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domingo, 17 de fevereiro de 2019

Olha-me como quem chove






A casa cria rugas à luz das
mensagens dos amigos
que não voltam
.
às vezes perguntas
por um ou outro
e eu vou encontrando desculpas para
a ausência de cada um
trabalho longe 
família a tempo inteiro
.
tudo
para que não saibas que
nunca mais eles vão entrar neste quarto
onde eu largo os meus olhos em ti
sabendo que outros 
um destes dias
também só irão 
encontrar aqui 
o rasto
do que fomos


ALICE VIEIRA
in, OLHA-ME COMO QUEM CHOVE




terça-feira, 20 de novembro de 2018

Devagar No Centro do Fogo





é claro que sei dizer palavras calmas
e amar devagar os que chegam a meu lado
e recordam o meu nome de todas as maneiras
com que ao redor da vida o foram construindo

é claro que sei inventar cantigas breves
das que à meia-noite perdem as notas mais vibrantes
quando fogem precipitadamente dos nossos bolsos

é claro que sei voltar a casa e abrir a porta
e fingir que tudo está perfeito sobre a mesa
e os objectos guardam os lugares de sempre
e eu continuo na moldura com um riso de quinze anos
tropeçando no teu ar sério quase a sair do retrato

é claro que sei passar os dedos devagar pelo teu corpo
nas noites em que chegas e dizes já não chove
como se colocasses no meu colo uma prenda de natal
e pudesses apagar a tempestade
no brevíssimo instante em que a vida se resume
aos nossos olhos tentando
acreditar que é cedo

é claro que sei esperar por ti
sabendo desde sempre que não vens e mesmo assim
escolho sem sobressalto a música perfeita
de te acolher no sono com o enevoado rumor
de todos os encontros improváveis

é claro que sei as palavras mesmo que as não diga
que misturas ao longe com os afiados gumes
com que tentas a custo perdoar-te
as horas roubadas a todos os seus legítimos donos

é claro que sei fechar as janelas às armadilhas
que as noites constroem dentro dos teus medos
e donde não consegues regressar
e com sorte encontrar numa cómoda
qualquer coisa tua que esqueceste
na pressa da saída e pensar
que foi por mim que ela apareceu
em tão estranho lugar

- mas quando entre os ruídos da noite
a tua ausência é a única divisão da casa
que razoavelmente partilhamos
tudo isso serve desculpa de muito pouco


Alice Vieira
in, Dois Corpos Tombando na Água






terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Esperar que voltes é tão inútil

 



esperar que voltes é tão inútil como o
sorriso escancarado dos mortos na
necrologia do jornais

e no entanto de cada vez que
a noite se rasga em barulhos no elevador e
um telefone se debruça de um sexto andar

sinto que ainda ficou uma palavra minha
esquecida na tua boca

e que vais voltar
para
devolver


Alice Vieira