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sábado, 7 de fevereiro de 2026

O Peso do Mundo

 

Simoningate




Poderia libertar-me do peso do mundo nos teus braços; 
poderia tirá-lo de cima de mim, atirá-lo para o outro lado 
da casa, para algum canto escondido; e poderia 
ficar contigo, na leveza do teu corpo, ouvindo 
o cair do tempo nalgum relógio invisível. 

O mundo, no entanto, insiste comigo. Está ali, 
no fundo da casa, com o seu peso. Espera que alguém 
pegue nele, e volte a descer a escada, curvado, como 
se tudo o que tivéssemos de fazer fosse carregá-lo 
para baixo e para cima, nestas escadas sem elevador. 

E eu, contigo, ao abraçar-te, espero que o mundo 
não se mexa no seu canto, no fundo da casa. Abraço-te 
como se o teu corpo me libertasse desse peso, como 
se ele nao estivesse à minha espera, para que o desça 
e suba por estas escadas de um prédio sem elevador. 

Mas o amor também tem o peso do mundo. E as 
palavras com que nos despedimos, antes que eu pegue nele 
e te deixe entregue à tua leveza, trazem o eco das coisas 
que atirei para o fundo da casa, onde não quero que vás, 
para que não tenhas de carregar, também tu, o peso do mundo.


Nuno Júdice



segunda-feira, 22 de abril de 2024

O SENTIDO DO AZUL

 







Procuramos o sentido. Andamos às voltas. Por 
vezes, aparece um significado, mas tudo é vago, 
como se as palavras já não dissessem o que 
dizem. Por exemplo: quero saber o que significa 
este azul na parede. A casa está à direita, 
resistiu ao tempo; mas o azul aparece desbotado 
pelo sol do verão, pelos pela chuva do inverno, 
pela humidade salgada das maresias. E o que 
significa este azul não é o azul da cor de 
uma parede, tão-só. Há quem veja nele
a passagem dos anos, a fragilidade da vida;
mas há quem aponte os pedaços em que a cor 
desapareceu, deixando à vista o reboco, 
e se refira a um mundo em ruínas, ao que 
não é possível recuperar. Mas o pintor 
chega, encosta a escada à parede, dissolve
a cor no balde, e aproveita a semana sem 
chuva para pôr tudo igual. Talvez o novo 
azul não seja igual ao anterior; e quando 
olho o azul do céu, e o comparo ao da parede,
é como se fosse a sombra do outro. De 
certo modo, o azul deste céu parece-me
mais artificial do que o azul da parede. Digo 
então que o homem aperfeiçoa imagem 
que a natureza nos dá, como se já não 
fosse possível acreditar no céu. O
pintor, esse, foi-se embora. Depois, olho
para o alto: há nuvens aqui e ali, e alguns 
pássaros pontuam-no, como insólitas 
manchas no infinito. Faz ali falta um pintor 
para tapar os buracos, e voltar a pôr tudo 
igual. Mas onde está a escada para chegar 
lá cima? E quantos baldes de tinta seriam 
precisos? E fico à espera da noite, para 
não ver o azul com as imperfeições do céu.


Nuno Júdice
in, Fórmulas de Uma Luz Inexplicável




terça-feira, 31 de outubro de 2023

A RAZÃO PLATÓNICA

 








Há uma doutrina da caverna que consiste em 
separar a luz e a sombra. Dizem que, para os que 
vivem na caverna, a luz é um sonho porque só 
conhecem a sombra. Mas dizem outros, como é 
que se pode saber que a luz existe quando nunca 
se saiu da sombra? Os teólogos, porém, acrescentam 
a estas dúvidas que também o homem, que 
nunca conviveu com os deuses, os pôde 
imaginar à sua imagem semelhança; e é 
por isso, acrescentam, que a luz surgiu quando 
o homem a criou à semelhança da sombra. Isto, 
porém, nada tem a ver com a realidade. Quando 
o dia nasce, vemos a luz que surge no horizonte em 
que o sol se anuncia; e aquilo que era a sombra 
que habita a noite dissipa-se quando o céu 
se torna azul. Mas os que acreditam na caverna 
voltam as costas à realidade; e quando o dia nasce 
põem-se à sombra, tapando os olhos à luz,
para concluir que a sua razão é única,
e o mundo a sua caverna.


