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terça-feira, 22 de junho de 2021

Sem Resposta

 






o que é mais sagrado, um amor 
que permanece inalterado 
ou a paixão, que te enfarta três vezes ao dia?

o que é mais danoso, um amor 
que deixa a vida em ponto morto 
ou a paixão, que te leva contra um poste?

o que é mais procurado, um amor 
oferecido em classificados ou a paixão, 
que nunca está onde se espera?

o que é mais calamitoso, um amor 
gelatinoso ou a paixão explosiva?

não há resposta que nos sirva.


Martha Medeiros
in, Cartas Extraviadas







segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

O Tempo

 




Na hora da saudade, da tristeza, do desamparo,
é com ele que contamos: o tempo.

Queremos dormir e acordar dez anos depois
curados daquela ideia fixa que se instalou no
peito, aquela obsessão por alguém que já
partiu de nossas vidas.

No entanto, tudo o que nos invadiu com
intensidade, tudo o que foi realmente
verdadeiro e vivenciado profundamente
não passa. Fica. Acomoda-se dentro da
gente e de vez em quando cutuca, se mexe,
nos faz lembrar da sua existência.

O grande segredo é não se estressar com
este inquilino incômodo, deixá-lo em paz no
quartinho dos fundos e abrir espaço na casa
para outros acontecimentos.



Martha Medeiros





sábado, 10 de outubro de 2020

De Cara Lavada

 





toda mulher tem um homem que se foi
um homem que a deixou por outra
um homem que a deixou por um câncer  
um homem que nem mesmo a notou
um homem que a deixou por um ideal
um homem que sumiu num temporal
um homem que não passou de dois drinques
toda mulher tem um homem que se foi
um homem que foi pego em flagrante  
um homem que prometeu um brilhante  
um homem que  saiu  pra jogar
toda a mulher tem um homem
que esqueceu de voltar



Martha Medeiros
in, Poesia Reunida





terça-feira, 31 de outubro de 2017

Amor só não basta

 




Casaram, te amo para lá, te amo para cá.
Lindo, mas insustentável.

O sucesso de um casamento exige mais do que 
declarações românticas.
Entre duas pessoas que decidem dividir o mesmo teto tem que 
haver muito mais do que amor, e às vezes nem 
necessita de um amor tão intenso.

É preciso que haja, antes de mais nada respeito.
Agressões zero.
Disposição para ouvir argumentos alheios.
Alguma paciência.
Amor só não basta.

Não pode haver competição. 
Nem comparações.
Tem que ter jogo de cintura para acatar regras que 
não foram previamente combinadas.
Tem que haver bom humor para enfrentar 
imprevistos, acessos de carência, infantilidades.
Tem que saber relevar.
Amar, só, é pouco.



Martha Medeiros




quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Desejo







Desejo 
que desejes alguma mudança,
Uma mudança que seja necessária 
e que ela não te pese na alma,
Mudanças são temidas, 
mas não há outro combustível 
para essa travessia.

E desejo, principalmente,
Que desejes desejar, 
que te permitas desejar,
Pois o desejo é vigoroso e gratuito, 
o desejo é inocente.

Não reprima teus pedidos ocultos, 
desejo que desejes vitórias, 
romances, 
diagnósticos favoráveis, 
mais dinheiro e sentimentos vários.

Mas desejo, 
antes de tudo, 
que desejes, 
simplesmente.


Martha Medeiros 






terça-feira, 29 de maio de 2012

Morre lentamente... Poema de Pablo Neruda ou de Martha Medeiros??






Houve uma confusão no mundo político italiano. Um senador usou um texto da Martha Medeiros em seu discurso para derrubar o primeiro-ministro Romano Prodi.

O texto, que costuma ser creditado ao Pablo Neruda como "Morre Lentamente", na verdade chama-se "A Morte Devagar".

Isto aconteceu em 24/01/08. Clemente Mastella, líder da Udeur, leu a crônica da tribuna do Senado, emocionado, como se fosse do Pablo Neruda. Dono de poucos mas decisivos votos, Mastella ilustrou sua decisão de trair o governo com o bonito texto.

Relembro a bela crónica da poderosa gaúcha , publicada em 2001 , no Zero Hora.
Foi escrita na véspera do dia de Finados:

A MORTE DEVAGAR

Morre lentamente quem não troca de idéias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.

Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru e seu parceiro diário. Muitos não podem comprar um livro ou uma entrada de cinema, mas muitos podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.

Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.

Morre lentamente quem destrói seu amor-próprio. Pode ser depressão, que é doença séria e requer ajuda profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim, destino: então um governo omisso pode matar lentamente uma boa parcela da população.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois, quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante. Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.



O poema Muere Lentamente (Morre Lentamente), atribuído por engano a Pablo Neruda, circula há anos na Internet sem que nada nem ninguém seja capaz de deter a bola de neve.O poema que não se chama Morre Lentamente, mas A Morte Devagar, e não é do poeta chileno como assegurou à EFE a Fundação Pablo Neruda, mas da escritora e poeta brasileira Martha Medeiros.
Filha de José Bernardo Barreto de Medeiros e de Isabella Matos de Medeiros, é jornalista no jornal Zero Hora de Porto Alegre e de O Globo no Rio de Janeiro.


Morre lentamente

Morre lentamente 
quem não viaja, 
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente 
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente 
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos,
quem não muda de marca, 
não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente 
quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente 
quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco
e os pontos sobre os "is" 
em detrimento de um redemoinho de emoções
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos, 
corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente 
quem não vira a mesa quando está infeliz,
quem não arrisca o certo pelo incerto 
para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida 
fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente 
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte 
ou da chuva incessante.

Morre lentamente 
quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Morre lentamente...


Porque não é apenas Muere Lentamente o único "falso Neruda" que encontram os internautas. Também costumam atribuir ao autor do Canto Geral os poemas Queda Prohibido, que é de Alfredo Cuervo, escritor e jornalista espanhol, e Nunca Te Quejes, de autor ignorado pela Fundação.

O director executivo da Fundação, Fernando Sáez, diz que não é a primeira vez nem será a última, que as pessoas imputem a um poeta famoso textos que ele jamais escreveu e cuja autoria é desconhecida.

Um dos enganos do género aconteceu com um famoso texto atribuído a Borges sobre as maravilhas da vida, que nem com sua maior ironia ele teria suportado e menos ainda escrito. O suposto poema de Borges, Instantes, segundo esclareceu a viúva do escritor, María Kodama, é de autoria da escritora norte-americana Nadine Stair.

Mais estrondoso ainda foi o falso apócrifo atribuído a Gabriel García Márquez, La Marioneta, com o qual o prémio Nobel de Literatura colombiano se despedia de seus amigos, após saber que estava com um câncro. "Se por um instante Deus se esqueceu de que sou uma marionete de pano e me presenteasse com um pouco mais de vida, aproveitaria esse tempo o mais que pudesse..." diz o texto cuja "autoria" quase matou de verdade García Márquez, como ele mesmo disse ao desmentir que o poema fosse criação sua.

"O que pode me matar é a vergonha de que alguém acredite de verdade que fui eu que escrevi", disse Gabo.

Muere Lentamente é uma poesia da escritora brasileira Martha Medeiros, autora de numerosos livros e cronista do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, conforme informou à EFE a Fundação Neruda.

Cansada de ver as pessoas a dizer que o poema é do poeta chileno, a própria escritora entrou em contacto com a Fundação Neruda para esclarecer a autoria do texto, pois os versos coincidem em grande parte com o seu texto A Morte Devagar, publicado em 2000, às vésperas do Dia dos Mortos.

Em declarações à EFE, Martha reconhece que não sabe como o poema começou a circular na internet, já que há "muitos textos" seus que estão na rede "como se fossem de outros autores". "Infelizmente, não há nada a fazer", acrescenta.

A poeta e romancista brasileira de 47 anos admira profundamente o poeta chileno Pablo Neruda, de quem se declara uma fã, mas prefere que "cada um tenha o seu trabalho reconhecido". No entanto, não perde o sono com essas coisas e assegura que tem "humor suficiente para rir de tudo isso".

A Fundação concorda com Martha e afirma que pouco pode ser feito para deter esta bola de neve na rede, já que ao fazer uma busca no Google sobre o poema Muere Lentamente associado ao nome do poeta Pablo Neruda, vão aparecer milhares de referências ao poema associado ao nome do poeta.