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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Um livro de carne





Eu sou um homem no vácuo 
Um surdo um cego um mudo 
Sobre um imenso pedestal de silêncio negro 

Nada mais do que este olvido sem limites 
Este absoluto de um zero repetido 
A solidão íntegra e sem falhas

Não há nódoa que caia sobre o dia é pura a noite

Por vezes pego nas tuas sandálias
E vou ter contigo

Por vezes visto o teu vestido e os teus seios
Sou eu que os trago como o teu ventre no meu

Vejo-me então sob o poder da tua máscara
E reconheço-me enfim


Paul Éluard




quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Amo-te e não é a brincar

 




Não há nada mais transparente do que o amor
Deitado como morto na sua ilusão
Tenso e erecto na sua verdade.

Nascer estando a olhar cada entardecer
Dormir surdo encostado ao mal
Sonhar sem se colocar em causa.

O caminhar plúmbeo das lágrimas
Sobre as grandes pedras e o nosso júbilo
Pelas folhas verdes que vemos no bosque.

Eu sou um animal estranho
Falo-te com as orelhas que tenho
Com a voz que falo escuto e te entendo.

Corredor do evidente-opaco
Ser ou sonhar que se é
Sobreviver a si mesmo ou voltar a nascer.

Na primeira vez que te vejo dou-te um beijo
Na vez seguinte tratas-me por tu
E para sempre dou-te a minha fé.

Nada tenho a ganhar
Amo-te demasiado para te perder
Amo-te e não é a brincar.


Paul Éluard




segunda-feira, 3 de abril de 2017

Ideia

 





O acaso que faz as coisas acontecerem
Todas as palavras ditas sem pensar
E que são tomadas tal qual como ditas
Com o que ninguém ganha ou perde

Os sentimentos à deriva
E o esforço mais quotidiano
A recordação vaga dos sonhos
O futuro confrontado com o amanhã

As palavras encalacradas num inferno
De rodas usadas de linhas mortas
As coisas cinzentas e iguais
Os homens ao sabor do vento

Músculos aparentes esqueleto íntimo
O vapor do sentimento
Coração que rima com caixão
E as esperanças reduzidas a zero
E tu chegaste a tarde rompia a terra 
E a terra e os homens mudaram de sentido 
Eu dei comigo sintonizado como um íman 
Ordenado como uma vinha

O nosso caminho tinha uma infinito o fito dos outros 
As abelhas voavam prenhes do seu futuro mel 
E eu multipliquei os meus desejos de claridade 
Para compreender o que acontecia

Tu chegaste eu estava muito triste e disse sim 
Foi a partir de ti que eu dei a minha anuência ao mundo
Rapariguinha eu amava-te como só um rapaz
Pode amar a sua infância

Com a força de um passado muito outros muito puro
Com o ardor de um cantiga sem destom algum
A pedra intacta e a corrente furtiva do sangue
A pulsar nos lábios e na garganta

A erva ténue imobilizava o voo das andorinhas
E o outono pesava no saco das trevas
Tu chegaste as margens libertavam o rio
Para o levar até ao mar

Tu chegaste mais altiva ao profundo da minha mágoa
Do que a árvore separada da floresta que não tem ar
E o uivo da dor o grito da dúvida quebraram-se
Perante a evidência do nosso amor

Aleluia a sombra e a vergonha vergaram-se ao sol
O peso aligeirou-se e fardo pôs-se a rir
Aleluia o subterrâneo fez-se píncaro
A miséria deu o fora e olvidou-se

O lugar da minha inércia onde me tornava estúpido
O corredor sem despertador o beco sem saída e o cansaço
Puseram-se a brilhar com chamas de bater palmas
E a eternidade estendeu no tempo o não ser tempo

Ó tu minha agitada e minha serena ideia
Meu silêncio sonoroso e meu secreto eco
Meu cego vidente e minha vista ultrapassada
Desde então só tive a tu presença



Paul Éluard





sexta-feira, 10 de março de 2017

O ÊXTASE

 




Encontro-me em face desta paisagem feminina
Como uma criança diante do fogo
Sorriso pairante e com lágrimas nos olhos
Perante esta paisagem em que tudo ressoa em mim
Em que espelhos há que se embaciam e outros se iluminam
Reflectindo dois corpos nuis nas fases do tempo uníssonos.

