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terça-feira, 1 de junho de 2021

MÃOS

 
Marc Marx 





Um dia olharemos estas mãos
com a capa das horas sobre os ombros:
são nossas, e a memória que lhes fica
de terem sido nossas de outro modo.

Não negaremos dedos nem o espaço
mais recolhido e lento em que eles eram
de um e de outro a ponta de alma leve
que em volta nada havia que entendesse.

Não negaremos nada. Partiriam
de novo a luta branda que nos queima
e os laços impensados pelas noites,
quais neste inverno desta pouca idade.

Diremos sim, então, a novas ruas,
haverá chuva e gente, e lá estaremos.
Um dia olharemos estas mãos: 
vê-las-emos mais sós, mas aumentadas.


Pedro Tamen






quinta-feira, 27 de junho de 2019

NÃO SEI, AMOR, SE TE CONSINTO





Não sei, amor, sequer, se te consinto
ou se te inventas, brilhas, adormeces
nas palavras sem carne em que te minto
a verdade intemida em que me esqueces.

Não sei, amor, se as lavas do vulcão
nos lavam, veras, ou se trocam tintas
dos olhos ao cabelo ou coração
de tudo e de ti mesma. Não que sintas 

outra coisa de mais que nos feneça;
mas só não sei, amor, se tu não sabes
que sei de certo a malha que nos teça,

o vento que nos leves ou nos traves,
a mão que te nos dê ou te nos peça,
o princípio de sol que nos acabes. 


PEDRO TAMEN 
in, TÁBUA DAS MATÉRIAS



domingo, 17 de dezembro de 2017

Amigo, a que Vieste?

 




Onde foste ao bater das quatro horas 
e, antes, quem eras tu, se eras? 
Amigo ou inimigo, posso falar-te agora 
sentado à minha frente e com os ombros 
vergados ao peso da caneta? 
Falo-te sobre a cabeça baixa 
e vejo para além de ti, no horizonte, 
teus riscos e passadas; 
mas não sei onde foste, nem se eras. 
Olho-te ao fundo, sob o sol e a chuva, 
fazendo gestos largos ou só um leve aceno; 
dizes palavras antigas, 
de antes das quatro horas, 
e nada sei de ti que tu me digas 
dessa cabeça surda. 
Não te pergunto pela verdade, 
que pensas de amanhã ou se já leste Goethe; 
sequer se amaste ou amas 
misteriosamente 
uma mulher, um peixe, uma papoila. 
Não quero essa mudez de condolências 
a mim, a ti, ou só à terra 
que tu e eu pisamos — e comemos. 
Pergunto simplesmente se tu eras, 
quem eras, e onde foste 
depois que se fizeram quatro horas. 

Será que não tens olhos? Não tos vejo. 
De longe em longe 
agitas a cabeça, mas talvez seja engano. 
Palavra, não te entendo. 
Amigo, a que vieste? 



Pedro Tamen 
in, "Horácio e Coriáceo" 






sábado, 16 de dezembro de 2017

A Luz que vem das Pedras

 

Roman-Tika Kruglinski




A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra, 
tu a colhes, mulher, a distribuis 
tão generosa e à janela do mundo. 
O sal do mar percorre a tua língua; 
não são de mais em ti as coisas mais. 
Melhor que tudo, o voo dos insectos, 
o ritmo nocturno do girar dos bichos, 
a chave do momento em que começa o canto 
da ave ou da cigarra 
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere 
a corda do que em ti faz acordar 
os olhos densos de cada dia um só. 
Quem está salvando nesta respiração 
boca a boca real com o universo? 


Pedro Tamen 
in "Agora, Estar"





sábado, 27 de maio de 2017

NÃO SEI, AMOR, SE TE CONSINTO

 




Não sei, amor, sequer, se te consinto
ou se te inventas, brilhas, adormeces
nas palavras sem carne em que te minto
a verdade intemida em que me esqueces.

Não sei, amor, se as lavas do vulcão
nos lavam, veras, ou se trocam tintas
dos olhos ao cabelo ou coração
de tudo e de ti mesma. Não que sintas 

outra coisa de mais que nos feneça;
mas só não sei, amor, se tu não sabes
que sei de certo a malha que nos teça,

o vento que nos leves ou nos traves,
a mão que te nos dê ou te nos peça,
o princípio de sol que nos acabes.



PEDRO TAMEN
in, TÁBUA DAS MATÉRIAS