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terça-feira, 16 de maio de 2017

MULHER NUA

 




Alma de pomba - corpo de serpente,
enche de adejos e rastejos
teu ambiente,
caiam em torno a ti pedras ou flores
de uma contemplativa multidão:
de lisonjeiros e de malfeitores
cheias as sendas da existência estão.

Toda de risos tua boca enfeita
quando te surja um ser sincero, irmão;
e sejas sempre pura, espelhante e perfeita,
na verdade da tua imperfeição.
Musa satânica e divina
ó minha Musa sobrenatural,
em cujas emoções, igualmente, culmina
à indução do Bem, a tentação do Mal!
Em teus meneios lânguidos ou lestos
expõe ao Mundo que te espia
que assim como há na Dança a poesia dos gestos,
há nos versos a dança da Poesia.

Dança para esse gozo,
o grande gozo maternal da Terra,
que te fez sem igual,
e, envaidecida,
em seu amor te encerra,
amando em ti a sua própria vida,
sua vida carnal e espiritual.
Torce e destorce o ser flexuoso
ó Musa emocional!

Maneja os versos de maneira tal
que eles fiquem pelos séculos dispersos,
com os ritmos da existência universal.
E a dançar, a dançar,
num delicioso sacrifício,
patenteia a nudez desse teu ser ante o sereno altar
do deus que te domina.

Que importa a injúria hostil de quem te não compreenda?
dança, porém, não como a Salomé da lenda,
a lírica assassina: dança de um modo vivificador;
dança de todo nua,
mas que seja a nudez sensual da dança tua
a imortalização do teu glorioso Amor!



Gilka Machado




terça-feira, 28 de agosto de 2012

Meu Glorioso Pecado






Se te injuriei, por uma rebeldia
dos meus nervos exaustos de pesar,
pensa com que perversa hipocrisia
tu me agastaste para me magoar!

Pensa que, só por teu sabor de um dia
- glória de uma conquista singular -
minha vida perdeu toda a alegria,
é uma morte que vivo devagar!

Sempre a revolta vem de uma agonia:
a injúria ser um beijo poderia,
teu beijo envenenou-me o paladar

Medita alma volúvel, alma fria:
- Quanta vez uma ofensa acaricia!
- Como um carinho sabe nos matar!


Gilka Machado






segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Meu Glorioso Pecado II








Quantas horas felizes, quantos dias
nos contemplamos sem jamais trocar
uma frase! - Eu temia... Tu temias...
Mas como era expressivo nosso olhar!...

Nem uma frase! E tantas melodias
no meu, no teu silêncio, no do mar,
no do céu, no das árvores sombrias,
como tudo se amava sem falar!

Trocamos o vocábulo e (oh! tristeza!)
Quantas injúrias, que contradição
nessas palestras de alma
em ciúme acesa!

Ah! se mudos ficáramos então,
não profanara o orgulho
e a singeleza
das palavras sem voz
do coração!

Gilka Machado




domingo, 26 de agosto de 2012

Meu Glorioso Pecado - III





A que buscas em mim,
que vive em meio de nós,
e nos unindo nos separa,
não sei bem aonde vai,
de onde veio,
trago-a no sangue
assim como uma tara

Dou-te a carne que sou...
Mas teu anseio
fôra possuí-la -
a espiritual, a rara,
essa que tem o olhar
ao mundo alheio,
essa que tão somente
astros encara

Por que não sou
como as demais mulheres?
Sinto que, me possuindo,
em mim preferes
aquela que é
o meu íntimo avantesma...

E, o meu amor,
que ciúme dessa estranha,
dessa rival
que os dias
me acompanha,
para ruína gloriosa
de mim mesma!


Gilka Machado