Mostrar mensagens com a etiqueta Bruna Lombardi. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bruna Lombardi. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Caso

 




Pode ser mais um capricho
pode ser uma paixão
pode ser coisa de bicho
pode não.

Pode ser já por destino
pelos astros, pelos signos
por uma marca, uma estrela
talvez já estivesse escrito
na palma da minha mão.

Talvez não…

Talvez até nem fique
nem signifique nada
nem me arranhe o coração
pode ser só uma cisma
pode estar só de passagem

Ou não.


Bruna Lombardi
in, O Perigo do Dragão




segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A Chama

 




Tenho alma de anarquista
fogos de artifício, pólvora, paixões
você não me conhece
Trago em mim a chama
o perigo, o dragão
trago o que mina, o que explode
a grande subversão

Dentro de mim o que não se doma
que ninguém detém, que nada assusta
o dom
a grande arte da fúria
a fera da sedução

Nisto consiste meu crime
e é o melhor de mim
violenta ternura
força que se irradia e expande feito um gás
que respiramos
e que torna o que fazemos
maior do que o que somos.



BRUNA LOMBARDI
in, O Perigo do Dragão





quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Cetim

 




ele não sabe que eu o amo dentro dos armários, nos
dias
mais esquisitos, que eu me enfeito, me serpenteio de
fantasias,
que eu uso pintas, plumas e anáguas, rendas escuras e
visto
cintas e certas meias... ele não sabe que eu me deslizo
dentro
das tramas, baixo da cama, eu me escorrego, nem
desconfia
como eu me apego a essas manias.
ele não sabe como eu me entrego.
como que preparo, com que firulas, uma avidez de
festas
impossíveis, uns gostos, cânhamo, sândalo, essências,
suor
e uma gota de absinto, na pele um cheiro forte de tudo.
E de
marisco.
ele não sabe que eu pinto a boca de vermelho, percorro
todos
os espelhos da casa na maior cumplicidade clandestina,
e
largo o corpo, lasseio as cordas, me estico,
espreguiço, muito frouxa, mansa, transpirada, um vapor
que embaça os vidros, um calor de porta fechada.
que eu vou me encostando nas paredes, tirando
pulseira,
sandálias, me deixando acontecer, improvisando formas,
cedendo às tentações, devagar, os pés, tapete, coxas, a
umidade, pêlos, copos de vinho, olheiras.
ele não sabe que eu o envolvo nessas imagens, o
escondo
nessas figuras, que eu o possuo o quanto quero, o
invento
e deito e rodo, malho, mordo, uivo, rio.
ele não sabe que eu habito com essas danças na cabeça,
com essas ervas na gaveta, essas folias.
ele nem sabe do que estou falando
entende nada dessas alegorias.



BRUNA LOMBARDI
in, Gaia




sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Arremesso

 





Porque despertar em mim esse animal
alucinado. Animal de olhos de fogo.
Selvagem e louco. Esse animal acuado
que perde sangue no jogo. Essa fera
que te ataca e te resiste. Que por pouco
não te mata. Ah, essa desenfreada que me existe
e me devora. Porque despertá-la agora
já que há tanto vinha adormecida.
Porque assustá-la assim em meio ao sono.
Porque arrancá-la bruscamente de seu sonho
e transportá-la de repente para a vida.
Porque despertar em mim essa cavala doida
que vai te galopar de corpo inteiro. Enlouquecida
que vai se ferir em meio ao trote. Porque atiçar esse
bicho
que nessa luta vai morrer primeiro.
Que vai morrer de fome, de grito, de garganta enxuta,
de tanta entrega. Dilacerado de tanta força bruta.
Porque despertar essa besta que me habita
que se torna cruel e desumana quando aflita.
Porque gritar com ela no silêncio de um sono branco
em que já vinha há tanto. Porque provocá-la em meio
ao espanto
quando ainda não era o seu tempo.



