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sábado, 7 de setembro de 2019

Anoitecendo A Vida Recomeça





Dorme e não creias em fantasmas
que, entretanto, se debruçam no teu leito
ferozes como pancadas
rápidas, inconsequentes,
avisos radiofónicos,
inesperadas veredas estreitas ladeadas
por medos ocultos nas paredes
e mais a gama de assaz novidades
contra as quais abusas de pastilhas
honoríficas, sálvicas e químicas,
boas para a garganta
e para o duodeno.

Dorme e atende as mãos afeiçoadas
que fecham as pálpebras
ao poder dos sonhos repartidos
pelo passado, pelo presente,
pelo tempo não havido ainda,
conhecido lamento diferente
como pancada
ininterrupta,
como aviso que não atendeste,
como vereda
beco sem saída
e novidades, algumas engraçadas,
que afastam os fantasmas por momentos.


Ruy Cinatti




quinta-feira, 20 de setembro de 2018

FACTO

 




Tudo se acaba. É mentira.
Há parcelas que se juntam,
se adicionam,
como a ideia e o sentimento,
o tempo
perdido
e o momento de acção
iluminado.

Ninguém se convença
que acaba.
Há o céu que nos espera,
a sua ilusão
remordida até ao paroxismo.
Ou há passado
sem destino.

A dolorosa mensagem
da nossa vida
é estar: caminhar sempre;
atar as vides da vinha
vindimada.

Saber esperar.
Andar, andar,
nem que seja de rastos.


Ruy Cinatti
in, o Tédio Recompensado







quarta-feira, 19 de setembro de 2018

O TÉDIO RECOMPENSADO

 




I

Entre mulheres, eu sinto-me cansado.
Veio profundo
corre por mim
que aflora antigas ocorrências,
que me demovem
a fastidiosas empresas.

Sorrio agora
quando muito.

Há supercílios oculares que iludem
a passagem do tempo.


II

Mulher, mulheres, mulher,
fruto proibido
pela carne que ma nega.

Fruto desejado,
tomá-lo-ei nas mãos. Afluirei
aromas de mulher,
com ócios masculinos, reflectindo,
delicado.


III

Saciado,
procuro os teus lábios
semiabertos. Flor
quase a abrir-se…
Meto os teus dedos
nos meus. Suspiro fundo.
E renuncio ao mundo
esquecido de mim em ti.


RUY CINATTI 
in, O Tédio Recompensado





terça-feira, 21 de agosto de 2018

POEMA DE AMOR

 





Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar, 
tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,
nós olhando triste uma saudade imensa
num corpo de mulher metamorfoseada. 


Sou demasiado são para me esquecer
do tempo apaixonado que vivi nos teus braços
e bebo no teu um coração meu
adormecido no mar do meu cansaço
ou no rio das minhas secas lágrimas. 


Tardará muito, se é que as horas contam, 
ver-te, de novo, perto de mim, longe, 
mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto, 
um dia a menos, o da tua chegada. 
E assim me fico, rente ao horizonte,
abrigado da chuva numa cabine telefónica,
e ligo para ti - que número? - ninguém responde
do oceano que avança e retrai colinas,
o vulto de um navio, tu na amurada
acenando um lenço, ó minha pomba branca!...


Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva
- as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se... - 
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, a minha boca neles 
carregada de ilhas, de nocturnos perfumes
que ateiam lumes, ó minha idolatrada, 
na minh' alma inquieta um outro bater d' asas
ou num jardim um leito de flores!...



Ruy Cinatti
in, Obra Poética




segunda-feira, 13 de agosto de 2018

QUANDO EU PARTIR

 

Aamer





Quando eu partir, quando eu partir de novo 
A alma e o corpo unidos, 
Num último e derradeiro esforço de criação; 
Quando eu partir... 
Como se um outro ser nascesse 
De uma crisália prestes a morrer sobre um muro estéril, 
E sem que o milagre se abrisse 
As janelas da vida. . . 
Então pertencer-me-ei. 
Na minha solidão, as minhas lágrimas 
Hão de ter o gosto dos horizontes sonhados na adolescência, 
E eu serei o senhor da minha própria liberdade. 
Nada ficará no lugar que eu ocupei. 
O último adeus virá daquelas mãos abertas 
Que hão de abençoar um mundo renegado 
No silêncio de uma noite em que um navio 
Me levará para sempre. 
Mas ali 
Hei de habitar no coração de certos que me amaram; 
Ali hei de ser eu como eles próprios me sonharam; 
Irremediavelmente... 
Para sempre. 


Ruy Cinatti
in, Nós Não Somos Deste Mundo







terça-feira, 31 de julho de 2018

O Som do Silêncio

 




Tudo se acaba. É mentira.
Há parcelas que se juntam,
se adicionam,
como a ideia e o sentimento,
o tempo
perdido
e o momento de acção
iluminado.

Ninguém se convença
que acaba.
Há o céu que nos espera,
a sua ilusão
remordida até ao paroxismo.
Ou há passado
sem destino.

A dolorosa mensagem
da nossa vida
é estar: caminhar sempre;
atar as vides da vinha
vindimada.

Saber esperar.
Andar, andar,
nem que seja de rastos.


Ruy Cinatti





sábado, 28 de julho de 2018

VIGÍLIA

 




Paralelamente sigo dois caminhos 
Abstrato na visão de um céu profundo. 
Nem um nem outro me serve, nem aquele 
Destino que se insinua 
Com voz semelhante à minha. O melhor mundo 
Está por descobrir. Não seque a lua 
Nem o perfil da proa. Vai direito 
Ao vago, incerto, misterioso 
Bater das velas sinalado de oculto. 

