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quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Casa


Montserrat Diaz





durante a noite
a casa geme agita-se aquece e arrefece
no interior frio do olho da tua sombra sentada
na cadeira aparentemente vazia

esperas acordado sem sono
que a temperatura da casa funda
com a temperatura incerta do mundo
depois
escreves exactamente isto: o horror dos dias
secou contra os dentes - e rouco
dobrado para dentro do teu próprio pensamento
ferido
atravessas as sílabas diáfanas do poema

levantas-te tarde
atordoado
para extinguires o lume ateado
junto à memória da casa - respiras fundo
para que o gelo derreta e afogue
a vulgar noite do mundo

olhas-te no espelho
atribuis-te um nome um corpo um gesto
dormes
com a árvore de saliva das ilhas - com o vento
que arrasta contigo esta chuva de fósforo e
estes presságios de tranquilos ossos




Al Berto
in, Horto de Incêndio





quarta-feira, 4 de setembro de 2019

TENTATIVAS PARA UM REGRESSO À TERRA





o sol ensina o único caminho 
a voz da memória irrompe lodosa 
ainda não partimos e já tudo esquecemos 
caminhamos envoltos num alvéolo de ouro fosforecente 
os corpos diluem-se na delicada pele das pedras 

falam os rios deste regresso e pelas margens ressoam passos 
os poços onde nos debruçámos aproximam-se perigosamente 
da ausência e da sede procurámos os rostos na água 
conseguimos não esquecer a fome que nos isolou 
de oásis em oásis 

hoje
é o sangue branco das cobras que perpetua o lugar 
o peso de súbitas cassiopeias nos olhos 
quando o veludo da noite vem roer a pouco e pouco a planície 

caminhamos ainda 
sabemos que deixou de haver tempo para nos olharmos 
a fuga só é possível para dentro dos fragmentados corpos 
e um dia... quem sabe? 
chegaremos


Al Berto




quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Notas para o diário





deus tem que ser substituído rapidamente por poe-
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário – o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.

é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida – e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.



AL BERTO
in, Horto de Incêndio




segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Recado

 




desprende-se do teu olhar o magnífico abandono dos animais adormecidos
recordo tuas mãos gretadas pelos sóis oblíquos destes dias
do corpo esquecido jorram espessas resinas
retenho ainda os mais íntimos desejos de me confundir com a paisagem
ou de viver precariamente no outro lado do seu silêncio enrubescido

uma sombra pernoita nos interstícios das unhas
um desmaio, e da língua escorre uma madrugada de galos estáticos
a memória embaraça-me este caminhar de cão abandonado
reclino-me para cima de teu corpo ausente, isolo-me
na poeira, devagar, o sono vem como um ferimento às pálpebras
o mundo era feito de estiletes de luz, mas já te afastavas
devolvendo-me à vigília minuciosa dos meus gestos

ouviu-se então um grito, ou uma lágrima
falava-te daqui, onde nenhum corpo tem sentido ou se define no tempo
crosta de terra sem esperança, arquipélago de insónia, rectângulo sem sonho
treme-me a voz ao pensar em teu amargo nome
em mim envelheceram muitos países, e todos estes anos de fúria de viver

no entanto, fugirei de casa sempre que for preciso
sem arrependimento, atravessarei o tempo medonho dos objectos que tocaste
e possuirei de novo o fulgor dos teus frescos dezassete anos

(quase noite, amo)


Al Berto





sexta-feira, 12 de outubro de 2018

VISITATIONE

 




os ossos encheram-se de lodo e
eu comprei um albatroz empalhado
para te vigiar a alma - ao anoitecer

é com os dedos incendiados que enterro
os dias - esta poeira brilhante
que se desprende dos cedros e cai
na fissura entre a máscara e o rosto

um lume maligno solta-se então das águas
a pele adquire o sabor do estuque e do bolor
não há morte ou paixão
que esta cidade não conheça - mas o corpo

não se lembra de tudo - a noite ardendo
desperta o coração - este palácio de plâncton
e de fantasmas com asas de sombra

depois
talvez se ouça o canto quase límpido
do mundo - cinzas onde mergulho
para abrir o tempo e visitar tuas mãos
que a lucidez do amor escureceu


