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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

O Espaço Livre


 



Desocupado, livre, 
sem vestígios, ao sol, 
tronco devorado pela luz, 
ondulada frescura no dorso, 
sem laços, sem raízes, desabitado. 

Conheço o tempo 
e a demora 
lenta, 
o vazio da casa na manhã, 
a manhã deserta ao sol, 
a cegueira da luz tão leve, 
o deserto simples, 
o nome prolongado e nulo. 

Estou 
no silêncio, 
na habitação do silêncio, 
no mar imaginado, 
na planura verde sussurrante, 
na seara das brisas, 
nos adeuses prolongados em ondas desfeitas, 
no vazio da terra fresca, 
no silêncio sempre novo, 
nas vozes sobre o mar, 
no sono sobre o mar. 

Estou deitado 
e alto. 
Sou a tranquilidade dos montes, 
a lenta curva das baías, 
os olhos subterrâneos da água, 
a liberdade dispersa do vento, 
a claridade de tudo. 

Escrevo sobre dunas 
silenciosamente. 
Oiço o tempo que não passa. 
Um século de frescura 
inunda-me. 
Não esperava habitar esta vasta clareira 
límpida. 
Não esperava respirar esta brisa de paz, 
de liberdade isenta, 
de morte desvelada, 
de vida renovada. 

Abraço todo o espaço na liberdade viva.


António Ramos Rosa 
in, Estou Vivo E Escrevo Sol




sexta-feira, 26 de junho de 2020

UM CORPO QUE SE AMA






Para quem o deseja e quem o ama

 um corpo é sempre belo no seu esplendor

 e tudo nele é belo porque é sagrado

 e, mesmo na mais plena posse, inviolável.


Um corpo que se ama é uma nascente viva

 que de cada poro irrompe irreprimível

 e toda a sua violência é a energia ardente

 que gerou o universo e a fantasia dos deuses.


Tudo num corpo que se ama é adorável

 na integridade viva de um mistério

 na evidência assombrosa da beleza

 que se nos oferece inteiramente nua.


Não há visão mais lúcida do que a do desejo

 e só para ela a nudez é sagrada

 como uma torrente vertiginosa ou uma oferenda solar.

 Esse olhar vê-o inteiro na perfeição terrestre.


ANTÓNIO RAMOS ROSA

in,  A ROSA INTACTA






quinta-feira, 2 de abril de 2020

NÓS SOMOS




Como uma pequena lâmpada subsiste 
e caminha no vento, nestes dias, 
na vereda da noite, sob as pálpebras do tempo. 

Caminhamos, um país sussurra, 
dificilmente nas calçadas, nos quartos, 
um país puro existe, homens escuros, 
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro, 
uma terra existe nesta terra.

Como uma pequena gota às vezes no vazio, 
como alguém só no mar, caminhando esquecidos, 
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados, 
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento, 
uma pálida lâmpada ao fundo dum corredor, 
uma frescura de nada, nos cabelos, nos olhos, 
uma voz num portal e a manhã é de sol.

Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho, 
uma carta que segue, um bom dia que chega, 
hoje, amanhã, ainda, a vida continua, 
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia, 
nas mãos que se dão, nos punhos torturados, 
nas frontes que persistem. 


António Ramos Rosa
in, "Sobre o Rosto da Terra"







sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

As Palavras






Adiro a uma nova terra adiro a um novo corpo
As palavras identificam-se com o asfalto negro
o tropel das nuvens
a espessura azul das árvores acesas pelos faróis
o rumor verde

As palavras saem de um ferida exangue
de teclas de metal fresco
de caminhos e sombras
da vertigem de ser só um deserto
de armas de gume branco

Há palavras carregadas de noite e de ombros surdos
e há palavras como giestas vivas

Matrizes primordiais matéria habitada
forma indizível num rectângulo de argila
quem alimenta este silêncio senão o gosto de
colocar pedra sobre pedra até à oblíqua exactidão?

As palavras vêm de lugares fragmentários
de uma disseminação de iniciais
de magmas respirados
de odor de gérmen de olhos

As palavras podem formar uma escrita nativa
de corpos claros
Que são as palavras?Imprecisas armas
em praias concêntricas
torres de sílex e de cal
aves insólitas

As palavras são travessias brancas faces
giratórias
elas permitem a ascensão das formas
elevam-se estrato após estrato
ou voam em diagonal
até à cúpula diáfana

As palavras são por vezes um clarão no dia calcinado

Que enfrentam as palavras?O espelho
da noite a sua impossível
elipse
Saem da noite despedaçadas feridas
e são signos do acaso pedras de sol e sal
a da sua língua nascem estrelas trituradas.



