onde 
a tua força vá. Segue-te, 
não sigas como insinuações da cobardia. 

És sangue e nervos e vontade e audácia! 
Cumpre-te. 
Vai como nuvens ou vaga, 
com uma seta ou o rio ou a chama ...
mas vai contigo!


Adolfo Casais Monteiro
in “Poesias Completas”






sábado, 11 de abril de 2020

Confusão





Pelos caminhos incertos
dum país de sonho e bruma
vou desvairado à procura
de qualquer coisa que sinto
fugir-me por entre os dedos.
Não sei bem o que persigo
- e que importa isso à vida? -
o essencial é apenas
perseguir alguma coisa
para não ser absurdo
o tanto tempo perdido
a divagar neste mundo.


Adolfo Casais Monteiro





quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Tão Miseráveis


Nicolas Bruno




Porquê tanta mentira, tamanhos disfarces,
tanto veneno corrompendo a nossa vida,
e os dias que passam,
e as nossas bocas seladas para a palavra de amor e de carinho?
Porquê o silêncio quando estuamos de amor,
a máscara, a voz contrafeita, o falar doutra coisa?
Que maldição nos corrompe
para assim nos fecharmos no quarto enregelado?

Miséria... e os dias passam
e a vida vai tecendo à nossa volta o seu arame farpado,
e lá vamos,
a boca fechada, a palavra intacta,
tão miseráveis que nem sabemos já da nossa degradação...


Adolfo Casais Monteiro  






terça-feira, 26 de novembro de 2019

Eu Falo Das Casas E Dos Homens


Kenan Talas






Eu falo das casas e dos homens, 
dos vivos e dos mortos: 
do que passa e não volta nunca mais... 
Não me venham dizer que estava matematicamente 
previsto, 
ah, não me venham com teorias! 
Eu vejo a desolação e a fome, 
as angústias sem nome, 
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas 
das vítimas. 
E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima, 
uma insignificante parcela da tragédia. 
Eu, se visse, não acreditava. 
Se visse, dava em louco ou profeta, 
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada, 
- mas não acreditava! 

Olho os homens, as casas e os bichos. 
Olho num pasmo sem limites, 
e fico sem palavras, 
na dor de serem homens que fizeram tudo isto: 
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira, 
esta lama de sangue e alma, 
de coisa e ser, 
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma 
esperança, 
se o ódio sequer servirá para alguma coisa... 

Deixai-me chorar - e chorai! 
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos 
vivos, 
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito
instituição 
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama, 
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio, 
por um segundo seremos os mortos e os torturados, 
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados, 
seremos a terra podre de tanto cadáver, 
seremos o sangue das árvores, 
o ventre doloroso das casas saqueadas, 
- sim, por um momento seremos a dor de tudo isto... 

Eu não sei porque me caem as lágrimas, 
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim, 
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra, 
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto, 
eu que estou na minha casa sossegada, 
eu que não tenho guerra à porta, 
- eu porque tremo e soluço? 
Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós? 

Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus 
meandros: 
as ruas são ruas com gente e automóveis, 
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis, 
e a miséria é a mesma miséria que já havia... 
E se tudo é igual aos dias antigos, 
apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir, 
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente, 
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos, 
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite 
à volta, 
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada... 


Adolfo Casais Monteiro




domingo, 4 de agosto de 2019

Desfloramento





Venho das noites escuras 
e aprendi a ver nas trevas 
e a ler nas trevas. 
Venho das noites escuras 
e sei o grande soluço das sombras 
e os cânticos impotentes dos peregrinos. 
Venho das noites escuras 
daí o meu amor imenso pela luz! 
Quanto mais treva era a treva 
melhor eu aprendia a amar a luz do sol
e dos meus olhos sempre mais e mais abertos 
a luz interior irradiando aniquilava as sombras... 
E sendo sempre noite já a pouco e pouco era mais manhã. 
E cada vez mais enorme e definitiva a manhã subia
apesar da treva apesar do silêncio apesar de tudo! 
O negrume da noite era uma incandescência prenhe.

A flor romântica da treva esfolhou-se-me nos dedos. 
E então nasci. 
E então vi que estava nu
e alegrei-me por estar nu
enfim! 
Sorvi os frutos da terra
e já não me souberam a papel impresso! 
Sacudi a poeira do que me tinham ensinado
e comecei a saber. 

Sob as palavras surgiu enfim a voz
e a canção ardente da vida já não encontrou algodão 
nos meus ouvidos. 

Ah! Só quem veio das trevas e das noites escuras 
pode amar assim o imenso mundo do sol! 


Adolfo Casais Monteiro