Al Berto
in, O Medo






segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Murmúrio

 




Ele murmura:
deixemos o sonho para quando os corpos se perderem
no excesso das imagens ou na sua imitação
eles simulam o amor

um olhar rápido pelo lugar abandonado
pressente-se ainda a fuga dos corpos
na aragem que limpa a casa
a memória poderá reconstruir tudo a partir das imagens
e do intenso cheiro a mato
por agora nada mais é visível
azul e mais azul e nenhuma mudança na paisagem
nenhum vestígio

as luzes apagaram-se o material foi guardado
o lugar adormece por baixo do bolor imutável
e no esquecimento
os actores caminham para o fim do filme

um gravador esquecido
regista os passos que se afastam devagar
não sabemos ao certo para onde



Al Berto




quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Noite de Lisboa com auto-retrato e sombra de Ian Curtis

 




Filamentos de gelatinoso néon invadem a catedral 
em celulóide do filme nocturno: arquitectura de asas 
abóbadas de vento pássaros de lixo 
som 
pálpebras de lodo sobre a boca do homem que rasteja 
de engate em engate pelas avenidas da memória 
e quando encontra a porta de um bar mergulha no inferno 
bebe furiosamente 
o peito encostado ao zinco sujo duma geração de subúrbio 

presentes aqui os jovens, com a canga nos ombros 

e o mundo poderia desabar dentro de 5 minutos 
o copo estilhaça 
os vidros esfregados nos ombros no peito 
onde uma veia rebenta para mostrar o radioso canto 

depois dança contorce-se embriagado 
cobre o rosto suado com a ponta dos dedos espalha 
sangue e cuspo construindo a derradeira máscara 
cai para dentro do seu próprio labirinto 
como se a verticalidade do corpo fosse um veneno 

domina-o um estertor 
uma corda invisível ata-lhe a voz 
não se moverá mais 
apesar de nunca ter avistado os órgãos profundos do corpo 
sabe que também eles se calaram para sempre 

a noite é imensa e já não tem ruídos 
a morte vem dos pés sobe à cabeça alastra ferozmente 
mas a sua inquietante brancura 
só é perceptível na súbita erecção do enforcado 


Al Berto




terça-feira, 28 de novembro de 2017

Lunário II

 




Um dia, quando a minha memória de homem fugitivo
alcançar a idade de um deserto, debruçar-me-ei num poço e
tentarei beber o tempo esquecido do teu rosto. Estarei lucidamente
morto, eu sei, e os meus olhos já não prenderão a adolescência,
nem as imagens que dela se soltaram. E a minha cegueira surgirá
cercada por frondosas árvores e pássaros, mas não os verei mais.
O rosto, o teu rosto, já não conseguirá atrair-me para o fundo
circular do poço.

O tempo de sedução terminou. Terás de me tocar, terás de
trocar o tacto dos olhos pelo tacto dos dedos. Apenas persistirá o
jogo, a cumplicidade, e uma ténue vibração do corpo que se
perdeu contra o meu corpo.

Por isso me ergo daqui e atravesso estas imagens coladas às
paredes, e ao atravessá-las descubro que estou perdido, e
condenado também a perder-te.

Levanto-me do fundo de mim mesmo e abandono a casa, os
bens que herdei, e vou pela memória daqueles vestígios que se me
cravaram no interior das pálpebras, mas não semeio nem recolho
nada. Apenas persigo os passos que outrora abandonei pelas
cidades onde te procurei, antes mesmo de saber que existias.

E perco-me, perco-me onde a sombra dos corpos é um
sudário de melancolia sobre o mar. Mas, ainda aqui estou, quase
vivo, atento ao movimento perene de tuas mãos sobre o meu
corpo. E sem bússola, nómada até aos ossos, sigo pela noite onde
aportei, e não reconheço a casa que me destinaram para morrer.

(...)