BRUNA LOMBARDI
in, No Ritmo dessa Festa




terça-feira, 5 de setembro de 2017

Doces Delírios

 




E o deus que entrou em nosso quarto
era vermelho e feminino e eu tive
um medo de excitação
desses que a gente prende a respiração
deseja e teme e os opostos se tocam
sempre
e sempre
há de vencer nosso pior.
Somos assim, pequenos magos
pequenos truques, pequeninas plumas sulferinas
coisinhas que cintilam
esferas, estrelas, espelhinhos
cartas dentro da manga, lenços coloridos
tudo em nós flutua
é sonho, abstração.
A tua fé e o meu desejo de pecado
caminham lado a lado e são
tudo que nos escraviza
nosso futuro, nosso passado
a nossa libertação.



BRUNA LOMBARDI
in, O Perigo do Dragão




terça-feira, 8 de agosto de 2017

A VIAGEM DA PAIXÃO

 




Tenho os caprichos inerentes à natureza da mulher
abro a caixa de pandora que eu quiser
e lanço mão de todo mal e todo bem
avanço a passos largos
alcanço o ponto extremo e vou além
onde se estende a palpitação das células
e se prolongam feixes de neurônios
onde se nasce, morre ou se enlouquece
íntima de deuses e demônios.
Onde habitam as feras, os espíritos das florestas
onde se determina a primavera
e se marcam as nossas testas.
Onde se aprende a sabedoria do fogo
e todas as forças de atração
e se descobre o ponto que orienta
esse mapa de navegação.
Estrela solitária, asteróide desgarrado
luz que aponta o caminho
da viagem da paixão.



BRUNA LOMBARDI
in, O Perigo do Dragão





sexta-feira, 19 de maio de 2017

Intransitivo

 




A carne anda cada vez mais fraca
e o silencio cada vez mais comprometedor
cómicos somos nós que estamos falando sério
e pobres são todos, de uma pobreza irremediável
de uma doença incurável, apesar de todos os esforços
da medicina, da psicoterapia, da parapsicologia
quando a única solução seria um sortilégio.

Há políticas bastantes para não pensarmos em nada
e condicionamento suficiente para termos a ilusão de que pensamos
de que somos livres e vivemos como queremos.
Temos vontades baratas: um novo par de sapato
um pouquinho mais de espaço para alongar as pernas
e se possível mais tempo para reclamar da vida.

Ah, deveríamos desobedecer secretamente a nós mesmos,
imitar um pouco mais os bichos
inventar qualquer forma mais pura
do que esta selvageria civilizada
do que este progresso cheio de violência
do que esta racionalidade que não deu certo.

Meu irmão, o absurdo somos nós.



BRUNA LOMBARDI





segunda-feira, 10 de abril de 2017

A QUALIDADE DO MISTÉRIO

 

Ingi Schuster 





Quem percorre escalas dos abismos às estrelas
e caminha em labirintos e conhece o avesso
sabe dos explosivos que há nas galerias subterrâneas
sabe o lugar
onde os possessos, os ferozes, os obssessivos, os devassos
os obstinados, os físicos, os alquimistas, os que lidam
com os sonhos, os que se entregam à paixões
vem banhar-se
sabe do que eles se alimentam
e como enlouquecem na articulação dos tempos

quem sabe onde repousa remota e anônima aquela lua vermelha
e onde as espirais intermináveis do desejo se iniciam

quem está acostumado a extensões
a superfícies, a temperaturas e significados
e determina os pontos cardeais
quem decifra enigmas e dispõe
do poder da semente
embrenha na aranhosa viagem
através da matéria misteriosa da mente
e de todos os outros sentidos, além dos cinco

quem conhece o que se move
e não se espanta
conhece o jogo, conhece mais, o privilégio.



BRUNA LOMBARDI
in, O perigo do dragão





sexta-feira, 17 de março de 2017

Gaia

 
Kirsty Mitchell




Você sabe como eu sou desocupada
que me encerro neste quarto e me permito
todas as divagações, as fantasias
obsessões, perseguições, todos os dias
você sabe que eu me viro de inventos
que eu me reparto e dou crias
que eu mal me resolvo e me aquento
carrego pedras no bolso
e enfrento ventanias.

Você sabe como eu sou desorientada
raciocínio pelo instinto e cometo
fugas de túnel de ladra de galeria
uso malhas e madres manhas e lanhas
e percorro superfícies
em que você escorregaria

mas você sabe como eu sou de subsolos
de subterfúgios, de subversos subliminares
como eu sou de submundos
subterrâneos, de sub-reptícias folias
meio de circo, meio de farsa
ervas, panfletos, fluidos, presságios
quebrantos, jeitos, giras, reviras
de sensações e cismas, filosofias

de como eu sou de estradas, andanças, pressentimentos
atmosférica e vadia
gato da noite, de crises, guitarras
ouros e danças e circunstâncias
de vinho azedo e companhia.