Nuno Júdice
in, Fórmulas de Uma Luz Inexplicável




domingo, 13 de agosto de 2023

UM CONCEITO INEXPRIMÍVEL

 







A imaginação que, segundo os estóicos,
se reduz a uma impressão divina, põe um problema
concreto a quem não acredita na alma. De facto,
se é só o corpo que existe, e não encontramos
nada de imaterial para além dele, a imaginação
deve ser posta de lado, tal como a alma de
que faz parte. Os estóicos, para quem ela
deixava no espírito a sua marca, procuravam
com o seu sacrifício aceder a esse mundo
metafísico onde a sensação não tinha outra
utilidade para além do pensamento que produzia,
e depois dele a imagem e o conceito expresso
a partir dela. E queriam morrer para atingir
mais depressa a esfera do divino. Porém,
os epicuristas riam-se deles e diziam que tudo
o que diziam não passava de palavras. E eles
ficavam a pensar: se as palavras são duras
como as pedras, e sólidas como a terra áspera
do verão, porque não ficamos em silêncio? E
alguém disse, ao vê-los de boca fechada,
que queriam prender a imaginação no interior
do seu corpo, onde se encontrava a alma; mas
quando a abriam para comer, concluiu o crítico,
mastigavam as palavras com a comida, e tudo
se juntava nesse corpo que, para eles, não
existia, para terminar no estrume
que devolviam à terra, como se a imaginação
não servisse para mais nada além
de adubo da primavera


Nuno Júdice
in, Fórmulas de uma Luz Inexplicável




terça-feira, 20 de junho de 2023

Rosa

 

 




Podia esquecer tudo o que me disseste, ouvir
o canto do pássaro que passou nesta sala,
respirar o perfume do jardim que entra pela
janela, olhar para fora de mim, para aquilo
a que chamam o mundo. No entanto, o que
tenho pela frente são as lembranças que
procurei esquecer, a imagem de que não me
libertarei, a voz que ecoa na minha
memória, dizendo o nome tantas vezes
murmurado. E encosto-me a este instante,
contando o tempo que falta para que a
luz desapareça, e a noite me traga
o silêncio de onde nascem os sonhos.


Nuno Júdice 
in, "A pura inscrição do amor"



quarta-feira, 17 de maio de 2023

ÉDIPO

 


François Xavier Fabre



 O que o homem procura não se encontra
nas linhas em que a eternidade se cruza com o
instante. Ele pensa que o acaso desenhou esse
limite; e engana-se quando desvia a linha para
junto do seu desejo, desafiando os deuses. Mas
o que o futuro lhe propõe não é o que
ele vê: só as sibilas o adivinharam, e a chave
da sua linguagem perdeu-se num fundo
de nuvem, por entre aves enlouquecidas e
ventos contrários. O homem insiste, porém;
e as suas mãos cavam a terra, abrindo caminho
até às raízes secas de um século antigo, onde
ele procura a solução do enigma que,
se lhe perguntarem, não sabe enunciar: «Quem
sou? Ou antes, quem imagino que sou, agora
que nenhuma resposta me é dada?» E volta
a tapar o buraco que abriu, escondendo as
pedras onde teria lido o seu destino, se
ainda tivesse a luz do dia para reconhecer
os sinais. No entanto, à noite, os passos
conduzem-no para o lugar de onde partiu,
como se fosse o único caminho que
lhe resta. E ao chegar a esse princípio,
descobre que é o seu fim, para não ter de
voltar a partir, nem de fazer a pergunta
para que não encontrará, nunca, a resposta.