As cidades seduziram-me com imagens de abismos
subterrâneos, vertigens de esperma que se vende, compra e troca. E sonhar
com essas cidades de medo e fascínio é ainda uma maneira de
saciar parte do desejo que me assola. Mas já só existo no que de
mim se cristalizou nas palavras, e é tão pouco...

De imobilidade em imobilidade a vida avançou, avançou
por ininteligíveis iluminações. Hoje, neste fim de século,
desloco-me sem saber como dentro das fotografias que revestem as paredes
deste quarto. E é-me indiferente estar aqui. Sempre que posso fujo,
fujo no olhar que cegou o meu. Porque eu fujo e vou com tudo
aquilo que me chama e toca. Vou com o azul dos olhos do
marçano ali da esquina, vou com as folhas das árvores no outono da
minha rua, vou com a noite à procura da manhã sobre o rio. Vou
pelos arranha-céus acima e contemplo dos altos terraços o sono
esbranquiçado dos mortos. Vou com o teu corpo que me desgasta a
memória doutros corpos e me transforma em esquecimento... vou,
vou sempre, pela humidade dos cardos presos em tua boca.

Abro depois as mãos, e não há mar nas suas linhas, nem
barcos que venham descansar na ponta dos dedos, e a linha do
coração - repara - é uma calosidade. E por uma noite da
imensa cegueira, quando já morar definitivamente em ti,
abandonar-te-ei... à hora dos répteis recolherem o calor nas fissuras do
tempo.

Intacto, irei à procura do merecido repouso.




Al Berto
in, "Lunário"






quinta-feira, 5 de outubro de 2017

vou

 



E é-me indiferente estar aqui. 
Sempre que posso fujo, fujo no olhar que cegou o meu. 
Porque eu fujo e vou com tudo aquilo que me chama e me toca. 
Vou com o azul dos olhos do marçano ali da esquina, 
vou com as folhas das árvores no Outono da minha rua, 
vou com a noite à procura da manhã sobre o rio. 
Vou pelos arranha-céus acima e contemplo dos altos terraços o sono esbranquiçado dos mortos. 
Vou com o teu corpo que me desgasta a memória doutros corpos 
e me transforma em esquecimento… 
vou, vou sempre, pela humidade dos cardos presos em tua boca. 


 Al Berto




sábado, 12 de agosto de 2017

Definitivamente só

 





sabes
por vezes queria beijar-te
sei que consentirias
mas se nos tivessemos dado um ao outro ter-nos-iamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos
foi melhor sabermos quanto nos queríamos
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos
hoje tenho pena
parto com essa ferida
tenho pena de não ter percorrido o teu corpo
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti
do pescoço às mãos da boca ao sexo
tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro
acordado
perto de ti as noites teriam sido de ouro
e as mãos teriam guardado o sabor do teu corpo
ah meu amigo
estou definitivamente só



Al Berto





sábado, 20 de maio de 2017

Eis-me acordado

 






Eis-me acordado
Com o pouco que me sobejou da juventude nas mãos
Estas fotografias onde cruzei os dias sem me deter
E por detrás de cada máscara desperta
A morte de quem partiu e se mantém vivo...

A luz secou na orla desértica da cidade
Escrevo para sobreviver
Como quem necessita de partilhar um segredo...

Este corpo em que me escondi... gastou-se...

Quantas noites permanecerão intactas no fundo do mar?
O rosto ainda jovem
Foi o tesouro de seivas que me entonteceu
Pelo corpo condeno-me à vida
De susto em susto à inutilidade da escrita...

Mas eis-me acordado
Muito tempo depois de mim
Esperando por alguma fulguração do corpo esquecido
À porta do meu próprio inferno...


Al Berto





quarta-feira, 1 de março de 2017

É tarde, Meu Amor

 





é tarde meu amor
estou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das marés, 
na saliva de meu corpo sofrido
agora, tuas máquinas trituraram-me, cospem-me, interrompem o sono
habito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido dos corais...
a solidão tem dias mais cruéis

tentei ser teu, amar-te e amar o falso ouro...quis ser grande e morrer contigo
enfeitar-me com as tuas luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda...cantar-te os gestos com ternura
mas não

águas, águas inquinadas pulsando dentro do meu corpo, como um peixe ferido, louco
em mim a lama... e o visco inocente dos teus náufragos 
sem nome-de-rua, nem estátua-de-jardim-público
aceito o desafio do teu desdém

na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição
apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te cantam.



