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sexta-feira, 7 de julho de 2017

O que mais amo

 




Não sou capaz de estranhas paixões

e amo, como muitos, o vento forte
que agita a roupa estendida nas cordas,
as bicicletas ferrugentas
de pneus furados
esquecidas em garagens e arrecadações,
a água fresca que mata a sede
ao mais miserável dos homens.
Mas se, como outros, amo os dias de intensa luz
e o descuido dos pássaros no ar,
ninguém ama como eu
as estrias do teu ventre,
a primeira casa de dois filhos.
de todas as coisas prodigiosas que conheço
são elas o que mais se parece
com os rasgos abertos por um arado
na terra crua deste mundo.


Luís Filipe Parrado
in, Entre a Carne e o Osso






domingo, 18 de junho de 2017

O fotógrafo cego

 




Fosse eu o fotógrafo cego

e guardaria a beleza vacilante das coisas,


a rapariga de blusa desabotoada,

o sol do meio-dia, a chave na porta,

o sopro que se imagina na fonte

do pensamento,

a presença dos ciprestes no mundo,

falhas, o assobio da infância,

espelhos do tempo.


Abraçaria o coração rachado de qualquer muro,

um homem fechado em si

como num caixão.


Quando uma sombra se perde

descobre no ar

o próprio trilho,

eu ficaria só entre os vivos,


escutaria no céu o rasto dos motores,

o fôlego dos vermes,

a lei da queda dos graves,

a nota imperfeita,

a veemência da carne.



Fosse eu e espalharia a luz.



Luís Filipe Parrado





quinta-feira, 15 de junho de 2017

COM UNHAS E DENTES

 




Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces.


Luís Filipe Parrado
in, Entre a Carne e o Osso