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sábado, 2 de outubro de 2021

AMAR

  






Amar foi durante muito tempo 
gravar iniciais adolescentes, 
no fuste das tílias.

Era então uma espécie
de idade de ouro do amor.

Mas tive de aprender à minha custa
que amar pode ser tão envolvente
como um polvo:
ama-se em muitas frentes. 

Aprendi que amar, entre outras coisas, 
é também navegar as águas da noite
adultamente
sem bússola e sem cautelas, 
à proa fugidia dum batel.

E que, em casos mais desesperados,
é ir aos trambolhões de mar em mar.
Tumultuosamente. Sem ser correspondido.
E em chamas, se preciso for.


A. M. Pires Cabral





segunda-feira, 15 de julho de 2019

Um homem sentado no seu tempo





Está um homem sentado no seu tempo
cismando na mudança e em tantos
outros lógicos inexoráveis topos.
A pele o reveste com estrema cordura
como se manto, resguardando os vincos
de quebranto esparsos pelo corpo dentro.
Tem a mão combatente espalmada
sobre o rosto recoberto de incertezas -
ou é uma pragmática, anfíbia barbatana
tacteando o interior, seu elemento?

Eis uma máquina de produzir sistemas, 
que belo organismo em movimento.
Um engenho que, incessantemente, 
como um fio de baba vai debitando angústia. 
Ah, mas já a porção se completou, 
já ele toma a tesoura dos seus dedos 
e recolhe uma ideia arredondada 
e a acondiciona entre outras mil, 
todas densas, agudas, de morrer. 
O corpo do homem - exígua embalagem. 

Mas a máquina não pára, o fio finamente 
tecido das mais ínvias confissões 
já forma outra ideia, de configuração 
idêntica às restantes, e tão diversa, 
tão matematicamente original. 
Está um homem sentado no seu tempo, 
recebe do século as mais embravecidas 
aflições - e prossegue segregando, 
tão perfeita engrenagem de sofrer, 
sua atlética fronte tão suada. 


António Manuel Pires Cabral




sábado, 24 de março de 2018

Chuva

 





a princípio a chuva
é como uma árvore delicada e mansa

para a terra que esperou meses que viesse
para a terra que gemeu estalidos de trigal
para a terra que sentiu dentro de si
a voz oculta, persuasiva das sementes
implorando
para a terra fendida e submissa
a chuva é também um macho rude
urgente e cumpridor

a chuva veio     
tímida árvore de outono
começou por espalhar algumas gotas
grossas e dispersas pelo chão
que mal molhou

mas logo
repetido ao infinito o testemunho
já líquida navalha
rasga no solo marcas de saciedade


A. M. Pires Cabral







domingo, 29 de maio de 2016

O Vento






É fácil dizer que o vento
tem gatos na voz
enfurecidos.

Que afaga e despenteia,
traz a chuva.

Que levanta as telhas
exercita na noite
os nossos mais pesados
pesadelos.

É fácil ser poeta
à custa do vento.

Fingir que não sabemos
que o vento não é senão
o vazio que muda de lugar.



António M. Pires Cabral