António Ramos Rosa
in, Gravitações






sexta-feira, 11 de outubro de 2019

NÃO POSSO ADIAR O AMOR PARA OUTRO SÉCULO





Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.


ANTÓNIO RAMOS ROSA
in, VIAGEM ATRAVÉS DUMA NEBULOSA 




quinta-feira, 11 de julho de 2019

Aqui Mereço-te





O sabor do pão e da terra 
e uma luva de orvalho na mão ligeira. 
A flor fresca que respiro é branca. 
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas. 
Pertenço em cada movimento a esta terra. 
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras. 
Sorvo o silêncio visivel entre as árvores. 
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono. 
Sob as pálpebras transparentes deste dia 
o ar é o suspiro dos próprios lábios. 
Amar aqui é amar no mar, 
mas com a resistência das paredes da terra. 

A mão flui liberta tão livre como o olhar. 
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio 
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas, 
ao fogo esparso que alastra ao horizonte. 
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada. 
Tudo o que eu disser são os lábios da terra, 
o leve martelar das línguas de água, 
as feridas da seiva, o estalar das crostas, 
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra, 
o incessante alimento que percorre o meu corpo. 
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio 
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais, 
os alimentos puros, 
as espessas e nutritivas paredes do sono, 
o teu corpo com todo o vagar da sua massa, 
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar. 

Ao flexível volante trabalhado pelas seivas 
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte. 

Uma saúde nova vai nascer destes ombros. 
A lâmpada respira ao ritmo da terra. 
Sei os caminhos da água pelas veredas, 
as mãos das ervas finas embriagadas de ar, 
o silêncio donde se ergue a torre do canto. 

Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te. 

É este o reino de insectos e de jogos, 
das carícias que sabem a uma sede feliz. 
Aqui entre o poço e o muro, 
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo: 
uma infância inextinguível se alimenta 
de uma fábula que renasce em todas as idades. 
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar 
com seu brilho sedoso de erva fina 
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte. 
É aqui o eterno recanto onde a água diz 
a pura praia da infância. 
Aqui bebe e bebe longamente 
o hálito da tristeza no silêncio da vida, 
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce, 
da fundura do tempo, da lonjura permanente, 
aqui, bom dia, minha filha. 


António Ramos Rosa
in, 'A Construção do Corpo' 




terça-feira, 9 de julho de 2019

Corpo Ligeiro Desenhado





Talvez a linha se acenda e continue 
ondeando a página e sendo nós só a margem 
de um domínio onde fulge a inocência, 
talvez se revele a transparência inicial 
em que a luz de estar a ver seja a palavra mesma. 

Vêm figuras que se espraiam e crescem 
até serem apenas ondulada memória. 
Adensam-se outros corpos e enterram-se no fogo. 
As linhas enovelam-se num delírio exacto. 
A alegria ilumina penumbras de volumes. 

Em tensos membros lúcidos e redondos 
move-se o desenhado corpo ligeiro 
e lento. Aumenta a densidade até ao centro 
de um deus que diz o esplendor silencioso. 
Ou só o ar ondeia num planalto de vento. 


António Ramos Rosa




sexta-feira, 28 de junho de 2019

A Ternura Mais Funda Das Águas Esquecidas





Desperta a nudez espalha-se o silêncio
e a nostalgia acende-se como uma sombra clara.
Tudo o que vemos é longe entre margens de sono.

Arde e repousa a casa numa frescura imensa.
Inclinam-se os campos à memória mais antiga.

É a ausência que sabe em transparência líquida
a ternura mais funda das águas esquecidas.
Que júbilo de lâmpadas, de ervas e de rodas
brancas nos caminhos, que frescura tão limpa!

os volumes vazios da agonia. Toda a substância
se aligeira e desnuda na espessura.
Ver é quase nascer e ver ondear o vento.
Há uma presença branca de uma nuvem esquecida.
Alto, uma linha de silêncio se ilumina.


António Ramos Rosa




sábado, 27 de abril de 2019

O Instante





Quem posso eu chamar, que palavras lúcidas 
e sóbrias, veementes 
poderão despertar as ondas felizes, 
que outro apelo, que outro alento 
aproximará as árvores, o hálito das suas frases? 

Quem me oferecerá no seu corpo o estuário das mãos,  
que prodígios da terra deslizarão no repouso, 
que declives, que jardins, que palácios diminutos,  
que intangíveis enlaces, que adoráveis volumes? 
Quem me dará o sossego da fábula mais pura 
com o exacto relevo imediata e vagarosa?  

