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quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Wenders



Pixnio




digo: guardei cuidadosamente
o presente em tons de passado,
sem jamais ousar aguardar nada
desse futuro que cultivava
igonoto e desabitado da virtude
que Péguy declarou a mais pequena

calcorreava as sendas
criadas pelos instantes de um
quotidiano delineado cuidadosamente
nos extremos da onda que mede a
dimensão corpuscular da luz,
distante das matizes que pintaram a minha infância

eu, militante da razão cega,
que sempre quis de tudo conhecer a justificação,
tinha ouvido     incréu     os relatos de quem
declarava ter conhecido alguém capaz
de redimensionar a luz
para além das teorias da física

e tu desconstruíste o tempo
deste-me a beber a esperança
e recordaste-me que nem tudo é
definido pela luz e pela sua ausência
tu     que a sabias tornar tangível,
telúrica     intemporal

e eis que em toda amplitude
de um simples abraço dado com 
uns olhos cor de avelã
me retorquiste que
coisas há que devemos aceitar
sem lhes questionar o porquê

qual ave trituraste com a tua boca
as certezas
a razão
e o tempo
depositando na minha     ávida de um sentido
pequenos pedaços de ternura 


Rui Amaral Mendes 
in, A Noite e Sangue 




sexta-feira, 13 de maio de 2022

Resgatado


 







 e era noite 
o espaço por mim habitado 
lugar onde imaginava 
os encontros do apóstolo com 
“os que jaziam 
na região sombria da morte” 

e era noite 
o tempo que me cobria quando 
na mente ecoavam as palavras 
que me tinham dito um dia: 
“entra apenas. permanece até ao fim. 
e sai mudado.” 

e era noite 
e eu buscava uma porta 
passagem 
para esse outro lugar 
onde aprenderia a pegar no fogo 
sem me queimar 

e era noite 
quando em meu peito repousaste a cabeça 
teus longos cabelos 
se espraiando em meu colo 
caindo por trás do pescoço que 
abandonaras nos meus braços 

e era noite 
quando mergulhei na luz do teu olhar 
e cometendo uma heresia 
disse: “eu sei que não sou digno 
que entres na minha morada 
mas diz uma palavra e serei salvo” 

e era noite 
quando dois rubros lábios 
me revelaram com três sílabas 
a porta nimbada de ternura que buscava

e resgatado ao deserto 
assim me entregaste de novo à vida.


Rui Amaral Mendes 
in, Frágil





domingo, 8 de maio de 2022

Do Fundo do Silêncio

 

Gregory Colbert 
in, Ashes and Snow






quando o tempo orbitava em torno do útero
 e as mãos fundavam um inocente contínuo com o presente
 desconhecia a essência inabitável do pretérito
 e as minudências de um tempo ausente e indefinido;
 
 mais tarde revelaram-me a oponibilidade do polegar e
 o mecanismo da flexão dos dedos
 e descobri um espaço ausente por dentro de um punho
 onde cuidei ser possível encerrar o futuro:
 
 desconhecia o sublime e transcendental movimento dos astros
 a ininterrupção primacial da luz
 e a circulação das folhas
 sob o vento que sopra onde quer.
 
 
 
Rui Amaral Mendes
in, “Do Fundo do Silêncio”




quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Estações

 




Gosto de te rever a silhueta
sob essa luz que revela
as cores quentes das folhas
que caem no Outono,
observando o desmaio suave
da tua saia no chão do quarto,
ou simples movimento descente
dos meus dedos pelo teu rosto.

Por detrás da horizonte das
memórias que construímos
repousa pergunta agreste que
sobrepuja o encantamento:
que pecado, silêncio ou grito
afugentou o Verão do nosso amor?

Sempre cuidaste as águas que navegas
plácidas como as de um lago
- avessas aos crepusculares arroubos de corsário velho de mil refregas! -
mas esquecidas do essencial:
até os barcos de água doce
pedem ventos e correntes que os animem,
como as cinzas suspiram pelo fogo
e as sementes pelo florir da árvore em nova Primavera.

Conjuro-te: em terra outrora fértil
ousemos ser jardineiros
podando velha árvore
ou dando à terra novas sementes.
Tanto faz! Mas não permaneças
na preguiçosa esperança de uma hibernação redentora. 
Lembra-te: o Inverno é longo, a vida breve, 
as recordações por si só mortais.

