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segunda-feira, 9 de maio de 2022

Qualquer Coisa de Paz

 









 Qualquer coisa de paz. Talvez somente
a maneira de a luz a concentrar
no volume, que a deixa, inteira, assente
na gravidade interior de estar.

Qualquer coisa de paz. Ou, simplesmente,
uma ausência de si, quase lunar,
que iluminasse o peso. E a corrente
de estar por dentro do peso a gravitar.

Ou planalto de vento. Milenária
semeadura de meditação
expondo à intempérie a sua área

de esquecimento. Aonde a solidão,
a pesar sobre si, quase que arruina
a luz da fronte onde a atenção domina.


Fernando Echevarría


sábado, 2 de novembro de 2019

Com a Altura da Idade a Casa se Acrescenta





Com a altura da idade a casa se acrescenta.
Não é que aumente a quantidade ao espaço.
Mas, sendo mais longínquos, o desapego pensa
maior distância quando se fica a olhá-lo.
Ou, se quiserem, uma realeza
se instala à volta dessa altura de anos,
de forma a que os objectos apareçam
na luz de quase já nem os amarmos.
Então a casa distende-se na intensa
inteligência de estarmos
a ver as coisas amarem-se a si mesmas.
Ou com a forma a difundir seu espaço.


Fernando Echevarría
in, Figuras





segunda-feira, 5 de março de 2018

Adão e Eva

 

Mariya Andriichuk




1

Feliz era a nudez. Vinha diurna
de dentro de si mesma. Porque o dia
ressumbrava recente desde a sua
novidade de pasmo. E de pupila
apta à evidência. E, por isso, arguta,
sem deduzir-se duma argúcia activa.
Onde fossem seus passos a espessura
entregava o seu fervor de enigma
para, depois, se recolher. Ter junta
e pronta a ordem de nova epifania.
Era a nudez da inteligência. Abrupta
e, ao mesmo tempo, de precisão tão íntima
que até os recantos justos da penumbra
recrutavam a luz da perspectiva.

2

E, além de feliz, era a nudez
encontro de surpresa e de substracto
- dentro palpites de sinais, e até
intento a consumar o corpo, em estado
de o espírito iluminar a tez
que também se enriquece à luz do tacto.
Ou a surpresa é dar-se o estar a ser
com o dentro a difundir o seu espaço
num paraíso de animais que vêm
ao encontro de serem nomeados.

3

E tudo encontra na evidência o nome.
A recente nudez da novidade
traz o enigma do que vem de longe
sem reserva qualquer nele entregar-se.
Ou cada coisa do seu dentro rompe
perpetuamente àquele feliz instante
em que estarem a vê-lo lhe recolhe
estar a ser. Com todo o ser em fase.


E, enfim, era a nudez, corpo visível
onde, invisível, se ajustava o acto
de olhar. Não para enclausurar limites,
ou reduzir o que se estava dando.
A nudez recrudescia. A abrir-se
com a frequência a exceder o impacto
da visibilidade. E assim o timbre
da sua luz estimulava o ângulo
que a sagrava num espaço inextinguível.
E tinha o pulso de animal sagrado.



Fernando Echevarría