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domingo, 18 de abril de 2021

“CÂNTICO NEGRO”

 
 Fran García 




Cago na juventude e na contestação 
e também me cago em Jean-Luc Godard. 
Minha alma é um gabinete secreto 
e murado à prova de som 
e de Mao-Tsé-Tung. Pelas paredes 
nem uma só gravura de Lichtenstein 
ou Warhol. Nas prateleiras 
entre livros bafientos e descoloridos 
não encontrareis decerto os nomes 
de Marcuse e Cohn-Bendit. Nebulosos 
volumes de qualquer filósofo 
maldito, vários poetas graves 
e solenes, recrutados entre chineses 
do período T'ang, isabelinos, 
arcaicos, renascentistas, protonotários
- esses abundam. De pop apenas 
o saltar da rolha na garrafa 
de verdasco. Porque eu teimo, 
recuso e não alinho. Sou só. 
Não parcialmente, mas rigorosamente 
só, anomalia desértica em plena leiva. 
Não entro na forma, não acerto o passo, 
não submeto a dureza agreste do que escrevo 
ao sabor da maioria. Prefiro as minorias. 
De alguns. De poucos. De um só se necessário 
for. Tenho esperança porém; um dia 
compreendereis o significado profundo da minha 
originalidade: I am really the Underground. 


Rui Knopfli
in “Mangas verdes com sal“





terça-feira, 11 de agosto de 2020

TESTAMENTO






Se por acaso morrer durante o sono
não quero que te preocupes inutilmente.
Será apenas uma noite sucedendo-se
a outra noite interminavelmente.

Se a doença me tolher na cama
e a morte aí me for buscar,
beija Amor, com a força de quem ama,
estes olhos cansados, no último instante.

Se, pela triste monotonia do entardecer,
me encontrarem estendido e morto,
quero que me venhas ver
e tocar o frio e sangue do corpo.

Se, pelo contrário, morrer na guerra
e ficar perdido no gelo de qualquer Coreia,
quero que saibas, Amor, quero que saibas,
pelo cérebro rebentado, pela seca veia,

pela pólvora e pelas balas entranhadas
na dura carne gelada,
que morri sim, que me não repito,
mas que ecoo inteiro na força do meu grito.



Rui Knopfli



quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Princípio do dia

 




Rompe-me o sono um latir de cães
na madrugada. Acordo na antemanhã
de gritos desconexos e sacudo
de mim os restos da noite
e a cinza dos cigarros fumados
na véspera.
Digo adeus à noite sem saudade,
digo bom-dia ao novo dia.
Na mesa o retrato ganha contorno,
digo-lhe bom-dia
e sei que intimamente ele responde.

Saio para a rua
e vou dizendo bom-dia em surdina
às coisas e pessoas por que passo.

No escritório digo bom-dia.
Dizem-me bom-dia como quem fecha
uma janela sobre o nevoeiro,
palavras ditas com a epiderme,
som dissonante, opaco, pesado muro
entre o sentir e o falar.

E bom dia já não é mais a ponte
que eu experimentei levantar.
Calado,
sento-me à secretária, soturno, desencantado.

(Amanhã volto a experimentar).


RUI KNOPFLI







sábado, 18 de agosto de 2018

Carta para um amor

 





Os nossos companheiros tiveram
a coragem de partir,
vivem nas grandes cidades, com história,
do mundo,
eu fui covarde e fiquei.

Cidade!
nunca fui mais longe do que 
à raia de Espanha.
Creio amar Paris,
conheço Paris dos filmes, a Concórdia
dos postais, a Torre Eiffel divulgada,
Hitler passando sob o Arco do Triunfo.
Amo Paris em Aragon e Eluard,
Paris dos pintores, Paris de Eremburgo.
Amo outras cidades, todas grandes
cidades.
Madrid dos espanhóis e do coração despedaçado,
Stalinegrado das batalhas, Berlim do triunfo.
Nunca fui às grandes cidades,
amo-as porque os homens mas ensinaram
a amar.

Cidade, menina fútil
de pouca história,
carros pequenos nas ruas,
velas na baía, patinadores nos ringues,
terra de sete estuários,
de cinema e cafés buliçosos,
de alegrias e pequenas traições,
leviana, ingénua, snob, bonita,
mulata, branca,
hindu, negra
de cabelos louros e olhos amendoados,
morena sensual,
terra índica, minha terra,
minha amada inocente, prostituída.

Da escada de serviço e do elevador
para o prédio, do prédio para a rua,
da rua para a praça, da praça para a cidade,
da cidade para o subúrbio, onde crescem
a doença, o medo, a fome e o futuro,
(...)