As razões de me perder são imensas
Sobre esta terra sem trilhos e sob este céu sem horizonte
Belos motivos que ontem desconhecia
E que nunca vou esquecer
Belas chaves dos olhares chaves nascendo de si mesmas
Perante esta paisagem onde a natureza é minha

Diante deste fogo primeiro fogo
trave mestra de todos os motivos de encanto
Estrela identificada sobre a terra
E sob o céu que está fora do meu coração e dentro dele
Segundo botão em flor primeira folha verde
Que o mar cobre com suas asas
E o sol no cômputo final de nós provindo

Eu estou perante esta paisagem feminina
Como um ramo deitado ao fogo ardendo.


PAUL ÉLUARD
in, ÚLTIMOS POEMAS DE AMOR






domingo, 14 de agosto de 2016

A Morte o Amor a Vida

 





Julguei que podia quebrar a profundeza a
                                                               [imensidade
Com o meu desgosto nu sem contacto sem eco
Estendi-me na minha prisão de portas virgens
Como um morto razoável que soube morrer
Um morto cercado apenas pelo seu nada
Estendi-me sobre as vagas absurdas
Do veneno absorvido por amor da cinza
A solidão pareceu-me mais viva que o sangue

Queria desunir a vida
Queria partilhar a morte com a morte
Entregar meu coração ao vazio e o vazio à vida
Apagar tudo que nada houvesse nem o vidro
                                                             [nem o orvalho
Nada nem à frente nem atrás nada inteiro
Havia eliminado o gelo das mãos postas
Havia eliminado a invernal ossatura
Do voto de viver que se anula

Tu vieste o fogo então reanimou-se
A sombra cedeu o frio de baixo iluminou-se de
                                                                      [estrelas
E a terra cobriu-se
Da tua carne clara e eu senti-me leve
Vieste a solidão fora vencida
Eu tinha um guia na terra
Sabia conduzir-me sabia-me desmedido
Avançava ganhava espaço e tempo
Caminhava para ti dirigia-me incessantemente
                                                                     [para a luz
A vida tinha um corpo a esperança desfraldava
                                                               [as suas velas
O sono transbordava de sonhos e a noite
Prometia à aurora olhares confiantes
Os raios dos teus braços entreabriam o nevoeiro
A tua boca estava húmida dos primeiros orvalhos
O repouso deslumbrado substituía a fadiga
E eu adorava o amor como nos meus primeiros
                                                                         [tempos

Os campos estão lavrados as fábricas irradiam
E o trigo faz o seu ninho numa vaga enorme
A seara e a vindima têm inúmeras testemunhas
Nada é simples nem singular
O mar espelha-se nos olhos do céu ou da noite

A floresta dá segurança às árvores
E as paredes das casas têm uma pele comum
E as estradas cruzam-se sempre
Os homens nasceram para se entenderem
Para se compreenderem para se amarem
Têm filhos que se tornarão pais dos homens
Têm filhos sem eira nem beira
Que hão-de reinventar o fogo
Que hão-de reinventar os homens
E a natureza e a sua pátria
A de todos os homens
A de todos os tempos.


Paul Eluard
in, "Algumas das Palavras" 






quinta-feira, 21 de julho de 2016

A Curva dos Teus Olhos

 



A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito
é uma dança de roda e de doçura.
Berço noturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.


Paul Éluard






quarta-feira, 20 de julho de 2016

De Um e de Dois, de Todos

 






Sou o espectador o actor e o autor
Sou a mulher o marido e o filho
E o primeiro amor e o derradeiro amor
E o furtivo transeunte e o amor confundido

E de novo a mulher seu leito e seu vestido
E seus braços partilhados e o trabalho do homem
E seu prazer em flecha e a fêmea ondulação
Simples e dupla a carne nunca se exila

Pois onde começa um corpo ganho eu forma e
                                                                [consciência
E mesmo quando na morte um corpo se desfaz
Eu repouso em seu cadinho desposo o seu
                                                                     [tormento
Sua infâmia me honra o coração e a vida.



