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domingo, 19 de dezembro de 2021

Plenitude

 



Nada a esperar.
Nada a buscar.
Nenhum lugar onde ir. 
Eu me sinto sentada sob a sombra de uma árvore generosa, 
numa tarde azul sem pressa, 
os pássaros bordando o céu com o seu balé harmonioso. 
O meu coração é pleno, nenhuma fome.

Plenitude não é extensão nem permanência: 
é quando a vida cabe no instante presente, sem aperto, 
e a gente desfruta o conforto de não sentir falta de nada.


Ana Jácomo







sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Almas perfumadas

 

 




Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta. 
De sol quando acorda. De flor quando ri. 
Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso 
numa tarde grande, sem relógio e sem agenda. 
Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça. 
Lambuzando o queixo de sorvete. Melando os dedos com algodão doce 
da cor mais doce que tem pra escolher. 
O tempo é outro. E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas 
que a gente desaprende de ver.

Tem gente que tem cheiro de colo de Deus. 
De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul. 
Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis. 
Ao lado delas, a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo. 
Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso. 
Ao lado delas, pode ser abril, mas parece manhã de Natal 
do tempo em que a gente acordava e encontrava o presente do Papai Noel.

Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e 
daquelas que conseguimos acender na Terra. 
Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a gente tem certeza. 
Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito de alegria. 
Recebendo um buquê de carinhos. 
Abraçando um filhote de urso panda. 
Tocando com os olhos os olhos da paz. 
Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave que sua presença 
sopra no nosso coração.

Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa. 
Do brinquedo que a gente não largava. 
Do acalanto que o silêncio canta. 
De passeio no jardim. 
Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume 
que vem de dentro e que 
a atração que realmente nos move não passa só pelo corpo.
 Corre em outras veias. Pulsa em outro lugar. 
Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos 
Deus está dançando conosco de rostinho colado. 
E a gente ri grande que nem menino arteiro.

Costumo dizer que algumas almas são perfumadas, 
porque acredito que os sentimentos também têm cheiro 
e tocam todas as coisas 
com os seus dedos de energia. 
Minha avó era alguém assim. 
Ela perfumou muitas vidas com sua luz e suas cores. 
A minha, foi uma delas. 
E o perfume era tão gostoso, tão branco, tão delicado, que ela mudou de frasco, mas 
ele continua vivo no coração de tudo o que ela amou. 
E tudo o que eu amar vai encontrar, de alguma forma, os vestígios 
desse perfume de Deus, que, numa temporada, se vestiu de Edith, 
para me falar de amor.


Ana Jácomo




quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Ser sensível




Ser sensível nesse mundo requer muita coragem.
Muita. Todo dia.
Esse jeito de ouvir além dos olhos, de ver além dos ouvidos,
de sentir a textura do sentimento alheio tão clara no próprio coração
e tantas vezes até doer ou sorrir junto com toda sinceridade.
Essa sensação, de vez em quando, de ser estrangeiro e não saber falar o idioma local,
de ser meio ET, uma espécie de sobrevivente de uma civilização extinta.
Essa intensidade toda em tempo de ternura minguada.
Esse amor tão vivido em terra em que a maioria
parece se assustar mais com o afecto do que com a indelicadeza.
Esse cuidado espontâneo com os outros.
Essa vontade tão pura de que ninguém sofra por nada.
Esse melindre de ferir por saber, com nitidez, como dói se sentir ferido.
Ser sensível nesse mundo requer muita coragem. Muita. Todo dia.
Essa saudade, que faz a alma marejar,
de um lugar que não se sabe onde é, mas que existe, é claro que existe.
Essa possibilidade de se experimentar a dor, quando a dor chega,
com a mesma verdade com que se experimenta a alegria.
Essa incapacidade de não se admirar com o encanto grandioso
que também mora na subtileza.
Essa vontade de espalhar buquês de sorrisos por aí,
porque os sensíveis, por mais que chorem de vez em quando,
não deixam adormecer a ideia de um mundo que possa acordar sorrindo.
Para toda gente. Para todo ser. Para toda vida.
Eu até já tentei ser diferente, por medo de doer,
mas não tem jeito: só consigo ser igual a mim.



Ana Jácomo