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segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Nascença Eterna

 

Svetlanamax






Nascença Eterna, 
Nasce mais uma vez! 
Refaz a humílima Caverna 
Que nunca se desfez. 

Distância Transcendente, 
Chega-te, uma vez mais, 
Tão perto que te aqueças, como a gente, 
No bafo dos obscuros animais. 

Os que te dizem não, 
Os épicos do absurdo, 
Que afirmarão, na sua negação, 
Senão seu olho cego, ouvido surdo? 

Infelizes supremos, 
Com seu fracasso alcançam nomeada, 
E contentes se atiram aos extremos 
Do seu nada. 

Na nossa ambiguidade, 
Somos piores, nós, talvez, 
E uns e outros só vemos a verdade 
Que, Verdade de Sempre!, tu nos dês. 

Se nada tem sentido sem a fé 
No seu sentido, Sol que não te apagas, 
Rompe mais uma vez na noite, que não é 
Senão o dia de outras plagas. 

Perpétua Luz, Contínua Oferta 
A nossa escuridade interna, 
Abre-te, Porta sempre aberta, 
Mais uma vez, na humílima Caverna.


José Régio




sábado, 13 de julho de 2019

Pecado Original





Sim, Mãe! sim, quanta vez te vi chorar..., 
Sem desistir de te fazer sofrer! 
Gozava então nem sei que atroz prazer 
De te arranhar no peito... e me arranhar. 

Mas quis lutar comigo, Mãe! lutar 
Contra esse monstro obscuro do meu ser. 
Que sonho, Mãe!: ter-me eu em meu poder, 
Talhar-me bom, feliz, simples, vulgar... 

Mãe! com que força eu vi que era impotente! 
... Porque de bem mais longe e bem mais fundo 
A culpa do meu ser a nós dois veio. 

Perdoemos um ao outro, humildemente: 
Eu, Mãe! — ter-me o teu seio dado ao mundo; 
Tu, — ter-me eu feito vida no teu seio. 


José Régio
in, 'Antologia Poética'



sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Natal

 




Mais uma vez, cá vimos 
Festejar o teu novo nascimento, 
Nós, que, parece, nos desiludimos 
Do teu advento! 

Cada vez o teu Reino é menos deste mundo! 
Mas vimos, com as mãos cheias dos nossos pomos, 
Festejar-te, — do fundo 
Da miséria que somos. 

Os que à chegada 
Te vimos esperar com palmas, frutos, hinos, 
Somos — não uma vez, mas cada — 
Teus assassinos. 

À tua mesa nos sentamos: 
Teu sangue e corpo é que nos mata a sede e a fome; 
Mas por trinta moedas te entregamos; 
E por temor, negamos o teu nome. 

Sob escárnios e ultrajes, 
Ao vulgo te exibimos, que te aclame; 
Te rojamos nas lajes; 
Te cravejamos numa cruz infane. 

Depois, a mesma cruz, a erguemos, 
Como um farol de salvação, 
Sobre as cidades em que ferve extremos 
A nossa corrupção. 

Os que em leilão a arrematamos 
Como sagrada peça única, 
Somos os que jogamos, 
Para comércio, a tua túnica. 

Tais somos, os que, por costume, 
Vimos, mais uma vez, 
Aquecer-nos ao lume 
Que do teu frio e solidão nos dês. 

Como é que ainda tens a infinita paciência 
De voltar, — e te esqueces 
De que a nossa indigência 
Recusa Tudo que lhe ofereces? 

Mas, se um ano tu deixas de nascer, 
Se de vez se nos cala a tua voz, 
Se enfim por nós desistes de morrer, 
Jesus recém-nascido!, o que será de nós?! 


José Régio
in, 'Obra Completa'





terça-feira, 16 de outubro de 2018

Ícaro

 





A minha Dor, vesti-a de brocado, 
Fi-la cantar um choro em melopeia, 
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado, 
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a. 

Por longo tempo, assim fiquei prostrado, 
Moendo os joelhos sobre lodo e areia. 
E as multidões desceram do povoado, 
Que a minha dor cantava de sereia... 

Depois, ruflaram alto asas de agoiro! 
Um silêncio gelou em derredor... 
E eu levantei a face, a tremer todo: 

Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro! 
E, misérrima e nua, a minha Dor 
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo. 


José Régio
in, 'Poemas de Deus e do Diabo'




terça-feira, 9 de outubro de 2018

Poema do Silêncio

 




Sim, foi por mim que gritei. 
Declamei, 
Atirei frases em volta. 
Cego de angústia e de revolta. 

Foi em meu nome que fiz, 
A carvão, a sangue, a giz, 
Sátiras e epigramas nas paredes 
Que não vi serem necessárias e vós vedes. 

Foi quando compreendi 
Que nada me dariam do infinito que pedi, 
- Que ergui mais alto o meu grito 
E pedi mais infinito! 

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas, 
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas 
Que, sem rumo, 
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo... 

O que buscava 
Era, como qualquer, ter o que desejava. 
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo, 
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo. 