"Vem" e "adeus" esperam-nos:
abraço apaixonado ou costas voltadas,
decidamos nós sentença e destino, que
as estações seguem livre curso e
do juízo do tempo
não haverá apelação. 


Rui Amaral Mendes 
(RAM Maverick)
in, Frágil





terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Memórias post-mortem

 




Frio...
Pantominas estáticas de mimo
Em corpo frio e rígido, desprovido
Do sangue que dá vida, agora imóvel
Em livores discretamente dispersos pela matéria
Que enformou o teu Ser.

Longo sono decretado por Morfeu,
Que tentou despojar-me de ti.

Intento, todavia, negado por
Rede intrincada de memórias
Vivas e para sempre presentes na minha mente
Onde percorro a intemporal teia
Longa e diligentemente executada por Aracne
E re-vivo cada um dos momentos
Que te confirmaram como um Homem aos meus olhos,
Anuindo a permanência de quem foste
Na plenitude das conformações que 
Compreendem a dimensão incorpórea do Ser.


Rui Amaral Mendes





sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Noite de Estio

 




Notas suaves ecoam pelo quarto
Numa calma noite de Estio.
A natureza ascética da música envolve-me,
Transportando-me para fora da loucura humana.

Conduz-me à profundidade
De um sentimento devolvido,
Enlevando-me em imagens metafóricas
Que me revelam o significado
De tudo o que é etéreo.

Silêncios cortados
Pelo ambiente orfeico,
Onde, te olhando,
Me deleito no brilho de uma alma
Que me concede o donaire de um sentimento dúctil.

Sensações auditivas
Acalentam a visualização de um corpo nu, arqueado
Que contém a lubricidade que quero tangível.
Tronco descaído,
Os cabelos livres, em queda
Realçando a sensualidade de cumes cor de terra
E vales de alabastro cujas torrentes
Anseio percorrer

A beleza aflorada
Nas projecções vertidas nas paredes,
Quais sombras chinesas,
Ao som das notas que discorrem novos firmamentos.

Eis que realizo que o engenho do amor
Se revela no mais ínfimo grão das percepções sensorais,
E no domínio do supremo dom de ousar ouvir
O apurar do Universo rumo ao esperado parto
Em que te direi, amena, mansa e simplesmente:
“Amo-te!” 


Rui Amaral Mendes





terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Um no Outro

 




Desejo
A visão do teu corpo lânguido
Deitado sobre o leito do quarto

Vislumbro nas sombras
Que se projectam na penumbra
O erotismo de dois corpos
Que se compreendem,
Ansiando o momento do abandono
Ás linguagens idiossincráticas
Da natureza metafísica e intemporal
Do desejo.

Lábios tumescidos e ardentes
Aspiram a tez láctea que reveste
Quem és.

Cabelo seríceo cai
Sobre os teus ombros
Afagando docemente
O rosto de menina carente
Onde se ante-vê a malícia da
Feminilidade felina de um olhar.

O contorno delicadadamente decalcado
Dos teus seios
Onde me perco
Rumo à Origem do Mundo,
Onde experiencias a plétora sensorial.

E no fim,
O cheiro do teu corpo depois do amor
Enfim, eu em ti, tu em mim,
Um no outro.


Rui Amaral Mendes 





quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

e era noite

 




e era noite 
o espaço por mim habitado 
lugar onde imaginava 
os encontros do apóstolo com 
“os que jaziam 
na região sombria da morte” 

e era noite 
o tempo que me cobria quando 
na mente ecoavam as palavras 
que me tinham dito um dia: 
“entra apenas. permanece até ao fim. 
e sai mudado.” 

e era noite 
e eu buscava uma porta 
passagem 
para esse outro lugar 
onde aprenderia a pegar no fogo 
sem me queimar 

e era noite 
quando em meu peito repousaste a cabeça 
teus longos cabelos 
se espraiando em meu colo 
caindo por trás do pescoço que 
abandonaras nos meus braços 

e era noite 
quando mergulhei na luz do teu olhar 
e cometendo uma heresia 
disse: “eu sei que não sou digno 
que entres na minha morada 
mas diz uma palavra e serei salvo” 

e era noite 
quando dois rubros lábios  
me revelaram com três sílabas 
a porta nimbada de ternura que buscava 
e resgatado ao deserto 
assim me entregaste de novo à vida. 


Rui Amaral Mendes 
in, "A Noite o Sangue"