Nuno Júdice
in, Fórmulas de uma Luz Inexplicável 



sexta-feira, 7 de abril de 2023

TE DEUM

 




 A ti, ó deus, pousado como a coruja
de olhos cegos no tronco ressequido da eternidade;
a ti, que o vento de uma imprecação de profetas
loucos expulsa para a terra poeirenta
do fim, como se ainda pudesses anunciar
um recomeço de jardins e oceanos varridos
pela primeira luz; a ti, de asas envelhecidas
pelo curso das idades, e incapaz de sobrevoar
um campo de galáxias para descobrir o átomo
de um verbo inicial:

vem para dentro do tempo, e faz dele
o templo das tuas indecisões. Sobe ao velho
altar e fala aos crentes que te adoram, repetindo
devagar cada palavra que ouviste das suas
orações. Pedir-te-ão que não os imites, e quando te
aproximares deles voltar-te-ão as costas, a ti,
ó deus alquebrado. Então, dirás para
contigo, então sou um homem! E entrarás
no meio deles, para que te insultem,

a ti, ó deus, que finalmente
encontrarás o teu lugar nas tabernas do mundo,
bebendo o vinho barato dos marinheiros
e comendo o pão esfarelado da ressaca,
enquanto rezas a ti próprio – como
se ainda acreditasses em ti.


Nuno Júdice
in, Fórmulas de Uma Luz Inexplicável





quinta-feira, 9 de março de 2023

PROJECTO

 



 



Procuro a terra branca de um outro 
continente, os montes áridos de um litoral
tempestuoso, o fundo secreto de uns olhos
abertos para o coral da eternidade. Perdi-me
nessa procura; destruí os cadernos onde 
apontara o caminho. Como um cego,
estendi os braços para o ocaso de um infinito 
que os loucos desenharam. Bati contra 
os seus limites, e andei às voltas sem encontrar
uma fuga.

Mas vi saírem todos os barcos do porto
que imaginei. Tinha-o pensado com longos
cais vazios, e percorrera-o devagar, tropeçando
nas madeiras podres e nas cordas inúteis
de um velame corrupto. Por vezes, sentei-me 
nos caixotes desfeitos pelos vagabundos 
em busca de um resto de comida. Os cães 
vinham ter comigo e lambiam-me as mãos
como se eu fosse o seu dono.

Não sei o que levaram esses barcos; nem 
que sonho de felicidade se desfez nos olhos
vazios dos afogados.


Nuno Júdice
in, Fórmulas de uma luz inexplicável



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Às vezes

 

Umberto Shaw







 Às vezes sentimos que o tempo chegou ao fim, que 
as portas se estão a fechar por trás de nós, que já nenhum ruído 
de passos nos segue; e temos medo de nos voltar, de dar 
de frente com essa sombra que não sabíamos que nos 
perseguia, como se ela não andasse sempre atrás de nós,
e não fosse a nossa mais fiel companheira. Às vezes,
em tudo o que nos rodeia, encontramos essa impressão de
que não sabemos onde estamos, como se o caminho para 
aqui não tivesse sido o mesmo, desde sempre, e tudo 
devesse ser-nos, pelo menos, familiar. A solução é pegar 
no fim e metê-lo à boca, como se fosse uma pastilha 
elástica, derreter o sabor que o envolve, por amargo 
que seja, e no fim pegar nesse resto que ficou e, tal 
como se faz à pastilha elástica, deitá-lo fora. Para 
que queremos nós o nosso próprio fim? Já bastou 
tê-lo saboreado, derretido na boca, sentido o seu 
amargo sabor. Então, libertos do nosso fim, veremos 
que as portas se voltarão a abrir, que a gente continua 
a andar à nossa volta, que a sombra já não nos mete medo,
e que se nos voltarmos teremos pela frente o rosto 
desejado, o amor, a vida de que o fim nos queria ter privado.


Nuno Júdice


quinta-feira, 28 de abril de 2022

A vida

 

 Duncan Chard






A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;

a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória; 

a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas. 