Real e perfeita 
num deslizar de gozo, em lábios que emudecem deslumbrados, 
real e completo, secreto, imediato, maravilhoso 
é o instante que descobre o animal mais ardente, 
a mais ardente exactidão 
a mais oferecida à claridade, 
a mais contínua, a mais profunda suavidade. 

Estamos dentro de um seio onde nascemos  
como de uma montanha latente, somos a nascente confusão 
de múrmurios silvestres e a magia natural 
de um silêncio límpido, abraçamos a maravilha 
aqui e agora, reconcentração na felicidade, 
na evidência de delícias, múltiplas, fatais. 


António Ramos Rosa




sábado, 13 de abril de 2019

AMOR DA PALAVRA, AMOR DO CORPO





A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que não te vejo.
Boca na boca através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.


António Ramos Rosa
in, "Nos Seus Olhos de Silêncio"




segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Aquele que abre um livro

 




Todo aquele que abre um livro entra numa nuvem
ou para beber a água de um espelho
ou para se embriagar como um pássaro ingénuo
A sôfrega retina
vai-se tornando felina e inflada
e os seus liames tremem entre o júbilo e agonia
Um livro é redondo como uma serpente enrolada
e formado de fragmentos onde lateja o sangue
[ de um pulso
que já não é de um autor que nunca o foi
e que será sempre o ritmo do que está a nascer
irrigando o nada e os terraços sobre os abismos
Nunca o livro se completa embora o redondo
[ o circunde
e o mova para o seu interior sem nunca o envolver
Jamais a nuvem se dissipa mesmo quando
[ a claridade ofusca
Como se fosse preciso adormecer nela como sobre
[ os ombros do mundo
para acompanhar o fluxo ingenuamente novo
com os delicados diademas de fogo e espuma
O livro ora é de veludo ora de bronze
e os seus traços abrem janelas ou terraços
sobre o corpo latente como um arbusto entre pedras
Se a palavra vibra como um meteoro ou desliza
[ como uma anémona
ou não é mais do que uma estrela de areia
a sua proa sulca o incessante intervalo
entre o ardor de incompletos liames
e a estátua aérea que se eleva à sua frente
e continuamente se forma e se deforma
por não ser nada e ser o alvo puro
de um movimento ingénuo sonâmbulo e incerto.


António Ramos Rosa






terça-feira, 9 de janeiro de 2018

A água

 




A água é de si mesma o volúvel horizonte
Na sua leve matéria se completa e se renova
em movimentos de música em límpidos lampejos
Na sua verde retina fugidia
flui a identidade e o seu vazio de concha
onde a interrogação se curva e se perfaz 
em anéis que se dissolvem no princípio puro
na igualdade tranquila de um incessante nascimento
Duplo é o seu olhar que ensimesmado espelha
as formas e as cores do mundo como um centro
entre a ausência e a presença e a respiração de ambas
Ela está sempre em si na espontânea morada
em o olvido murmura em que o silêncio lateja
Se ela reconforta é porque a rosa do seu hímen 
floresce em cada onda perfuma o seu sussurro


António Ramos Rosa





terça-feira, 6 de junho de 2017

Dádiva Gratuita

 




Não queiras mais que a gratuita lucidez
do instante sem caminho Não julgues que ele é mais
do que a casual aragem de não ser mais nada
do que o voluptuoso fluir de um puro vazio

Em distraído vagar como uma leve nuvem
torna-te vago também deixa ascender em ti
essa torre ténue que quer a transparência
e a graça flexível de pertencer ao ar

Não queiras conhecer o que há por trás desse fulgor puro
se é que há algo por detrás Aceita a sua dádiva gratuita
porque ele é precisamente nulo
e tão essencial como o ar que se respira



António Ramos Rosa
in, "As Palavras"





segunda-feira, 17 de abril de 2017

Não Posso Adiar o Amor

 

Ioannis Nikiforakis



Não posso adiar o amor para outro século 
não posso 
ainda que o grito sufoque na garganta 
ainda que o ódio estale e crepite e arda 
sob montanhas cinzentas 
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço 
que é uma arma de dois gumes 
amor e ódio

Não posso adiar 
ainda que a noite pese séculos sobre as costas 
e a aurora indecisa demore 
não posso adiar para outro século a minha vida 
nem o meu amor 
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração


António Ramos Rosa
in, "Viagem Através de uma Nebulosa"




quarta-feira, 17 de agosto de 2016

O Boi da Paciência

 



Noite dos limites e das esquinas nos ombros
noite por de mais aguentada com filosofia a mais
que faz o boi da paciência aqui?
que fazemos nós aqui?
este espectáculo que não vem anunciado
todos os dias cumprido com as leis do diabo
todos os dias metido pelos olhos adentro
numa evidência que nos cega
até quando?
Era tempo de começar a fazer qualquer coisa
os meus nervos estão presos na encruzilhada
e o meu corpo não é mais que uma cela ambulante
e a minha vida não é mais que um teorema
por de mais sabido!