Da escada de serviço e do elevador
para o prédio, do prédio para a rua,
da rua para a praça, da praça para a cidade,
da cidade para o subúrbio, onde crescem
a doença, o medo, a fome e o futuro,
(...)

Nós os humildes e os humilhados,
os que não temos rosto próprio porque somos
o rosto da multidão. Nós, o branco-branco,
o preto-preto e o branco-preto.
(...)

E velho guarda negro
do elevador, a piscar, a piscar um sono
nunca redimido. E o contínuo que não vai
de elevador, mas sobe pela escada de serviço
até o quinto andar, carregando em jeito
de via sacra a bicicleta da firma.
(...)

Na fuligem luminosa do cais, nas zonas
de carga e descarga, na longa fita de asfalto
ardente, na perigosa articulação dos ângulos
de betão do prédio de onze andares.
(...) Os que dormitam
atentos, em bancos públicos de jardim,
(...)

Os que alimentam de miséria a sua miséria
e outros que, estando melhor, a nutrem
na miséria de pequenas e grandes indústrias.
E os que nem sequer a alimentam
no lôbrego ventre de oficinas e fábricas

Toda população flutuante do elevador
e da escada de serviço, do prédio e da rua;
o senhor engenheiro com uma dor de corno
e dois projectos enguiçados; o clínico preso
aos afazeres (cinco prédios, uma hérnia estrangulada
e o consultório cheio de pacientes); o advogado
a correr atrás dos prazos, dos prazos
cada vez mais curtos; a senhora enfrentando
a crise difícil da menopausa, a viúva
de negro que vai ao médico com uma pontada
no baixo-ventre e uma amostra de urina
num frasco embrulhado em papel de jornal.

Esse perfil distante de cimento
e argamassa é toda uma geometria
decantada e gostosa molhando os quadris
deleitados no charco doce da baía.
Diacho, que perfil mais bonito, hem?


Rui Knopfli 
in, O País dos Outros





quarta-feira, 27 de junho de 2018

O Escriba Acocorado

 
Charles Santérian




Sentado na pedra de ti próprio,
não tens rosto, senão o que,
de anónimo, a ela afeiçoou
a mão que assim te quis. Do resto,
do que de individualidade, porventura,

em ti existiria, se encarregou
a persistente erosão dos dias. De vago,
neutro olhar sem órbitas, permaneces
hirto, fitando sempre mais além
da morna penumbra que te envolve

no halo intemporal que é, do tempo,
o nexo único. Nesse olhar
de não ver tudo se inscreve,
repensa e adivinha: teus limites
e, ainda, o que excederia tua humana

estatura. Sem contornos, em sombra
e sono te diluis no que, de ti,
nunca saberemos. Porém, límpida
e escorreita, até nos chega a laboriosa
escrita que no papiro ias lavrando.


RUI KNOPFLI
in, O Corpo de Atena






sábado, 2 de junho de 2018

Hide-and-seek

 

Paricia Vanade Camp





Adultos, jogamos um jogo pueril: 
Semioculto tu fitas-me
e sinto a fria gelatina 
do teu olhar 
tocar-me a epiderme. 

Mas disfarço,

Disfarço e procuro,
com ar distraído,
não pisar no passeio
os desenhos de basalto.
Tu fazes de Grilo Consciência, 
eu de Pinóquio. 
Com esta diferença: 
Aqui sou eu 
quem tem consciência.


Rui Knopfli
in, O País dos Outros





quarta-feira, 16 de maio de 2018

Velho Colono

 

Oscar Lopez




Sentado no banco cinzento
entre as alamedas sombreadas do parque.
Ali sentado só, àquela hora da tardinha,
ele e o tempo. O passado certamente,
que o futuro causa arrepios de inquietação.
Pois se tem o ar de ser já tão curto,
o futuro. Sós, ele e o passado,
os dois ali sentados no banco de cimento.

Há pássaros chilreando no arvoredo,
certamente. E nas sombras mais densas
e frescas, namorados que se beijam
e se acariciam febrilmente. E crianças
rolando na relva e rido tontamente.

Em redor há todo o mundo e a vida.
Ali, está ele, ele e o passado,
sentados os dois no banco de frio cimento.
Ele, a sombra e a névoa do olhar.
Ele, a bronquite e o latejar cansado
das artérias. Em volta os beijos húmidos,
as frestas gargalhadas, tintas de outono
próximo na folhagem e o tempo.

O tempo que cada qual, a seu modo,
vai aproveitando.


