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terça-feira, 10 de dezembro de 2019

AS PALAVRAS NÃO-AMADAS





As palavras não-amadas
desgastam-se
como películas usadas
pela desatenção do tempo

As palavras não-amadas
tornam-se vagas testemunhas
de um esplendor desprezado
vagueiam sem sentido
como solitárias carpas
no aquário do tempo

A marca do vivido
auto-usa-se
quando não acreditamos mais


ANA HATHERLY
in, O PAVÃO NEGRO





domingo, 3 de setembro de 2017

O tempo

 




O tempo é um passo
Que em seu próprio espaço
Cabe.

Com ele partimos
E nele regressamos
Cumprindo o indirecto plano
Da reintegração:

É a flecha
Desferida do arco de toda a invenção



Ana Hatherly
in, As Aparências 

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

SÁTIRA BARROCA I – O PRAZER DOS CASAIS

 




Os mesclados jogos esponsais
Lugar obrigatório de cristais
Decorrem de proximidades desiguais

Infamantes sombrias mas legais
As exigências intensas conjugais
Perluzem pelos preitos maritais

Repercussões: efeitos sociais
Repartição de legados essenciais
Injunções recalques preceituais
A familia é o prazer dos casais



Ana Hatherly 
in, A NEO-PENÉLOPE





quinta-feira, 24 de agosto de 2017

O sonho

 




O sonho é a ponte
Que vai do infinito ao infinito,
É a medida sem comparação,
É a presença do que se imagina.

Sonhar talvez só seja
Reconhecer o que já nem a alma sinta
Nem o próprio pensamento veja.



Ana Hatherly
in, As Aparências




terça-feira, 28 de março de 2017

Se eu pudesse

 



Se eu pudesse dar-te aquilo que não tenho
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo com que sonhas
e o que só por mim poderá ter sonhado

Se eu pudesse dar-te o sopro que me foge
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo que descubro
e descobrir-te o que de mim se esconde

Então serias aquele que existe
e o que só por mim poderá ter sonhado.



ANA HATHERLY 
in, A IDADE DA ESCRITA






domingo, 15 de maio de 2016

Esta Gente / Essa Gente





O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente

NENHUMA!

A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente



Ana Hatherly
in, "Um Calculador de Improbabilidades"






quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Esta Noite Morrerás


Ana Hatherly
Escuta o Conto Profano
1998





Esta noite morrerás. 
Quando a lua vier tocar-me o rosto 
terás partido do meu leito 
e aquele que procurar a marca dos teus passos 
encontra urtigas crescendo 
por sobre o teu nome. 
Esta noite morrerás. 
Quando a lua vier tocar-me o rosto 
terás partido do meu leito 
e uma gota de sangue ressequido 
é a marca dos teus passos. 
No coração do tempo pulsa um maquinismo ínscio 
e na casa do tempo a hora é adorno. 
Quando a lua vier tocar-me o rosto a tua sombra extinta marca 
o fim de um eclipse horário de uma partida iminente e o tempo 
apaga a marca dos teus passos sobre o meu nome. 
Constante. 
O mar é isso. 
A lua vir tocar-me o rosto e encontrar urtigas crescendo 
por sobre o teu nome. 
O mar é tu morreste. 
O mar é ser noite e vir a lua tocar-me o rosto quando tu par- 
tiste e no meu leito crescem folhas sangue. 
A febre é uma pira incompreensível como a aparição da lua 
e a opacidade do mar. 
No meu leito a lua vai tocar-me o rosto e a tua ausência é um 
prisma, um girassol em panóplia. 
Agora a lua chega devagar e o mar é o leito de tu teres 
partido, uma infrutescência de eu procurar a marca dos teus 
passos por sobre o meu rosto. 
A noite é eu procurar a marca dos teus passos. 
Esta noite a lua terá um halo de concêntricas florações 
de gotas do teu sangue e a irisada sombra do meu leito 
é o teu rosto iminente. 
A lua é uma seta. 
Tu partiste é o silêncio em forma de lança. 
Esta noite vou erguer-me do meu leito e quando a lua vier 
tocar-me o rosto vou uivar como um lobo. 
Vou clamar pelo teu sangue extinto. 
Vou desejar a tua carne viva, os teus membros esparsos, 
a tua língua solta. 
O teu ventre, lua. 
Vou gritar e enterrar as unhas nos teus olhos até que 
o mar se abra e a lua possa vir tocar-me o rosto. 
Esta noite vou arrancar um cabelo e com a tua ausência faço 
um pêndulo para interrogar a lua por tu teres partido e a marca 
dos teus passos ser a razão mágica de a lua poder surgir de 
noite e urtigas crescerem no meu leito. 
E se encontrar a marca dos teus passos vou crivar-lhe 
o coração de alfinetes para que tu partiste seja a razão 
mágica de tu poderes morrer-te. 
Quando a lua vier em forma de lança vai trespassar um pássaro 
para lhe ler nas entranhas a direcção tu partiste e a marca dos 
teus passos consiste nos olhos abertos de um pássaro esventrado. 
Ah, mas o luar é uma pluma do meu leito e a lua é o colo de 
tu morreste para poderes enfim tocar-me o rosto.

Ana Hatherly
in, “Poesia 1958-1978”






quarta-feira, 22 de julho de 2015

De que falamos?






De que falamos
quando falamos das palavras
senão do tempo
que corre-escorre
por entre as malhas da voz?

Faladas
as palavras
são um combate encenado
uma insónia pessoal
Escritas
são reféns do olhar

No espaço da página
deslizam altivas como icebergues
ou então soçobram
desconhecidamente
no lado sombrio do funesto olvido


ANA HATHERLY
in, O PAVÃO NEGRO





quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Os livros





Os livros estão sempre sós. 
Como nós. 
Sofrem o terrível impacto do presente. 
Como nós. 
Têm o dom de consolar, divertir, ferir, queimar. 
Como nós. 
Calam sua fúria com sua farsa. 
Como nós. 
Têm fachadas lisas ou não. 
Como nós. 
Formosas, delirantes, horrorosas. 
Como nós. 
Estão ali sendo entretanto. 
Como nós. 
No limiar do esquecimento. 
Como nós. 
Cheios de submissão ao serviço do impossível. 
Como nós. 


Ana Hatherly