Que só por me ser vedado 
Sair deste meu ser formal e condenado, 
Erigi contra os céus o meu imenso Engano 
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano! 

Senhor meu Deus em que não creio! 
Nu a teus pés, abro o meu seio 
Procurei fugir de mim, 
Mas sei que sou meu exclusivo fim. 

Sofro, assim, pelo que sou, 
Sofro por este chão que aos pés se me pegou, 
Sofro por não poder fugir. 
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir! 

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação! 
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...) 
Senhor dá-me o poder de estar calado, 
Quieto, maniatado, iluminado. 

Se os gestos e as palavras que sonhei, 
Nunca os usei nem usarei, 
Se nada do que levo a efeito vale, 
Que eu me não mova! que eu não fale! 

Ah! também sei que, trabalhando só por mim, 
Era por um de nós. E assim, 
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade, 
Lutava um homem pela humanidade. 

Mas o meu sonho megalómano é maior 
Do que a própria imensa dor 
De compreender como é egoísta 
A minha máxima conquista... 

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros 
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros, 
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á, 
E sobre mim de novo descerá... 

Sim, descerá da tua mão compadecida, 
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida. 
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome 
Saciarão a minha fome. 


José Régio 
in, 'As Encruzilhadas de Deus' 






sábado, 29 de setembro de 2018

Narciso

 




Dentro de mim me quis eu ver. Tremia, 
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço... 
Ah, que terrível face e que arcabouço 
Este meu corpo lânguido escondia! 

Ó boca tumular, cerrada e fria, 
Cujo silêncio esfíngico bem ouço! 
Ó lindos olhos sôfregos, de moço, 
Numa fronte a suar melancolia! 

Assim me desejei nestas imagens. 
Meus poemas requintados e selvagens, 
O meu Desejo os sulca de vermelho: 

Que eu vivo à espera dessa noite estranha, 
Noite de amor em que me goze e tenha, 
...Lá no fundo do poço em que me espelho! 


José Régio
in, 'Biografia' 






sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Nascença Eterna

 




Nascença Eterna, 
Nasce mais uma vez! 
Refaz a humílima Caverna 
Que nunca se desfez. 

Distância Transcendente, 
Chega-te, uma vez mais, 
Tão perto que te aqueças, como a gente, 
No bafo dos obscuros animais. 

Os que te dizem não, 
Os épicos do absurdo, 
Que afirmarão, na sua negação, 
Senão seu olho cego, ouvido surdo? 

Infelizes supremos, 
Com seu fracasso alcançam nomeada, 
E contentes se atiram aos extremos 
Do seu nada. 

Na nossa ambiguidade, 
Somos piores, nós, talvez, 
E uns e outros só vemos a verdade 
Que, Verdade de Sempre!, tu nos dês. 

Se nada tem sentido sem a fé 
No seu sentido, Sol que não te apagas, 
Rompe mais uma vez na noite, que não é 
Senão o dia de outras plagas. 

Perpétua Luz, Contínua Oferta 
A nossa escuridade interna, 
Abre-te, Porta sempre aberta, 
Mais uma vez, na humílima Caverna. 


José Régio
in, 'Obra Completa' 






terça-feira, 1 de novembro de 2016

Soneto de Amor

 




Não me peças palavras, nem baladas, 
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio, 
Deixa cair as pálpebras pesadas, 
E entre os seios me apertes sem receio. 

Na tua boca sob a minha, ao meio, 
Nossas línguas se busquem, desvairadas... 
E que os meus flancos nus vibrem no enleio 
Das tuas pernas ágeis e delgadas. 

E em duas bocas uma língua..., — unidos, 
Nós trocaremos beijos e gemidos, 
Sentindo o nosso sangue misturar-se. 

Depois... — abre os teus olhos, minha amada! 
Enterra-os bem nos meus; não digas nada... 
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce! 


José Régio
in “Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, Eugénio de Andrade” 







terça-feira, 25 de outubro de 2016

Poema do silêncio

 




Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. Ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá...

Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.



José Régio





domingo, 23 de outubro de 2016

Sabedoria

 





Desde que tudo me cansa,
Comecei eu a viver.
Comecei a viver sem esperança...
E venha a morte quando
Deus quiser.

Dantes, ou muito ou pouco,
Sempre esperara:
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco
Voava das estrelas à mais rara;
Outras, tão pouco,
Que ninguém mais com tal se conformara.

Hoje, é que nada espero.
Para quê, esperar?
Sei que já nada é meu senão se o não tiver;
Se quero, é só enquanto apenas quero;
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar...
E venha a morte quando Deus quiser.

Mas, com isto, que têm as estrelas?
Continuam brilhando, altas e belas.



José Régio 
in, Poemas de Deus e do Diabo





quinta-feira, 7 de junho de 2012

Cântico Negro



"Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços , e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali ...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí ! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos ...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí ...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos? ...
Corre nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos ...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a , como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios ...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou ...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!



JOSÉ RÉGIO
 in, Antologia Poética