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quinta-feira, 18 de maio de 2017

Canção

 

Martin Stranka






Disse a meu peito, a meu pobre peito: 
- Não te contentas com um só amante? 
Pois tu não vês que este mudar constante 
Gasta em desejos o prazer do amor? 

Ele respondeu: - Não! não me contento; 
Não me contento com um só amante. 
Pois tu não vês que este mudar constante 
Empresta aos gozos um melhor sabor? 

Disse a meu peito, a meu pobre peito: 
- Não te contentas desta dor errante? 
Pois tu não vês que este mudar constante 
A cada passo só nos traz a dor? 

Ele respondeu: - Não! não me contento, 
Não me contento desta dor errante... 
Pois tu não vês que este mudar constante 
Empresta às mágoas um melhor sabor?


Alfred de Musset





quarta-feira, 17 de maio de 2017

Lembra-te

 



Lembra-te, quando ao sol, timidamente,
a aurora abrir seu encantado paço;
e quando, sob um véu de prata algente
cismando, a noite devanear no espaço.
Quando o gozo agitar teu seio de mulher,
quando os sonhos da tarde a sombra te trouxer,
escutarás, além, na mata umbrosa,
a voz misteriosa:
Lembra-te!

Lembra-te, quando fomos condenados
à magoa eterna da separação,
e a dor, o exílio, os anos fatigados,
me houverem corroído o coração;
pensa no extremo adeus, nesta triste existência!
Para quem ama, o tempo é nada, e é nada a ausência.
Meu pobre coração, até morrer,
sempre te há de dizer:
Lembra-te!

Lembra-te ainda quando paz sem termo
ele, extinto, gozar na terra fria;
e quando, em meu sepulcro, a flor do ermo
Desabrochar suavemente um dia!
Não mais tu me hás de ver; mas, onde quer que vás,
junto de ti minha alma - irmã fiel - terás!
E, alta noite, hás de ouvir a voz desconhecida,
murmurando sentida:
Lembra-te!



Alfred de Musset





quinta-feira, 11 de maio de 2017

Tristeza




Eu perdi minha vida e o alento, 
E os amigos, e a intrepidez, 
E até mesmo aquela altivez 
Que me fez crer no meu talento. 

Vi na Verdade, certa vez, 
A amiga do meu pensamento; 
Mas, ao senti-la, num momento 
O seu encanto se desfez. 

Entretanto, ela é eterna, e aqueles 
Que a desprezaram - pobres deles! - 
Ignoraram tudo de talvez. 

Por ela Deus se manifesta. 
O único bem que ainda me resta 
É ter chorado uma ou outra vez.



Alfred de Musset