Na pobreza do meu caderno
como inscrever este céu que suspeito
como amortecer um pouco a vertigem desta órbita
e todo o entusiasmo destas mãos de universo
cuja carícia é um deslizar de estrelas?

Há uma casa que me espera
para uma festa de irmãos
há toda esta noite a negar que me esperam
e estes rostos de insónia
e o martelar opaco num muro de papel
e o arranhar persistente duma pena implacável
e a surpresa subornada pela rotina
e o muro destrutível destruindo as nossas vidas
e o marcar passo à frente deste muro
e a força que fazemos no silêncio para derrubar o muro
até quando? até quando?

Teoricamente livre para navegar entre estrelas
minha vida tem limites assassinos
Supliquei aos meus companheiros: Mas fuzilem-me!
Inventei um deus só para que me matasse
Muralhei-me de amor
e o amor desabrigou-me
Escrevi cartas a minha mãe desesperadas
colori mitos e distribuí-me em segredo
e ao fim ao cabo
recomeçar
Mas estou cansado de recomeçar!
Quereria gritar: Dêem-me árvores para um novo recomeço!
Aproximem-me a natureza até que a cheire!
Desertem-me este quarto onde me perco!
Deixem-me livre por um momento em qualquer parte
para uma meditação mais natural e fecunda
que me afogue o sangue!
Recomeçar!

Mas originalmente com uma nova respiração
que me limpe o sangue deste polvo de detritos
que eu sinta os pulmões como duas velas pandas
e que eu diga em nome dos mortos e dos vivos
em nome do sofrimento e da felicidade
em nome dos animais e dos utensílios criadores
em nome de todas as vidas sacrificadas
em nome dos sonhos
em nome das colheitas em nome das raízes
em nome dos países em nome das crianças
em nome da paz
que a vida vale a pena que ela é a nossa medida
que a vida é a vitória que se constrói todos os dias
que o reino da bondade dos olhos dos poetas
vai começar na terra sobre o horror e a miséria
que o nosso coração se deve engrandecer
por ser tamanho de todas as esperanças
e tão claro como os olhos das crianças
e tão pequenino que uma delas possa brincar com ele

Mas o homenzinho diário recomeça
no seu giro de desencontros
A fadiga substitui-lhe o coração
as cores da inércia giram-lhe nos olhos
Um quarto de aluguer
Como preservar este amor
ostentando-o na sombra?
Somos colegas forçados
Os mais simples são os melhores
Nos seus limites conservam a humanidade
Mas este sedento lúcido e implacável
familiar do absurdo que o envolve
com uma vida de relógio a funcionar
e um mapa da terra com rios verdadeiros
correndo-lhe na cabeça
como poderá suportar viver na contenção total
na recusa permanente a este absurdo vivo?

Ó boi da paciência que fazes tu aqui?
Quis tornar-te amável ser teu familiar
fabriquei projectos com os teus cornos
lambi o teu focinho acariciei-te em vão

A tua marcha lenta enerva-me e satura-me
as constelações são mais rápidas nos céus
a terra gira com um ritmo com um ritmo mais verde que o teu passo
Lá fora os homens caminham realmente
Há tanta coisa que eu ignoro
e é tão irremediável este tempo perdido!
Ó boi da paciência sê meu amigo!



António Ramos Rosa
in, O Grito Claro






sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Não posso adiar o amor para outro século

 



Não posso adiar o amor
Não posso adiar o amor para outro século
Não posso
Ainda que o grito sufoque na garganta
Ainda que o ódio estale e crepite e arda
Sob montanhas cinzentas
E montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
Que é uma arma de dois gumes
Amor e ódio

Não posso adiar
Ainda que a noite pese séculos sobre as costas
E a aurora indecisa demore
Não posso adiar para outro século a minha vida
Nem o meu amor
Nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração



António Ramos Rosa
in, Viagem Através de Uma Nebulosa






sábado, 11 de junho de 2016

Poema de um funcionário cansado

 



A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.


António Ramos Rosa
in, Antologia Poética