Nuno Júdice
in, Teoria Geral do Sentimento




sábado, 19 de março de 2022

Conversa nocturna

 
Stephane Navailles





 Talvez a noite me encontre um dia. Sentar-me-ei com ela, a conversar. 
Perguntar-me-á: "Quem és?" - "Um dos teus habitantes", responderei; 
mas sem ter a certeza disso. Entre a noite e o dia, quem pode 
escolher, ao certo, o seu lugar? E ela há-de insistir, adivinhando a 
minha dúvida. Então, aproximar-me-ei dela, pegarei nas suas mãos de 
treva, e puxá-la-ei para mim. "E tu, quem és?" E ela ficará em silêncio, 
pesada e nocturna, como se a morte fosse a sua segunda natureza. 
"Amo-te", digo-lhe. E a noite dissolver-se-á em mim, até nascer o dia.


Nuno Júdice


sexta-feira, 8 de outubro de 2021

EM SILÊNCIO, O GRITO

 

Whang-Od 
Philippines





Ouviste esse grito que morre contra 
as paredes, que atravessa os quartos mais fechados,
que não sai por janelas ou frestas, e que
rasga a garganta de quem o sonhou? Foi 
no silêncio de uma tarde, sob o calor 
de um céu sem horizonte nem pássaros? Ou 
no escuro da noite, quando as estrelas 
se apagam nos teus olhos e só um gemido 
distante ecoa na treva? Mas é dentro de ti 
que o ouves, e onde quer que estejas,
tapando os ouvidos para que o mundo 
não venha ter contigo, ou fechando 
os olhos para que nenhuma imagem 
te distraia, levá-lo-ás na tua cabeça,
em tudo o que pensas, mesmo que não 
saibas já de onde vem, porque nasceu, 
nem porque tens de ser tu a ouvi-lo,
de lábios fechados para que não o grites.


Nuno Júdice






quarta-feira, 11 de novembro de 2020

O Amor

 






 Deus - talvez esteja aqui, neste 
pedaço de mim e de ti, ou naquilo que, 
de ti, em mim ficou. Está nos teus 
lábios, na tua voz, nos teus olhos, 
e talvez ande por entre os teus cabelos, 
ou nesses fios abstratos que desfolho, 
com os dedos da memória, quando os 
evoco. 

Existe: é o que sei quando 
me lembro de ti. Uma relação pode durar 
o que se quiser; será, no entanto, essa 
impressão divina que faz a sua permanência? Ou 
impõe-se devagar, como as coisas a que o 
tempo nos habitua, sem se dar por isso, com 
a pressão subtil da vida? 

Um deus não precisa do tempo para 
existir: nós, sim. E o tempo corre por entre 
estas ausências, mete-se no próprio 
instante em que estamos juntos, foge 
por entre as palavras que trocamos, eu 
e tu, para que um e outro as levemos 
connosco, e com elas o que somos, 
a ânsia efêmera dos corpos, o 
mais fundo desejo das almas. 

Aqui, um deus não vive sozinho, 
quando o amor nos junta. Desce dos confins 
da eternidade, abandona o mais remoto dos 
infinitos, e senta-se aos pés da cama, como 
um cão, ouvindo a música da noite. Um 
deus só existe enquanto o dia não chega; por 
isso adiamos a madrugada, para que não 
nos abandone, como se um deus 
não pudesse existir para lá do amor, ou 
o amor não se pudesse fazer sem um deus.


Nuno Júdice




terça-feira, 20 de outubro de 2020

Reconstrução

 
Chribeu




Em setembro, a construção do ser torna-se mais fácil: 
o outono, com a sua melancolia, empresta um estranho 
perfume de terra ao espírito. As linhas da natureza ficam 
tão nítidas como a linha do horizonte; e pode ver-se 
para o outro lado, onde as ideias se sobrepõem como 
peças de um jogo de cubos. Espreito através deles, 
tentando esquecer as letras que serviam para que, 
com esses cubos, se formassem palavras: as palavras 
simples de um vocabulário infantil. Mas as letras tapam-me 
a vista do horizonte, e trazem-me de volta ao puro 
jogo do ser, onde nada ainda está decidido. É verdade que podia 
atirar tudo abaixo, pensando que o que importa são 
essas linhas abstractas que desenham, entre as nuvens e o mar, 
uma hipótese de alma. Para isso, seria preciso que eu 
esquecesse as palavras que aprendi, e que voltasse à planície 
branca da origem. Fogo, água, luz, terra, todas as letras 
me obrigam a tê-los em conta, mesmo quando o que eu quero 
é outra coisa - a própria qualidade, o essencial, o que 
nenhum sentido capta. Então, espero pelo inverno para 
me desembaraçar da matéria: a chuva, a neve, as tardes 
de nevoeiro, o frio da noite até ao nascer da madrugada, 
onde os cubos de luz caem entre ser e não ser. 


