Mostrar mensagens com a etiqueta Egito Gonçalves. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Egito Gonçalves. Mostrar todas as mensagens

sábado, 18 de fevereiro de 2023

Com palavras

 







 Com palavras me ergo em cada dia!
Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto
e saio para a rua.
Com palavras - inaudíveis - grito 
para rasgar os risos que nos cercam.

Ah!, de palavras estamos todos cheios.
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor 
em quatro ou cinco línguas.
Tomamo-las à noite em comprimidos 
para dormir o cansaço.

As palavras embrulham-se na língua.
As mais puras transformam-se, violáceas,
roxas de silêncio. De que servem 
asfixiadas em saliva, prisioneiras?

Possuímos, das palavras, as mais belas;
as que seivam o amor, a liberdade...
Engulo-as perguntando-me se um dia
as poderei navegar, se alguma vez 
dilatarei o pulmão que as encerra.

Atravessa-nos um rio de palavras com:
com elas eu me deito, me levanto,
e faltam-me palavras para contar...


Egito Gonçalves
in 'Antologia Poética'


quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Notícias do Bloqueio

 

 ULLSTEIN BILD HESSE





 Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos…
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
– único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima…

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
e a esperança reproduz-se.


Egito Gonçalves





domingo, 5 de maio de 2019

Palavras





Direi apenas as palavras de amor que te endereço
envolvidas na nudez inicial!...
Direi as que te envio pelo fio telefónico,
as que te escrevo numa carta lacrada,
as que guardas à chave na gaveta;
as que a minha boca coloca nos teus olhos
e as que transformam o teu riso em arbustos floridos.
Direi somente as palavras vulgares e milenárias, 
viciadas pelos usos mais diversos,
que têm mentido amores, construído amores,
envenenado e sustentado amores...
direi apenas essas - mais nenhumas!
As que projectam luz directa nos teus passos
para contar a nossa história, a pobre história
de uma casa, uma cama, um orçamento,
- a história tão banal mas espiada
por entidades misteriosas e solenes
que velam para que nada seja escrito.
Direi apenas as palavras de paixão
que te remeto em flechas aceradas
por sobre a multidão espavorida;
as que te arrancam de um corredor sombrio
para outro que os meus dedos iluminam;
as que fecham o alçapão das tuas mágoas
e rasgam a parede de silêncio;
as que telefono com a cabine aberta
cuspindo na ironia dos que passam;
as que te oferecem um galhardete colorido
e te auxiliam a patinar sorrindo
sobre a endurecida maldição antiga;
as que destroem o veneno da tristeza
e garantem a tua marcha musculado;
direi apenas essas... mais nenhumas!
As que arborizam o interior da solidão
e as que te escrevo com um dedo nas espáduas.


Egito Gonçalves




segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Convite

 





Nesta fase em que só o amor me interessa
o amor de quem quer que seja
do que quer que seja
o amor de um pequeno objecto
o amor dos teus olhos
o amor da liberdade

o estar à janela amando o trajecto voado
das pombas na tarde calma

nesta fase em que o amor é a música de rádio
que atravessa os quintais
e a criança que corre para casa
com um pão debaixo do braço

nesta fase em que o amor é não ler os jornais

podes vir podes vir em qualquer caravela
ou numa nuvem ou a pé pelas ruas
- aqui está uma janela acolá voam as pombas -

podes vir e sentar-te a falar com as pálpebras
pôr a mão sob o rosto e encher-te de luz

porque o amor meu amor é este equilíbrio
esta serenidade de coração e árvores



Egito Gonçalves