Al Berto





sábado, 11 de fevereiro de 2017

Vou partir

 



vou partir
como se fosses tu que me abandonasses

o último sonho que tive era estranho
via o fundo límpido duma rua estreita
que desembocava num largo iluminado
havia leões empalhados nos passeios em areia solta
já não me lembro bem
parece que uma mulher avançava com um envelope na mão
estendia-mo e gritava
mas eu não conseguia perceber
insultava-me muito provavelmente
tinha a cara escondida por um pano branco bordado
apenas via a sua enorme boca a abrir-se
e furiosamente engolir a púrpura do ar
que envolvia as cabeças reclinadas dos leões
ouvia o buzinar nervoso dos carros
exactamente como se ouvem agora
mas não conseguia vê-los
depois
um rapaz apareceu a uma esquina e reconheci-te
uma voz gravada na memória acompanhava-nos
quando nos dirigimos um para o outro
em câmara lenta
ouvíamo-la sussurrar: procuro-te
no interior das penumbras no esquecido sal
das casas abandonadas à beira-mar
procuro-te no perfume excessivo do mel
armazenado pelas abelhas no entardecer das pálpebras
vem
mergulha as mãos nos troncos das árvores
suspende a noite da longa viagem
estás a naufragar
o espelho quebrou-se e tu já não reconheces as paisagens
o corpo estilhaçou-se

tua presença só é visível nas fotografias dos barcos
as quilhas são a tua memória longínqua das Índias
vai
com os pássaros de bicos exuberantes e sonha
e estende o corpo cansado nos intervalos da erva fresca
onde alguém costurou pedras brancas na orla das grandes rotas
a cidade espera-te com os cais de madeira
junto ao rio abre as mãos toca nos corpos com os lábios
agarra-os dentro de ti
até que da terra lodosa brotem especiarias
porque só longe daqui acharás o que falta da tua identidade
só longe daqui conhecerás o sangue e talvez a felicidade
inundando um breve instante a noite de nossos desastres
só longe daqui
terás a consciência da quotidiana morte de Deus

repentinamente a voz cessou de se ouvir
eu tinha na palma da mão uma quantidade de comprimidos mortais
depois a voz fez-se ouvir a espaços irregulares: pobres unhas
pelas amarras húmidas dos lençóis rotos
barcos
velas sem sol papel pintado descolando-se das paredes
silêncio espesso sarro da noite
uma viatura arrasta-se boceja no asfalto
o corpo treme cintila
resíduos de cidade ruínas da pele buenas noches
buenas noches mi amor
lençóis floridos ranho cabeças de cafres
pingue-pongue de torneira avariada esferas de flipper
noches buenas noches
barcos despedaçados bolor da memória
da memória da memória da memória


tinhas a cara mascarada com sangue quando a voz silenciou
a mulher ria
eu corria para ti sem conseguir alcançar-te
sentei-me na cama
veio-me do fundo da idade o momento em que nos conhecemos
resolvi levantar-me a meio da noite e escrever-te esta carta

lembro-me que tínhamos fome havia três dias
encostada ao mármore da mesa-de-cabeceira dormia a fotografia
e o maço de português suave filtro
a escuridão não era só exterior
conhecíamo-nos pelo tacto e pelo olfacto
tornámo-nos murmurantes
e tu refulges ainda no escuro dos quartos que conhecemos
cruzámos olhares cúmplices
falámos muito não me recordo de quê
e no calor dos corpos crescia o desejo
caminhámos pela cidade
eu metia as mãos nas algibeiras
onde tacteava tudo o que guardara e possuía
um lenço uma caixa de fósforos um bloco de notas
sentia-me feliz por quase nada possuir
a imagem azulada de tuas mãos flutuava diante de mim
gesticulava para me dizer que estávamos vivos
e apaixonados

escrevo-te
pelo corpo sinto um arrepio uma vertigem
que me enche o coração de ausência pavor e saudade
teu rosto é semelhante à noite
a espantosa noite de teu rosto!