RUI KNOPFLI
in, Reino Submarino



terça-feira, 17 de abril de 2018

Verso e Anverso

 

Phil McKay




Diria palavras altas como amor,
palavras lentas como ternura,
ou duráveis como amizade

Desceu um véu de luto sobre o amarelo
esmaecido da savana, lá onde dormem
os corpos mutilados e onde cresta,
rente a terra, o sangue derramado.

Baixou sobre a serenidade das coisas
um sono obscuro e terrível.
Poluiu o teu sorriso, o meu desejo;
intercala os gestos e as vozes ciciadas.

Cerramos os olhos para a penumbra
donde brotam, nítidas, as imagens:
Há uma criança no fogo,
o pavor de um soluço estrangulado,
fulgurantes, rápidas chamas.

Direi palavras insuportáveis como morte.



RUI KNOPFLI
in, Mangas Verdes com Sal






quarta-feira, 28 de março de 2018

Infectas as feridas são vivas

 




Faz muitos anos que me oculto,
quedo, estendido ao longo desta muralha.
Infectas as feridas são vivas
e secam em falso oblongas crostas
Estendido em silêncio e torpor:
Vinte e tantos anos de idade
e outros tantos de medo

O medo da palavra e do gesto,
medo na aba do chapéu e na gabardina,
medo de ti que me olhas na avenida,
medo escorrido ao longo da fachada,
mergulhado nas poças brilhantes do asfalto.

Não tenho culpa de ter medo,
nasci no tempo impreciso do medo.
Não temo o rosto diverso da morte,
não temo a ameaça da nuvem atómica,
não temo o susceptível de ser temido
há dois mil e tantos anos.
Temo a disfarçada ameaça indisfarçada,
temo o honor da angústia a todo a hora,
temo o temor do tempo do medo.

O medo infla, cresce e aboluma-se.
Impregna-se na carne, no cerne das unhas,
veste a tepidez da epiderme e o frio dos ossos.
Total, domina, obstrui, materializa-se em suor.
Pela calada sombria vireis na hora próxima.
Prevenido de medo, farto de medo,
tremo, e este modo é uma ameaça

que se oblitera e volta contra vós.


RUI KNOPFLI
in, O País dos Outros






sábado, 17 de março de 2018

O fio da vida

 

Bill Smith





Há homens que rezam na penumbra
das catedrais dolentes e há outros
que do alto das pontes olham
a escuridão rumorejante das águas.
Há homens que esperam na orla
marítima e outros arrastando-se
no viscoso esterco dos subterrâneos.
Há homens debruçados em pleno azul
e outros que deslizam sobre densos verdes;
há os desatentos na atenção e os que
espreitam atentamente a ocasião.
Há homens por fora e por dentro
do cimento armado, suspensos
das mil ciladas do quotidiano voraz;
de encontro aos muros, às paredes,
ao sol do meio-dia, ao visco da noite,
às sediças solicitações de cada instante.
Há a impotência poderosa da oração
e a obcessão amarga dos suicidas
e, de permeio, os que, porque hesitam,
porque ignoram, porque não creem,
não oram, nem se suicidam
e se quedam ante a impossibilidade de destrinça
entre o fio da vida e a vida por um fio.



Rui Knopfli
in, Mangas Verdes Com Sal





quarta-feira, 14 de março de 2018

Pedra no caminho

 

Tommy Ingberg





Toma essa pedra em tua mão,
toma esse poliedro imperfeito,
duro e poeirento. Aperta em
tua mão esse objecto frio,
redondo aqui, acolá acerado.

Segura com força esse granito
bruto. Uma pedra, uma arma
em tua mão. Uma coisa inócua,
todavia poderosa, tensa,
em sua coesão molecular,
em suas linhas irregulares.

Ao meio-dia em ponto, na avenida
ensolarada, tu és um homem
um pouco diferente. Ao meio-dia
segurando uma pedra. Segurando-a
com amor e raiva.


RUI KNOPFLI
in, Reino Submarino





quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Quando romper a manhã

 




Não,
nada de estandartes desfraldados,
bandeiras a baloiçar-se ao vento.
Nem gritos, nem manifestações,
nem meetings no bulício da praça.
Tão-pouco a embriaguez desvairada,
a louca conquista da rua.

Quando romper a manhã,
saibamos erguer a fronte
ao sol puro.
Em silêncio olhar de frente,
na curva do horizonte,
o novo sol-nascente
Saibamos recolher-nos
e, por um longo momento,
pesar,
respirar,
captar as múltiplas vivências
da tranquila alegria
que irá brotar ininterrupta,

quando romper a manhã.


Rui Knopfli