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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

A Fonte de Sangue






Parece-me, por vezes, que o meu sangue escorre
Em ritmados soluços, tal como uma fonte.
Oiço-o tão bem escorrer com um murmúrio infinito,
Mas apalpo-me em vão para encontrar a ferida.

Através da cidade, como num baldio,
Lá vai ele, transformando as calçadas em ilhas,
Satisfazendo a cada criatura a sede
E avermelhando em todo o lado a natureza.

Pedi já várias vezes a capciosos vinhos
Que acalmem por um dia o terror que me mina;
O vinho aclara a vista e afina o ouvido!

Procurei no amor um sono e um olvido;
Mas o amor é um colchão de agulhas, para mim,
Só pra dar de beber às cruéis raparigas!



Charles Baudelaire
in, As Flores do Mal





quarta-feira, 26 de abril de 2017

Eu sou um cemitério que a lua abomina

 

Jörg Heidenberger





Mesmo uma cómoda entulhada com lembranças,
Notas velhas, cartas de amor, fotografias, recibos,
Deposições judiciais, cachos de cabelo em tranças,
Esconde menos segredos do que o meu cérebro
[poderia produzir.
É como uma tumba, um cemitério de indigentes
[cheio de corpos,
Uma pirâmide onde os mortos se deitam às
dezenas.
Eu sou um cemitério que a lua abomina.


Charles Baudelaire




sábado, 22 de abril de 2017

Spleen

 

Mika Suutari





Quando o cinzento céu, como pesada tampa, 
Carrega sobre nós, e nossa alma atormenta, 
E a sua fria cor sobre a terra se estampa, 
O dia transformado em noite pardacenta;

Quando se muda a terra em húmida enxovia 
D'onde a Esperança, qual morcego espavorido, 
Foge, roçando ao muro a sua asa sombria, 
Com a cabeça a dar no tecto apodrecido;

Quando a chuva, caindo a cântaros, parece 
D'uma prisão enorme os sinistros varões, 
E em nossa mente em febre a aranha fia e tece, 
Com paciente labor, fantásticas visões,

- Ouve-se o bimbalhar dos sinos retumbantes, 
Lançando para os céus um brado furibundo, 
Como os doridos ais de espíritos errantes 
Que a chorrar e a carpir se arrastam pelo mundo;

Soturnos funerais deslizam tristemente 
Em minh'alma sombria. A sucumbida Esp'rança, 
Lamenta-se, chorando; e a Angústia, cruelmente, 
Seu negro pavilhão sobre os meus ombros lança!



Charles Baudelaire
in, "As Flores do Mal"







terça-feira, 18 de abril de 2017

VAMPIRO

 



Tu que, como uma punhalada
Invadiste meu coração triste,
Tu que, forte como manada
De demónios, louca surgiste,

Para no espírito humilhado
Encontrar o leito ao ascendente,
- Infame a que eu estou atado
Tal como o forçado à corrente,

Como a seu jogo o jogador,
Como à garrafa o beberrão,
Como aos vermes a podridão
- Maldita sejas, como for!

Implorei ao punhal veloz
Dar-me a liberdade, um dia,
Disse após ao veneno atroz
Que me amparasse a covardia.

Mas não! O veneno e o punhal
Disseram-me de ar zombeiro
"Ninguem te livrará afinal
De teu maldito cativeiro

Ah! imbecil-de teu retiro
Se te livrássemos um dia,
Teu beijo ressuscitaria
O cadaver de teu vampiro!



Charles Baudelaire





sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Convite à Viagem





Irmã, filha, escuta,
Pensa na doçura 
De irmos para lá viver, sim!
Amar à vontade,
Amar e morrer
Nessa terra igual a ti!
Os húmidos sóis
Dos nevoentos céus
Têm pra mim os encantos
Assim misteriosos
Dos teus falsos olhos,
Entre as lágrimas brilhando.

Lá tudo é beleza e luxo,
É ordem, calma e volúpia.

Móveis reluzentes,
Polidos pelo tempo,
Decorariam a câmara;
As mais raras flores
Fundindo os odores
Ao vago aroma do âmbar,
Riquíssimos tectos,
Profundos espelhos,
O esplendor oriental,
Tudo falaria
Com a alma em surdina
A sua língua natal.

Lá tudo é beleza e luxo,
É ordem, calma e volúpia.

Vê nesses canais
Dormir essas naus
Cujo humor é vagabundo;
É pra saciar
As tuas vontades
Que vêm do fim do mundo.
- Os sóis, já deitando-se,
Envolvem os campos,
Os canais, toda a cidade,
Com oiro e jacinto;
E o mundo dormindo
Numa quente claridade.

Lá tudo é beleza e luxo.
É ordem, calma e volúpia.


Charles Baudelaire
in, "As flores do mal"