Que eu sou de toda as misturas
todas as formas e sintonias
e enfrento esse aperto, essas normas
forças, pressões, imposições, o poderio
os intervalos, o silêncio da maioria.

Você sabe de toda minha luta
mesmo quando a intenção silencia
que eu não cedo, não desisto
a todo custo, a toda faca, a todo risco
eu sobrevivo de paixão e de anarquia.

Você sabe bem da minha fraude
Você conhece as minhas alquimias.



BRUNA LOMBARDI
in, Gaia




domingo, 15 de janeiro de 2017

Alta Tensão

 




eu gosto dos venenos mais lentos
dos cafés mais amargos
das bebidas mais fortes
e tenho
apetites vorazes
uns rapazes
que vejo
passar
eu sonho
os delírios mais soltos
e os gestos mais loucos
que há
e sinto
uns desejos vulgares
navegar por uns mares
de lá
você pode me empurrar pro precipício
não me importo com isso
eu adoro voar.



BRUNA LOMBARDI
in, O Perigo do Dragão






sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Que Me Venha Esse Homem

 




Que me venha esse homem
depois de alguma chuva
que me prenda de tarde
em sua teia de veludo
que me fira com os olhos
e me penetre em tudo.

Que me venha esse homem
de músculos exatos
com um desejo agreste
com um cheiro de mato
que me prenda de noite
em sua rede de braços
que me perca em seus fios
de algas e sargaços.

Que me venha com força
com gosto de desbravar
que me faça de mata
pra percorrer devagar
que me faça de rio
pra se deixar naufragar.

Que me salve esse homem
com sua febre de fogo
que me prenda no espaço
de seu passo mais louco
Que me venha esse homem
Que me arranque do sono
Que me machuque um pouco.



Bruna Lombardi






domingo, 11 de dezembro de 2016

Céu de Amianto

 




porque nos tornaram assim estreitos
assim impossíveis de asas
assim cautelosos de falas
acanhados, espreitados
fizeram de nós uma ameaça

assaltaram nossa alma, revistaram
nossas gavetas, deixaram
marcas na nossa intimidade
mexeram coisas sutis em nosso passado
nos transformaram em bichos acuados
servis, obedientes.

Não sei resolver o mundo, eu mal resolvo
meu próprio coração
e tudo me consome.

Mas sei que há uma luta. Não existe assombração.
Nesse mundo desincerto
tudo é o homem.



BRUNA LOMBARDI
in, O Perigo do Dragão







terça-feira, 8 de novembro de 2016

Casa Suspeita

 




talvez eu quisesse ser teu lado mais bonito
a parte da tua história mais repleta, plena
a coisa certa
de uma forma tão serena, tão doce
mas que ao mesmo tempo fosse
selvagem e obscena, violenta até.

que o ódio está sempre contido na paixão
e se eu tenho uma paz toda que me enfeita
trago uma casa suspeita dentro do coração

trago um crime que cometi ou que vou cometer
e jogo contra mim, jogo contra você
vivo do perigo de te fazer enlouquecer
no eterno dilema de ser e não ser
ando na beira do que pode acontecer
e morro de medo de te perder.



BRUNA LOMBARDI
in, Gaia








quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Melodrama

 





eu sou uma mulher espantada
o amor me molha toda
me deixa com dor nas costas
ele diz no fundo gostas
no fundo ele tem razão
o amor tinha de ser
mais uma contradição
tinha de ser verdadeiro
confuso e biscateiro
como em toda situação
tinha de ter remorso
e um querer e não posso
e toda essa aflição
tinha de me dar pancada
e eu cantar não dói nem nada
com um radinho na mão
tinha de fazer ameaça
que é pra poder ter mais graça
como toda relação
tinha de ser dolorido
rasgar um pouco meu vestido
depois me pedir perdão
e como em todo melodrama
terminar na minha cama
até por falta de opção.