Paul Eluard 
in, "Algumas das Palavras" 






terça-feira, 19 de julho de 2016

A de Sempre, Toda Ela

 



Se eu vos disser: «tudo abandonei»
É porque ela não é a do meu corpo,
Eu nunca me gabei,
Não é verdade
E a bruma de fundo em que me movo
Não sabe nunca se eu passei.

O leque da sua boca, o reflexo dos seus olhos
Sou eu o único a falar deles,
O único a ser cingido
Por esse espelho tão nulo em que o ar circula
                                                       [através de mim
E o ar tem um rosto, um rosto amado,
Um rosto amante, o teu rosto,
A ti que não tens nome e que os outros ignoram,
O mar diz-te: sobre mim, o céu diz-te: sobre mim,
Os astros adivinham-te, as nuvens imaginam-te
E o sangue espalhado nos melhores momentos,
O sangue da generosidade
Transporta-te com delícias.

Canto a grande alegria de te cantar,
A grande alegria de te ter ou te não ter,
A candura de te esperar, a inocência de te
                                                   [conhecer,
Ó tu que suprimes o esquecimento, a esperança e
                                                   [a ignorância,
Que suprimes a ausência e que me pões no mundo,
Eu canto por cantar, amo-te para cantar
O mistério em que o amor me cria e se liberta.

Tu és pura, tu és ainda mais pura do que eu
                                                   [próprio.



Paul Eluard 
in, "Algumas das Palavras" 






segunda-feira, 11 de julho de 2016

Gritar

 






Aqui a acção simplifica-se
Derrubei a paisagem inexplicável da mentira
Derrubei os gestos sem luz e os dias impotentes
Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos
Ponho-me a gritar
Todos falavam demasiado baixo falavam e
                                                             [escreviam
Demasiado baixo

Fiz retroceder os limites do grito

A acção simplifica-se

Porque eu arrebato à morte essa visão da vida
Que lhe destinava um lugar perante mim

Com um grito

Tantas coisas desapareceram
Que nunca mais voltará a desaparecer
Nada do que merece viver

Estou perfeitamente seguro agora que o Verão
Canta debaixo das portas frias
Sob armaduras opostas
Ardem no meu coração as estações
As estações dos homens os seus astros
Trémulos de tão semelhantes serem

E o meu grito nu sobe um degrau
Da escadaria imensa da alegria

E esse fogo nu que me pesa
Torna a minha força suave e dura

Eis aqui a amadurecer um fruto
Ardendo de frio orvalhado de suor
Eis aqui o lugar generoso
Onde só dormem os que sonham
O tempo está bom gritemos com mais força
Para que os sonhadores durmam melhor
Envoltos em palavras
Que põem o bom tempo nos meus olhos

Estou seguro de que a todo o momento
Filha e avó dos meus amores
Da minha esperança
A felicidade jorra do meu grito

Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco.


Paul Eluard 
in, "Algumas das Palavras" 







sábado, 9 de julho de 2016

O Amor é o Homem Inacabado

 




Todas as árvores com todos os ramos com todas
                                                             [as folhas
A erva na base dos rochedos e as casas
                                                          [amontoadas
Ao longe o mar que os teus olhos banham
Estas imagens de um dia e outro dia
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso
E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas
                                                             [obstinadas
As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos
                                                          [lábios virgens
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A semelhança dos olhares consentidos com os
                                                   [olhares conquistados
A confusão dos corpos das fadigas dos ardores
A imitação das palavras das atitudes das ideias
Os vícios as virtudes tão imperfeitos

O amor é o homem inacabado.


Paul Eluard
in, "Algumas das Palavras"







quarta-feira, 9 de março de 2016

À peine défigurée






Adeus tristeza
Bom dia tristeza
Estás inscrita nas linhas do tecto
Estás inscrita nos olhos que amo
Não chegas a ser a miséria
Pois os lábios mais pobres te denunciam
Por um sorriso

Bom dia tristeza
Amor dos corpos amáveis
Potência do amor
Cuja amabilidade surge
Como um monstro sem corpo
Cabeça desapontada
tristeza belo rosto



Paul Eluard
in, La vie immédiate