Nuno Júdice






sexta-feira, 15 de novembro de 2019

A VIDA





A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;

a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória;

a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas.



NUNO JÚDICE
in, TEORIA GERAL DO SENTIMENTO






segunda-feira, 11 de março de 2019

Fórmulas de uma luz inexplicável





Às vezes sentimos que o tempo chegou ao fim,
que as portas se estão a fechar por trás de nós,
que já nenhum ruído de passos nos segue;
e temos medo de nos voltar,
de dar de frente com essa sombra que não sabíamos que nos perseguia,
como se ela não andasse sempre atrás de nós,
e não fosse a nossa mais fiel companheira.
Às vezes, em tudo o que nos rodeia,
encontramos essa impressão de que não sabermos onde estamos,
como se o caminho para aqui não tivesse sido o mesmo, desde sempre,
e tudo devesse ser-nos, pelo menos, familiar.
A solução é pegar no fim e metê-lo à boca, 
como se fosse uma pastilha elástica,
derreter o sabor que o envolve, por amargo que seja,
e no fim pegar nesse resto que ficou
e, tal como se faz à pastilha elástica, deitá-lo fora.
Para que queremos nós o nosso próprio fim?
Já bastou tê-lo saboreado, derretido na boca,
sentido o seu amargo sabor.
Então, libertos do nosso fim,
veremos que as portas se voltarão a abrir,
que a gente continua a andar à nossa volta,
que a sombra já não nos mete medo,
e que se nos voltarmos teremos pela frente o rosto desejado,
o amor, a vida de que o fim nos queria ter privado.


Nuno Júdice
in, Fórmulas de uma luz inexplicável






quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

A Divisão do Mundo





Faço uma linha a meio do corpo, como num 
tratado de tordesilhas, para dividir o que me 
pertence e o que apenas pertence ao espelho 
que te reflecte, quando passas a meio do quarto, 
e de um lado és presente e material aos 
meus olhos, e do outro lado és só imagem, 
como se estivesses a entrar numa espécie de 
realidade em que não existe hoje nem ontem, 
mas apenas a beleza que dura para além do 
tempo e das circunstâncias em que te vejo.

É um tratado que faço entre mim e mim para
te dividir, e saber que este corpo que hoje 
possuo logo deixará de me pertencer quando 
o deitar no poema, como alguma vénus de 
rubens ou banhista de renoir, envoltas 
em véus ou em arbustos, à luz das velas ou 
do sol. E sinto o que tenho quando te perco, 
e o teu corpo se imprime para lá dessa linha 
abstracta que te separa de ti própria, quando 
em ti se juntam a realidade e o seu reflexo.

Mas se tiro da tua frente esse espelho, é 
dentro de mim que tu te reflectes, e sou eu 
o espelho em que entras para deixares de 
fazer parte de mim, e seres quem aqui vive, 
e para sempre respira neste último verso.


Nuno Júdice
in, Formulas de Uma Luz Inexplicável





sábado, 5 de janeiro de 2019

Diz-me Tudo





Há uma regra inflexível no amor: o seu horizonte 
tem a vastidão do mar, para lá do qual outros 
horizontes se abrem se o muro, ao longo da 
praia, não impuser os seus limites a quem 
deseja a viagem. O espírito, porém, seguindo 
um rumo platónico, voa sobre as ondas, 
afastando-se da apressada respiração das marés; 
e é no alto, onde se confundem nuvens e
gaivotas, que o olhar descobre a imensidão
do oceano para que o sentimento o empurra, 
se não houver pela sua frente um porto, 
ou uma ilha, que ponham fim à navegação. 

