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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Golpe de Teatro

  

Daz Smith



Deu-se um golpe de teatro, a vida, 
afinal, tinha outras coisas para mostrar. 
Estava tudo quieto (não falávamos) 
e quanto mais a burocracia dos dias 
se eternizava nos próprios dias, 
mais socos desferíamos no amor, 
outrora fatal. Foste a correr dar 
um mergulho no rio da boa vontade, 
de boa vontade regressaste, cãozinho 
amestrado de circo a saltar de um 
banco para outro, e depois a grande 
sensação, por dentro de um aro 
de fogo. O golpe de teatro foi voltares 
ao mesmo, só que a tua vida 
passou a ser uma violência prática, 
como as funerárias junto aos hospitais.


Helder Moura Pereira
in, Golpe de Teatro




sábado, 11 de dezembro de 2021

Ao Fim Do Dia

  





Chegamos ao fim do dia e cada um
pensa para seu lado que isto não
é vida, deixámos na terra os habituais
sinais com tanto de amor como
de desespero e, de mãos vazias,
de coração ainda com alguma coisa
mas quase vazio, batemos com a força
que nos resta, pela última vez, à porta
das sensações e a porta das sensações
abre-se-nos muito devagar
para uma esplendorosa noite cinzenta.


Helder Moura Pereira





terça-feira, 9 de junho de 2020

Nem Sempre Acerto


Sebastian Łuczywo 




Para os outros a bola era a meia
altura, mas a ti batia-te na cara.
E ias muito zangado para dentro
de casa como se eu tivesse feito
de propósito e te tivesse atirado
a bola à cara. Eu era lá capaz de fazer
uma coisa dessas, também já fui
muito pequenino, sabes, chegaram 
a levar-me ao psiquiatra, eu não
ia fazer uma coisa dessas. Quando
me apetece atirar a bola contra
alguém, atiro-a contra uma parede
ou uma árvore. O problema
é que nem sempre acerto na árvore
(na parede acerto sempre, porque
é grande) e às vezes, sem querer,
estás a ouvir, sem querer, acerto
em alguém que vai a passar.


Helder Moura Pereira
in, “Eu Depois Inventei o Resto”





segunda-feira, 11 de maio de 2020

Julgamento






Sinto-me a ser julgado a cada dia
que me ponho de pé, sendo eu
jurado e réu, sendo eu a própria
sala, o próprio ambiente da sala
onde a cada dia se lê a condenação
que pelo meu punho pensei e escrevi.
Olho lá para fora enquanto me ataco
e defendo, pode ser um sítio qualquer,
pode ter árvores e casas, linhas
de eléctrico e grandes autocarros,
pode passar gente pobre, gente rica
em carros a brilhar de lavados, pode
passar todo o corpo da polícia a apitar,
um desfile de tanques de guerra,
trotinetas de crianças, velozes, descendo
o parque, o mesmo pedinte romeno
a desajeitar o gorro para lhe dar mais ar
de pedinte, podem passar as pessoas
todas do mundo que eu estou a olhar
para dentro, preocupado com a justiça
que um dia se há-de fazer, que um dia
hei-de fazer a mim mesmo. E sairei
depois sorridente como nos filmes,
ao cimo da escadaria, a acenar
a jornalistas, à família e a um pequeno
aglomerado de admiradores sinceros
que me seguem e me apoiam,
faça eu a porcaria que fizer.


Helder Moura Pereira




quarta-feira, 1 de junho de 2016

Por um rosto chego ao teu rosto

 



Por um rosto chego ao teu rosto,
noutro corpo sei o teu corpo.
Num autocarro, num café me pergunto
porque não falam o que vai
no seu silêncio aqueles cujo olhar
me fala da solidão.
Esqueço-me de mim. Tão quieto
pensando na sua pouca coragem, a minha
sempre adiada. Por um rosto
chegaria o teu rosto, mesmo de um convite
ousado fugiria, esta mão conhece-te
e desenha no ar o hábito
por que andou antes de saíres
do espaço à sua volta. Estás longe,
só assim podes pedir algumas horas
aos meus dias. Sem fixar a voz
a tua voz é uma corda, a minha
um fio a partir-se.


Helder Moura Pereira 
in, De Novo as Sombras e as Calmas