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domingo, 19 de outubro de 2025

Não viver é o que mais cansa

 

Life Of Pix via Pexels
 



Não é o viver que me cansa. 

É o não haver morto 
que, em mim, não ressuscite. 

De tal modo 
que não encontro morte que seja minha. 

Alheio e distante 
se tornou o fim que trago em mim. 

Longínqua a fonte 
onde bebi a luz até ser pranto. 

O meu sonho 
vai lavrando noites 
e não há fundura na terra 
que receba o meu sono. 

A casa 
segue a vocação da asa. 

E eu, 
para ser feliz,
esqueço-me que sou raiz. 


Mia Couto



quarta-feira, 20 de julho de 2022

TESTAMENTO DA MULHER SUSPENSA

 


Nirav






Eis o que vos deixo:
um leve gosto
de renascer lembrada.

E um falso desejo de ser esquecida.

Que eu virei
buscar a espuma da onda
que ficou para sempre por quebrar.

Beleza não me bastou:
o que quis ser
foram cetins de fogo,
pétalas de cinza depois do abraço.

Nem flor invejei:
o que mais ilumina
vem de um oceano escuro.

Esperanças tive: todas naufragaram
ante cansaços e remorsos.
Procurei ilhas e mares:
só havia viagens,
travessias de água
nos olhos de quem amei.

Num mundo com remédios parcos
não clamei bravuras.
Injusto é viver
em perecível ser.

Menina,
aprendi a desenrolar tapetes
em rasos pátios voadores,
varandas maiores que o mundo
onde o tempo à nossa mão vinha beber.

Meus pequenos dedos
rasgaram céus,
mas o ensejo era largo:
em mim secaram
lembranças de um mar antigo.

Assim,
tudo o que sou
já fui
na criança que sonhou ser tudo.

Meus lutos, sem emenda, carrego:
viuvez de mulher
não vem de marido.

Vem do amor não mais sonhado.

Com a fragilidade de um riso
enfrentei ruínas e derrotas
e apenas a vida, calada, me calou.

Tudo falei com meus amantes.
Perante o amor, porém, não tive palavra.
O que da vida me restou:
pegadas alheias sob meus pés molhados.

Viver sabe quem ainda vai viver.

Deixo-me,
mulher que quase foi,
à mulher que nunca fui.


Mia Couto
in, Tradutor de Chuvas




segunda-feira, 15 de novembro de 2021

OUTROS NOMES DA TERRA

 






 Mais do que magma e rocha,
a Terra é feita de Tempo,
um corpo nosso
que nasceu antes de nós.

A Terra é o joelho do boi,
a anca do rio,
a cabeceira do oceano.

A Terra
é a cauda do princípio,
na boca do enfim.

Nela nos desenterramos
quando pensamos nascer. 

Nela nos semeamos
quando julgamos partir.


Mia Couto
in, "Vagas e Lumes"



domingo, 7 de novembro de 2021

Idade

  




Mente o tempo:

a idade que tenho
só se mede por infinitos.

Pois eu não vivo por extenso.

Apenas fui Vida
em relampejo de incenso.

E quando me acendi
foi nas abreviaturas do imenso.


Mia Couto
in,"Vagas e lumes"



quarta-feira, 13 de outubro de 2021

A partida

 

Craig Pickup



Ao partir,
disseram-me: voltarás sempre.


Parecia um consolo.

Era uma condenação.

Odeio o sempre.

Nos lugares
da vida carecidos,
o sempre é o pior dos nuncas.


Mia Couto
in, "Vagas e Lumes"




segunda-feira, 16 de setembro de 2019

A PRENDA


Alexander Jansson 
Mr. Puppethead




O menino
recebeu a dádiva.

Era o seu dia, assim disseram.

Estranhou:
os outros dias não eram seus?

Se achegou.
Espreitou.

A oferenda,
era coisa nenhuma
que nem parecia existir.

– O que é isso?, perguntou.
– É uma prenda, responderam.

Que prenda poderia ser
se tinha forma de nada.

– Abre.

Abrir como
se não tinha fora nem dentro?

– Prova.

Como provar
o que não tem onde se pegar?

Olhou melhor.
Fixou não a prenda,
mas os olhos de quem a dava.

Foi, então:
o que era nada
lhe pareceu tudo.

Grato,
retribuiu com palavra e beijo.

O que lhe ofereciam
era a divina graça do inventar.

Um talento
para não ter nada.

Mas um dom
para ser tudo.



Mia Couto
in, “Vagas e Lumes“





terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Árvore





Onde os frutos maduram:
sal e sol em minhas veias,
luz e mel em boca alheia.

Onde plantei
a alta acácia das febres
eu mesmo me deitei,
para ser a raiz da semente,
e de madeira e seiva
se fez o meu corpo.

Agora,
chove dentro de mim,
em minhas folhas se demoram gotas,
suspensas entre um e outro Sol.

Em mim pousam
cantos e sombras
e eu não sei
se são aves ou palavras.



Mia Couto
in, Vagas e Lumes




sábado, 9 de junho de 2018

O Instante Antes do Beijo

 



Não quero o primeiro beijo: 
basta-me 
O instante antes do beijo.

Quero-me 
corpo ante o abismo, 
terra no rasgão do sismo.

O lábio ardendo 
entre tremor e temor, 
o escurecer da luz 
no desaguar dos corpos: 
o amor 
não tem depois.

