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quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

OS AMIGOS


Venkat Reddy




Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor



José Tolentino Mendonça 
in, A Noite Abre Meus Olhos






quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

MENOS PARA TI

 




O que se diz do inverno pode dizer-se da juventude 
é uma estação abstracta 
numa hora qualquer acabamos com frio 
o desprovido transporte que por vezes 
demasiadas vezes é o daquela verdade 

Mas o jogo de alguma coisa 
está mais longe ou mais perto 

Nem tu sabes por quantos anos ainda 
voltarás aos bosques 
aos detalhes que ignoravas 
ao que resta do primeiro amor 
a que todos pensam ter sobrevivido 



José Tolentino Mendonça
in, A Noite Abre Meus Olhos





terça-feira, 21 de março de 2017

Murmúrios do mar

 



"Paga-me um café e conto-te 
a minha vida"

o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
e uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro

outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu, não, nunca choraste
por amores que se perdem

os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
E temos saudades desse mar
Que derruba primeiro no nosso corpo
Tudo o que seremos depois

"pago-te um café se me contares
o teu amor"


José Tolentino Mendonça
in, Baldios





terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Da verdade do amor

 
A G A T A   S E R G E




Da verdade do amor se meditam 
relatos de viagens confissões 
e sempre excede a vida 
esse segredo que tanto desdém 
guarda de ser dito

pouco importa em quantas derrotas 
te lançou 
as dores os naufrágios escondidos 
com eles aprendeste a navegação 
dos oceanos gelados

não se deve explicar demasiado cedo 
atrás das coisas 
o seu brilho cresce 
sem rumor



José Tolentino Mendonça 
in, "Baldios"





domingo, 24 de janeiro de 2016

Os amigos





Os amigos
Esses estranhos que nós amamos 
e nos amam 
olhamos para eles e são sempre 
adolescentes, assustados e sós 
sem nenhum sentido prático 
sem grande noção da ameaça ou da renúncia 
que sobre a luz incide 
descuidados e intensos no seu exagero 
de temporalidade pura 
Um dia acordamos tristes da sua tristeza 
pois o fortuito significado dos campos 
explica por outras palavras 
aquilo que tornava os olhos incomparáveis 
Mas a impressão maior é a da alegria 
de uma maneira que nem se consegue 
e por isso ténue, misteriosa: 
talvez seja assim todo o amor.


José Tolentino Mendonça