BRUNA LOMBARDI
in, Gaia







sábado, 27 de agosto de 2016

O Perigo do Dragão

 






Me falaram do perigo do dragão
o homem não
consegue se livrar da castidade
da religião
da lei imposta da moralidade.

Dentro de mim mora o dragão
da natureza
espontâneo e suficiente
e por mais que me obriguem a Fugir
não há nada que me tente
tanto.

Tem o caráter do fogo
o nervo, o temperamento
do proibido
e rompe a linha do extremo
além do sentido.

Dança o movimerito sublime
ultrapassa o cerco
o limite, o crime, o desatino
além da nossa dualidade
na dimensão perigosa
de onde se extrai o destino.

Tudo está contido em tudo, cada coisa
se transforma em outra
contínuo o fio da ação
cada um carrega em si o seu oposto
a vida é o germe da destruição.



BRUNA LOMBARDI
in, O Perigo do Dragão






sábado, 13 de agosto de 2016

Moreno

 



Respira na minha nuca
e me abre o fechecler
passa a mão nas minhas costas
e diz que quer me comer
diz que eu vou ficar maluca
de tanto sentir prazer
me puxa, me arranca a saia
que é pra poder me ver

depois ele se encolhe nos meus braços
cabeça no meu peito, seu regaço
transpira de carência e de cansaço
sonha um sonho qualquer
e eu fico ninando esse menino
transformo ele depressa em meu destino
em meu único filho pequenino
como faz toda mulher.



BRUNA LOMBARDI






quinta-feira, 7 de julho de 2016

Ronda

 



A alma dele é revestida de um feminino invisível. 
Transparente. Tem quebras, rasgos, impulsos, 
momentos de 
uma grande carência, de uma loucura clandestina. 
Eu o construo diariamente no meu quarto, lhe dou 
coloridos, 
lhe deixo a barba malfeita, o mando pra rua sozinho, 
inseguro, 
com medo dos outros. 
Ele atravessa a avenida São João, se escora nas sombras 
dos 
desconhecidos, nas memórias, toma um café amargo 
e se sente espião dos seus próprios actos, acende um 
cigarro, 
tenta espantar uma ideia de solidão. 
Esbarro nele, mas às vezes chego tão perto, tão dentro,
quase no avesso. Depois ele se mistura, se perde no 
trânsito, 
me despista e eu de repente o localizo enfrentando 
anónimo 
a noite, o centro da cidade, o descubro escrevendo 
palavrões 
na porta de um banheiro. 
Meio desertor da vida, inutilmente refugiado na 
multidão, 
no escuro das esquinas, nas olheiras. 
Delator silencioso de não ter lugar, nem importância, 
percorrendo os túneis da própria marginalidade, 
Insónia. 
Ele anda, pára em balcões de bar, em bancas de jornais, 
olha 
nos olhos dos outros, os outros, todos os possíveis 
outros 
que passam. Tem a alma multipartida, multifacetada. 
Eu o deixo de madrugada na Avenida Ipiranga com um 
pouco 
de frio nas mãos e na cabeça a banda sonora dos 
super-heróis. 


Bruna Lombardi
in, O Perigo do Dragão






terça-feira, 5 de julho de 2016

Hino

 





Tenho lutado todos os dias pra ser uma mulher
no entanto onde nasci os homens têm sempre razão
e eu que não me interesso pela razão mas por outros sentimentos
teço silenciosamente à porta da minha casa
junto às outras mulheres da minha rua
a trama dos nossos instintos
e minha rua passa por outras cidades
atravessa países
não há fronteiras
tecemos todas nós o mesmo fio
matéria viva da nossa bandeira.


Bruna Lombardi
in, O Perigo do Dragão






quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Talvez






Talvez eu quisesse ser teu lado mais bonito
a parte da tua história mais repleta, plena
a coisa certa
de uma forma tão serena, tão doce
mas que ao mesmo tempo fosse
selvagem e obscena....


Bruna Lombardi






quarta-feira, 18 de julho de 2012

Elogio do Pecado







Ela é uma mulher que goza
celestial sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime
dela ser uma mulher que goza


você pode persegui-la, ameaçá-la

tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.
É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos
à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa


Atravessou a história

foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nada
retorna inteira, maior, mais larga
absolutamente poderosa.



Bruna Lombardi
in, “O Perigo do Dragão”