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terça-feira, 20 de agosto de 2019

Nomes da Noite






Algures na epiderme moram
pequeníssimos grãos
que guardam instantes.
São poros onde ficaram
ocultos os dias em que deslumbrados
tropeçámos na ternura
e fomos jangada, marés e areias.
Num anoitecer inesperado,
a pele salgada de uma concha
pode vir despertar a limpidez velada
desses momentos redondos, brancos
e lunares. Gratos aos búzios,
às grutas percorridas, o cansaço
há-de conduzir-nos a um mar de mel.


LÍLIA TAVARES
in, NOMES DA NOITE 




domingo, 7 de julho de 2019

PODIA


Laura Makabresku 





Podia dizer-te que não me importo
Podia fingir que fugi
Ou que estou morto.
Podia deixar o galho frágil 
onde pousa a minha vida,
abandonar o rotineiro rebuliço
das aves que abalam.

Com a verdade mais pura
A única verdade
A única que dura
Faria a minha despedida
A promessa de mil abraços
E uma palavra sofrida

Que sou eu mais que um pássaro só
que uma folha que no outono desiste
e se desfaz?
Podia dizer-te que volto
E seria breve
Como um poeta escreve
Livre e solto.

Sou azul como as gaivotas ao final da tarde,
branca como o leite que não bebi da ternura
mel como o sumo dos favos que abelhas interromperam

(E tu, minha vida, acreditas
Nas palavras que não digo?
Será o silêncio castigo?
Será em silêncio que gritas?)

Podia dizer-te que são pequenas
As saudades do teu sorrir
Mas seriam palavras apenas
E seria mentir.

Porque metade de mim permanece nas águas que choro,
outra metade partiu na certeza de um sol.


CARLOS CAMPOS e LÍLIA TAVARES





quinta-feira, 24 de maio de 2018

RUMOR

 




Visto-me deste silêncio
como de um vestido de folhas.
Como álamo espreguiço o verde
no rumor de muitas águas.

Sou corpo, beijo profundo e desejo
e sinto-me perder nos lençóis
das tuas mãos que me envolvem
e convidam como linho fresco.

Descalça, para lá das montanhas sábias,
as ondas desnorteadas de um mar redondo.
Sei que nas asas de uma gaivota entontecida
eu parti contigo nos rumores das coisas libertas.

Asa e fogo, grito e beijo,
folhagem e água,
amor e ternura agreste
eu sou.


LÍLIA TAVARES
in, EVOCAÇÃO DAS ÁGUAS