Quero-me mais dentro de mim, mais desumano 
Em comunhão suprema, surto e alado 
Nas aragens noturnas que desdobram as vagas, 
Chamam dorsos de peixe à tona de água 
E precipitam asas na esteira de luz. 
Da vida nada senão a melhoria 
De um paraíso sonhado e procurado 
Com ternura, coragem e espírito sereno. 

Doçura luminosa de um olhar. Ameno 
Brincar de almas verticais em pleno 
Sol de alvorada que descerra as pálpebras. 


Ruy Cinatti 
in, Nós Não Somos Deste Mundo






terça-feira, 24 de julho de 2018

REGRESSO ETERNO

 




Altos silêncios da noite e os olhos perdidos, 
Submersos na escuridão das árvores 
Como na alma o rumor de um regato, 
Insistente e melódico, 
Serpeando entre pedras o fulgor de uma ideia, 
Quase emoção; 
E folhas que caem e distraem 
O sentido interior 
Na natureza calma e definida 
Pela vivência dum corpo em cuja essência 
A terra inteira vibra 
E a noite de estrelas premedita. 

A noite! Se fosse noite ... 
Mas os meus passos soam e não param, 
Mesmo parados pelo pensamento, 
Pelo terror que não acaba e perverte os sentidos 
A esquina do acaso; 
Outros mundos se somem, 
Outros no ar luzes refletem sem origem. 
É por eles que os meus passos não param. 
E é por eles que o mistério se incendeia. 

Tudo é tangível, luminoso e vago 
Na orla que se afasta e a ilha dobra 
Em balas de precário sonho... 
Tudo é possível porque à vida dura 
E a noite se desfaz 
Em altos silêncios puros. 
Mas nada impede o renascer da imagem, 
A infância perdida, reavida, 
Nuns olhos vagabundos debruçados, 
Junto a um regato que sem cessar murmura. 


Ruy Cinatti 
 in, Nós Não Somos Deste Mundo





quarta-feira, 18 de julho de 2018

Linha de Rumo

 




Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Encontro-me parado…
Olho em redor e vejo inacabado
O meu mundo melhor.
Tanto tempo perdido…
Com que saudade o lembro e o bendigo:
Campos de flores
E silvas…
Fonte da vida fui. Medito. Ordeno.
Penso o futuro a haver.
E sigo deslumbrado o pensamento
Que se descobre.
Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Desterrado,
Desterrado prossigo.
E sonho-me sem Pátria e sem Amigos.
Adrede.


Ruy Cinatti
In, O Livro do Nómada meu Amigo






terça-feira, 17 de julho de 2018

Quando o Amor Morrer Dentro de Ti

 




Quando o amor morrer dentro de ti, 
Caminha para o alto onde haja espaço, 
E com o silêncio outrora pressentido 
Molda em duas colunas os teus braços. 
Relembra a confusão dos pensamentos, 
E neles ateia o fogo adormecido 
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido 
Espalhou generoso aos quatro ventos. 
Aos que passarem dá-lhes o abrigo 
E o nocturno calor que se debruça 
Sobre as faces brilhantes de soluços. 
E se ninguém vier, ergue o sudário 
Que mil saudosas lágrimas velaram; 
Desfralda na tua alma o inventário 
Do templo onde a vida ora de bruços 
A Deus e aos sonhos que gelaram. 


Ruy Cinatti
in, “Obra Poética”






terça-feira, 12 de dezembro de 2017

POEMA DE AMOR

 




Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar, 
tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,
nós olhando triste uma saudade imensa
num corpo de mulher metamorfoseada. 

Sou demasiado são para me esquecer
do tempo apaixonado que vivi nos teus braços
e bebo no teu um coração meu
adormecido no mar do meu cansaço
ou no rio das minhas secas lágrimas. 

Tardará muito, se é que as horas contam, 
ver-te, de novo, perto de mim, longe, 
mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto, 
um dia a menos, o da tua chegada. 
E assim me fico, rente ao horizonte,
abrigado da chuva numa cabine telefónica,
e ligo para ti - que número? - ninguém responde
do oceano que avança e retrai colinas,
o vulto de um navio, tu na amurada
acenando um lenço, ó minha pomba branca!...

Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva
- as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se... - 
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, a minha boca neles 
carregada de ilhas, de nocturnos perfumes
que ateiam lumes, ó minha idolatrada, 
na minh' alma inquieta um outro bater d' asas
ou num jardim um leito de flores!...



Ruy Cinatti
in, Obra Poética






quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Quando o Amor Morrer Dentro de Ti

 




Quando o amor morrer dentro de ti, 
Caminha para o alto onde haja espaço, 
E com o silêncio outrora pressentido 
Molda em duas colunas os teus braços. 
Relembra a confusão dos pensamentos, 
E neles ateia o fogo adormecido 
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido 
Espalhou generoso aos quatro ventos. 
Aos que passarem dá-lhes o abrigo 
E o nocturno calor que se debruça 
Sobre as faces brilhantes de soluços. 
E se ninguém vier, ergue o sudário 
Que mil saudosas lágrimas velaram; 
Desfralda na tua alma o inventário 
Do templo onde a vida ora de bruços 
A Deus e aos sonhos que gelaram. 


Ruy Cinatti
in, “Obra Poética”