Quero o vulcão 
que na terra não toca: 
o beijo antes de ser boca.


Mia Couto
in, 'Tradutor de Chuvas'




quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Beber Toda a Ternura

 




Não ter morada
habitar
como um beijo
entre os lábios
fingir-se ausente
e suspirar
( o meu corpo
não se reconhece na espera)
percorrer com um só gesto
o teu corpo
e beber toda a ternura
para refazer
o rosto em que desapareces
o abraço em que desobedeces.


Mia Couto
in, "Raiz de Orvalho"




domingo, 5 de novembro de 2017

A PRENDA

 




O menino
recebeu a dádiva.

Era o seu dia, assim disseram.

Estranhou:
os outros dias não eram seus?

Se achegou.
Espreitou.

A oferenda,
era coisa nenhuma
que nem parecia existir.

– O que é isso?, perguntou.
– É uma prenda, responderam.

Que prenda poderia ser
se tinha forma de nada.

– Abre.

Abrir como
se não tinha fora nem dentro?

– Prova.

Como provar
o que não tem onde se pegar?

Olhou melhor.
Fixou não a prenda,
mas os olhos de quem a dava.

Foi, então:
o que era nada
lhe pareceu tudo.
Grato,
retribuiu com palavra e beijo.

O que lhe ofereciam
era a divina graça do inventar.

Um talento
para não ter nada.

Mas um dom
para ser tudo.



Mia Couto
in,  “Vagas e Lumes“




segunda-feira, 7 de agosto de 2017

A casa

 




Confesso:
Quando a olhei
eu apenas queria, 
em sua boca,
a água onde começa a vida.

E fui num murmúrio:
preciso do teu fogo
para não morrer.
Ela, então,
sussurrou o convite:
vem a minha casa.

No caminho,
porém,
recusou meu braço,
esfriou o meu alento.
E corrigiu-me assim o intento:
não te quero corpo,
nem quero o fogo do leito,
nem o frio do adeus.

Suave murmurou:
levo-te,
homem,
a minha casa
para aprenderes a ser mulher.
Que nenhum outro fim
a casa tem.


Mia Couto
in, “Vagas e Lumes”




quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Amei-te sem saberes

 



No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão
eu te amei
e acariciei
o teu imperceptível crescer
como carne da lua
nos nocturnos lábios entreabertos

E amei-te sem saberes
amei-te sem o saber
amando de te procurar
amando de te inventar

No contorno do fogo
desenhei o teu rosto
e para te reconhecer
mudei de corpo
troquei de noites
juntei crepúsculo e alvorada

Para me acostumar
à tua intermitente ausência
ensinei às timbilas

a espera do silêncio




Mia Couto
in, “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”




segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Diz o Meu Nome

 



Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem
[os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome


Mia Couto
in, Raiz de Orvalho






sábado, 7 de janeiro de 2017

Não me basta ser

 


Não me basta ser:
eu quero o transbordar de tudo,
o desassombro
que toda margem desconhece.

Não me basta morar:
quero ser habitado
por quem ao destino desobedece.

Não me basta viver:
quero a vida como febre,
o amor como lume e água.

No final, saberás:
o que se ama não regressa.

O que se vive
não começa.

E o sonho
nunca tem pressa.



Mia Couto




segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A Idade é Isto:


Laura Zalenga






Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos

Mia Couto





quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Para ti





Foi para ti 
que desfolhei a chuva 
para ti soltei o perfume da terra 
toquei no nada 

e para ti foi tudo 

Para ti criei todas as palavras 
e todas me faltaram 
no minuto em que talhei 
o sabor do sempre 

Para ti dei voz 
às minhas mãos 
abri os gomos do tempo 
assaltei o mundo 
e pensei que tudo estava em nós 
nesse doce engano 
de tudo sermos donos 
sem nada termos 
simplesmente porque era de noite 
e não dormíamos 
eu descia em teu peito 
para me procurar 
e antes que a escuridão 
nos cingisse a cintura 
ficávamos nos olhos 
vivendo de um só 
amando de uma só vida 

Mia Couto 
in,  Raiz de Orvalho e Outros Poemas






sábado, 1 de novembro de 2014

A Demora



O amor nos condena: 
demoras 
mesmo quando chegas antes. 
Porque não é no tempo que eu te espero.
Espero-te antes de haver vida 
e és tu quem faz nascer os dias.
Quando chegas 
já não sou senão saudade 
e as flores 
tombam-me dos braços 
para dar cor ao chão em que te ergues.
Perdido o lugar 
em que te aguardo, 
só me resta água no lábio 
para aplacar a tua sede.
Envelhecida a palavra, 
tomo a lua por minha boca 
e a noite, já sem voz 
se vai despindo em ti.
O teu vestido tomba 
e é uma nuvem. 
O teu corpo se deita no meu, 
um rio se vai aguando até ser mar.


Mia Couto
in, " idades cidades divindades"





sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

SAUDADES






Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trêmula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono



MIA COUTO, 
in RAIZ DO ORVALHO E OUTROS POEMAS






sábado, 5 de janeiro de 2013

O AMOR, MEU AMOR




Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,

as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te

para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti

para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes

e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu

E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito

Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te

Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,

para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus

e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.


MIA COUTO 
in, IDADES CIDADES DIVINDADES