Mas estas são apenas as convenções que 
obrigam a imaginação; porque se o amor se 
libertar das palavras que o oprimem, dando 
ao corpo a mesma plenitude que se encontra 
neste mar, está aberto o caminho para o abismo 
em que o ser se dilui no puro espaço, onde 
só o azul existe. Então, os dedos tocam 
o teclado do infinito, e ouvir-se-á a música 
dos murmúrios que nenhum ouvido recebe 
se os sons da terra o magoam. E é como 
se o dia durasse, para além do tempo e 
das coisas da vida, até ao fim do mundo.


Nuno Júdice
in, A Pura Inscrição do Amor



terça-feira, 18 de setembro de 2018

Migrações

 
Laura Zalenga





As transformações por que a alma passa 
são análogas às daquela árvore que tenho no quintal. Já a vi despida, 
ébria, numa ânsia de líquidos 
e nuvens. Depois vi-a 
resplandecente de folhas, pesada, 
impondo-me o respeito dos seus frutos - como 
se eles não estivessem ali para que eu os colhesse antes que 
apodreçam, caídos no chão, ou os pássaros os comam! E 
pergunto-me: que relação existe entre 
essa árvore nua do inverno, e a árvore sob o verde manto 
do verão? Serão os mesmos ramos os que se estendem na sua despida 
fragilidade, como se nada os prendesse no ar, e os que ostentam 
a jóia de flores e rebentos, com o seu ar primaveril? 

Ao cortá-los, para que não tapem o sol às plantas que têm de 
nascer à sua volta, penso nesta comparação 
entre a árvore e a alma; e em como, nas coisas da natureza, não se liga 
a sentimentos, deitando fora o que é inútil para que o novo possa ter
o seu lugar. Mas uma alma não se 
deixa podar, como a árvore. O seu crescimento faz-se sobre si mesma; não 
perde as folhas de um inverno para o outro; e as novas flores e frutos crescem 
sobre outras flores e frutos, juntando-se nessa mistura 
que obriga o homem a decidir, a ter de esquecer partes da sua vida, 
mesmo que saiba que a alma guarda tudo, e que um dia tudo voltará 
ao de cima. 

O que não é diferente, numa alma ou 
numa árvore, são os pássaros: tanto esses pardais que o outono leva, e 
o calor volta a trazer, como as aves abstractas que cantam, por vezes, por dentro 
da alma, no verão como no inverno. Só que estas, nenhuma fisga 
as enxota para o outro lado do muro. São as aves do poema. Voam 
num céu de palavras, como se tivessem todo o tempo do mundo 
para atravessar o horizonte. O poeta, esse, colecciona-as na página: presas 
como borboleta do entomologista louco, debatem-se numa agonia de asas (sim tal 
como esse pássaro visado pelo caçador, 
a ave da alma é tão mortal como o sopro do amor). 

Então, 
dou-lhes a sua ração diária de versos, alimentando-as 
com a tua imagem.  E elas 
sobrevivem.




Nuno Júdice 
in, "Cartografia de emoções"


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

CALMARIA

 




Um barco atravessa as constelações, 
deixando um sulco de asa na superfície celeste. Viajante 
clandestino, oculto o meu sonho
na mala do porão. Ouço um choro de astros
amarrados ao mastro de fogo, e sinto uma queda 
de cometa no abismo do horizonte.

Desenho o seu rumo no mapa
da alma. Evito naufrágios; rodeio arquipélagos 
e recifes; procuro o centro do céu, onde
se esconde a visão de um último porto, com
o seu cais de cinza e uma erupção de lava
nos bolsos do nada. 

Então, acendo um cigarro na falésia
da memória. Os deuses seguem-me, apanhando 
as beatas que deixo pelo caminho. Correm, 
e ouço o bater dos corações num eco
de cansaço. Mas não me apanham, e
dobro a esquina do ocaso, vendo-os tossir
com o fumo da noite

De volta ao convés, reabro
o diário de bordo. E o barco continua parado
no oceano sem porto.


Nuno Júdice
in, Geometria Variável