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terça-feira, 12 de julho de 2022

CARTA A MARIA CLEA

 
Michael Tarasov






Embora faça sol, a dor oprime a altura.
Converso com você, mas sei que é conjetura.
 
E sendo aqui montanha, verdade aprofundo:
Por quê? Por que nos nutrirmos deste mundo?
 
Deste mundo, exilio, — porta de nossas perdas
onde o tempo nos soma pelas horas esquerdas.
 
Não sabemos talvez, ou em saber não bastamos
que o mundo é sedento e nós o desalteramos.
 
Secam rios de pranto onde a sede se apura
e desagua o labirinto de uma carne obscura.
 
É preciso nos nutrirmos deste mundo, — quantos
somos, sirvamos à sua fome, — fome de tantos.
 
******
 
Só, — enquanto a vida
mais distante esmaecia
e prosseguir — tão só — era oriente
(o caminho é sem retorno, se não existe
nenhum instinto além que o reconheça,
e o passo gratuito pronto ignora
o outro passo)
só, eu prosseguia.
 
Num fim remoto, silêncio ensurdecera
— quem sabe a paz, memória resignada
que tantos sentidos deslembraram?
Quem sabe o adeus de um deus que se prepara?
 
E, sem saber,
num espaço meu
ou de loucura,
— só, estranha em mim,
eu regressava.


MARIA ÂNGELA ALVIM





sexta-feira, 8 de julho de 2022

Soneto ao amigo

 
Alijeb





 Procure ao largo de alma o lenitivo
para este mal da vida, sem promessa.
O corpo vive alheio a se ter vivo
quando fome maior nos arremessa.

 Temos todos, enfim, um amor cativo
que tudo pode e inflama e tudo cessa
quando liberto em si vê seu motivo
a este amor dê tudo e nada peça.

 Cante em sua voz o rito e os dissabores
do tempo e acontecer mas abstraindo
aspecto transitório e fáceis cores.

 Só amor, enquanto é, nos anistia:
sem ele, seres, coisas, verso vindo;
são refúgios do medo sem poesia.



MARIA ÂNGELA ALVIM
in, Poemas seguidos de Carata a um Cortador de Linho




quarta-feira, 29 de junho de 2022

Escreve

  






Escreve. No teu regaço 
o momento se passou.
Voa num tempo de abraço,
abraço não repousou

e o tempo mora em cansaço. 
- Vê: quem nunca se abdicou
vai num ritmo sempre lasso
onde pressa não vingou.

Escreve, ó imensa fadiga,
tua não querença se expande
nessa vontade inimiga.

Escreve teu verso raso 
e assim, que a morte se mande 
acontecer noutro acaso.


Maria Ângela Alvim
in, Superfície Toda Poesia




terça-feira, 31 de maio de 2022

Sombra

  

Alexei Bednij





Sombra de minha sombra, tu, errante,
o caminho termina enquanto pisas,
volve ao começo sempre mais adiante
e, onde estiveste, já volatilizas.

Imagem plana, em tuas viagens lisas,
só te surpreende o tempo caminhante.
Na planície do espaço que improvisas
estás interpretada pelo instante.

Vês com o tempo dos olhos, se revês,
cega o momento uma outra lucidez:
não és quem eras, sendo tu no entanto.

Compondo em forma a esquiva tessitura,
o antigo tempo, este que inaugura,
marca teu passo em métrica de espanto.


Maria Ângela Alvim




domingo, 1 de maio de 2022

A VOLTA

 







Tão só em prosseguir busquei sentido
e o caminho é sem regresso a quem caminha
por nenhum instinto além reconhecido.
Espaço meu ou de loucura, era sozinha.

 Vinha de não sei onde, lar perdido
de mim mesma, ou infância. Vinha
quando apenas vi que recobrara o ido
antigo estar em tal estância, minha.

E tudo que abandonei, o a que deu termo
muda solidão pairando em grito ermo,
largo deserto visto em falso medo,

 tudo que abandonei, faz companhia.
Enquanto, indo, um ocaso brando me assistia
eis que amanheço em mim, volto a ser cedo!


MARIA ÂNGELA ALVIM
in, De Superfície - Toda Poesia





sábado, 23 de abril de 2022

ESTOU E NÃO ME RESPONDO

 






 Estou e não me respondo.
Assisto. Em mim se decide
um inútil afã e se some
a vida que me preside.

E passo, ainda... Meu nome
há muito não coincide
comigo se estar se consome
e tantas vezes me elide.

Me move o tempo mais frio
de tanto pranto afogado
num quase mito de mim.

 Vou morando em desvario
quase em sonho inaugurado
para um começo, meu fim.

 
MARIA ÂNGELA ALVIM
in, De Superfície - Toda Poesia