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quinta-feira, 2 de março de 2023

Tão pouco que somos

  




Manhãs há que se despedaçam nas pálpebras,
revolvem a íris,
arrancam-nos do sono, dos seus bancos da névoa,
de qualquer torpor

Estranhas núpcias celebra o homem com a mais 
recôndita vida.
Enlaçados percorremos a noite, derrubamos as suas pontes,
queremos do amor os perfumes,
a trágica magia -

isto é:
lançamos as redes aos mares, somos um peixe de ouro 
que abandona as escamas,
o covil de todos os tráficos, a mutação das cores.

É um estar subterrâneo, liquidamente.
Podíamos adorar as florestas interiores, os labirintos 
da água,
estremecer com os golpes do remador, com as 
rapidíssimas visões no intervalo das luas.

Seguimos a corrente, a flutuação dos líquenes,
olhamos devagar -
serão aqueles sobre a falésia os pescadores de 
estrelas?
Eles, impassíveis,
veneradores do oceano e do Cruzeiro do Sul, eles 
que amaram a cintilação das Pléiades?

Despertamos de repente, ao descerrar das persianas.
Viajámos muito:
uma anémona, corais, um vestígio de náufragos, o nome 
eis quanto trazemos à luz.

Em pleno dia, já não recordamos - esfinges de 
sal e sol envelhecendo - 
tão pouco que somos.


José Agostinho Baptista





sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Segredo

 
Andrea Costantini 




É este o meu segredo –
fechar-me, calar-me, adormecer espantosamente.

Sem mover os dedos,
sem abrir os lábios,
irei devagar, mais tarde, à hora do sol que se
apaga,
à beira de um rio negro,
quando o coração pára.
Serei apenas um homem sem nome,
caminhando ao acaso, pelas ruas de uma cidade
que devora a sua luz.

Não quero ser mais nada.
Sou a estátua cega, sou de dentro, e por dentro
me perdi.


José Agostinho Baptista
in, Quatro Luas




domingo, 2 de outubro de 2022

Agora, ele já não sonha

 




 Agora, 
ele já não sonha,
as pálpebras estremecem,
é noite outra vez,
o coração fecha todos os portos, todas as 
portas,
e, no reverso de cada página,
somam-se cicatrizes, escombros,
muitos navios sem leme, sem âncora, 
naufragados,
sem os espelhos que um dia, nos mares
entre o norte e o sul,
o viram contemplar, na inquietação das 
vagas,
um rosto aflito que já nada dizia.


José Agostinho Baptista





sexta-feira, 23 de setembro de 2022

FECHA-ME OS OLHOS

 






 Fecha-me os olhos devagar, com um beijo leve,
com três palavras apenas:
dorme, parte, adeus.

Assim tenho de me despedir.
Deixo uma buganvília à entrada da porta branca,
um bairro de sombras floridas,
um cão a quem dei o meu nome.

Deixo a casa amarela,
o limoeiro, as hortênsias, duas estrelícias na
jarra vermelha,
translúcida,
sobre a mesa de mogno.

Deixo alguns livros,
algumas paisagens de litorais desvanecidos,
alguns naufrágios que desenhei com o lápis das
tempestades.

Por favor,
não digam que fui feliz, se não me viram
caminhar pelas ruas desertas,
esmagando a serpente dos dias,
construindo muralhas,
que pouco depois se desmoronavam.

Eles também se despediram, os amigos.

Quando me lembro deles,
há um cântico negro,
com labaredas altivas, um eco de metal que vibra.

Não está certo que assim seja, que se soltem do
nosso peito, um após outro,
os delicados fios de ouro da ternura.

Deixo-vos as maçãs verdes sobre a mesa.
Com o tempo, tudo há-de amadurecer.



JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
in, Esta voz é quase o vento




quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Vida do sonhador

 

Carlo Ferrara





 Procuram-me, uma vez mais, onde não existo.
Já as minhas asas esvoaçam sobre a terra, as candeias 
perseguem o rasto dos avós, alumiando as sombras, o retrato,
um perfil de ave entre os cereais.
Tudo acontece na desumana arte do verso.
Uma pirâmide, uma cor sem nome, degraus sem destino algum.
É esta a vida do sonhador. 
Melancolicamente ardente, desordenando os moinhos, a 
desolação do norte.
Agua e vento, sinais que cruzam o poente, lâminas de gelo em 
direção a tempestade.
Vida, vida do sonhador.


José Agostinho Baptista






segunda-feira, 24 de maio de 2021

Partirei

 







Partirei.
E ao partir, ninguém saberá quem fui,
quantas horas passei, à beira das lápides,
sem pensar em nada.
Cairá o sol sobre o meu peito.
Cairá a escuridão.

Nas planícies do pai,
há um filho que escreve o livro dos órfãos.
O vento move as espigas.
No centeio e no trigo ouve-se um lamento.
Agora sim, direi adeus.


José Agostinho Baptista





sábado, 22 de agosto de 2020

Epílogo







Não sei o que me recordará,
se as páginas de um livro,
se um beijo nos seios de gelo da esfinge,
se as inumeráveis fontes de onde brotavam
as lágrimas,
queimando o rosto,
descendo,
não sei se o meu nome se escreverá no 
silêncio branco das lápides,
rodeadas de aflições e ciprestes,
não pergunto o que querem de mim,
o que fizeram de mim,
e não há súplica que ecoe nos templos,
onde a minha garganta contém um soluço
ou um grito,
não há arte que enalteça todas as minhas
rugas,
toda a mágoa destes braços inertes,
abertos, implorando perdão.


José Agostinho Baptista




quinta-feira, 13 de agosto de 2020

A inutilidade de tudo






durante meses vi amanhecer quando as aves brancas 
chegavam em silêncio. 

quantas madrugadas surgiram quando as luzes se apagavam 
no porto 
quantas gerações de poetas obscuros se sentaram nessas 
pedras cinzentas! 

eu sempre amei os continentes longínquos 
lugares estrangeiros e puros, a extrema desolação das 
aldeias adormecidas, a nostalgia dos dias atlânticos. 

mas já a minha vida fixara a mudança dos ventos 

o ciclo das estações 
a rigorosa inutilidade de tudo. 

foi nesse tempo de meditação que li rilke e eliot e 
sobretudo 
os viajantes do cognac e da morfina. 

incessantemente procurei um sentido para os dias e para 
as noites 
interroguei-me sobre as civilizações antigas 
entreguei-me a surpreendentes ofícios. 

eu guardara a desmedida fascinação dos planaltos 
a clara alegria de algumas cidades marítimas 
velhas canções do mundo   
imensas revoluções. 

durante meses vi amanhecer quando as luzes se apagavam 
no porto 
e as aves brancas chegavam em silêncio; 

incessantemente procurei um sentido para os dias e para 
as noites 
interroguei-me sobre as civilizações antigas, 
entreguei-me a surpreendentes ofícios, 

a rigorosa inutilidade de tudo.


José Agostinho Baptista




domingo, 10 de maio de 2020

Mãe





Eu sou aquela que os vê.
E caminho pelos seus caminhos e sou a
fogueira distante.
O tempo não me apaga.
Tenho os pontos cardeais e sou a bússola nas
suas mãos, 
quando eles vão sobre as águas.
Sou os mapas, a constelação, o cruzeiro do sul,
o arado, o cão, 
aquela que os guarda.
Sou o regaço, as belas plumas do meu regaço,
a imensa luz de amor que cai sobre a sua
penumbra, 
sobre a sua loucura. 
Sou a mãe da sua vida, da sua morte. 
E vou com eles, espalhando as rosas tristes, 
e os meus cabelos espalham sobre os seus 
cabelos as raízes brancas. 
Sou aquela que escreve quando eles dormem, 
sou as palavras através do sono. 
E adormeço com eles, 
fechando as últimas portas. 


José Agostinho Baptista