corri para o telefone mas não me lembrava do teu número
queria apenas ouvir a tua voz
contar-te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer-te por que parto
por que amo
ouvir-te perguntar quem fala?
e faltar-me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa
a noite tornou-se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr para a rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra
só para te dizer boa noite ou talvez tocar-te
e morrer
como quando me tocaste a testa e eu não pude reconhecer-te
apesar de tudo senti a mão sabia que era a tua mão
mas não podia reconhecer-te
sim
correr a cidade procurar-te mesmo que me afastasses
mesmo que nem me olhasses
mesmo que me dissesses coisas que me
mesmo que
e ter a certeza de que serias tu depois a procurar-me

correr a cidade com o corpo sedento
a noite esgravatando a pele
bebendo nas veias as poucas forças que me restam
uma lâmina pelos sonâmbulos asfaltos
onde morrem ambíguos nomes de corpos sem sexo
o veneno agindo dos pés para a cabeça
as mãos encharcadas de chuva tacteando um século qualquer
o sangue a chuva a memória desses dias tão difíceis
a noite a lambuzar com violência os rostos magoados
visões de sonhos ainda não sonhados
dilaceradas imagens de bocas coroadas por flores de aço afiado
ouço outra vez uma voz e agora não estou a sonhar
mas a escrever-te
e ouço-a em mim como se estivesse gravada
e a fita do gravador gasta pelo uso: a tua vida
será feita de embarcações e de solidão
beberás a secura dos cabos distantes
conhecerás ilhas de saliva profunda
olhar-te-ás nas fotografias
que as unhas aceradas do tempo arranharam
e para lá dessas imagens envelhecidas tudo sangra e dói
a tua infância a tua adolescência e o medo
de não conseguires sobreviver ao estrume do país

avançarás pelo mar dentro
ferido por outros naufrágios imperceptíveis
descansarás
nas areias aveludadas da foz dalgum rio sagrado
e quando o mar se retirar
o sol e a lua virão tatuar sobre o ombro
a silhueta viva dum bicho estelar e a memória
essa parte calcinada da vida começará a doer e a latejar
navegarás pela cidade que adere aos dedos
como sarna mais antiga navegarás
com o escorbuto no coração transportarás o silêncio
e a escrita na fragilidade dos pulsos acorda
onde cintila a faca acorda o mar
está próximo o mar acorda
o mar acorda o mar acorda o mar
o mar

na gaveta onde o bolor cobriu a roupa guardo as fotografias
reparo como amareleceram suavemente os rostos
as mãos que seguram ramos de flores os cabelos os olhos
exala-se deles uma leve doçura cor de sépia
foram perdendo a definição esfumaram-se os contornos
numa das fotografias tens vestida a camisa de riscas azuis
noutras sorris olhas-me nos olhos
mas aquele sorriso não o que ainda ontem te vi esboçar
o sorriso que tens na fotografia morreu
no entanto está ali e fico perturbado quando o vejo
eu sei que nada está vivo na fotografia ou se repetirá
aqueles sorrisos aqueles instantes para sempre perdidos
a camisa às riscas votada à degradação lenta do papel
acabei por destruir as fotografias queimei-as
para que ninguém possa supor através delas
histórias a nosso respeito
e também para que minha mulher as não encontre

a única coisa que levo comigo é a cápsula de laranjada
atada a um cordão em couro deste-ma tu um domingo
quando passeávamos perto do rio
íamos ver o sol morrer nas águas
caminhávamos sem destino pela cidade
o crepúsculo atingia-nos com misteriosos desejos
seria inútil falar das razões da minha viagem
no fundo nada a justifica
embora a minha vida ultimamente seja um barco sem rumo
de vaga em vaga de ressaca em ressaca
fui arrastando o meu próprio naufrágio
mas ser-me-ia difícil falar-te destas catástrofes
prefiro calar-me para sempre ou enlouquecer
ou avivar a memória de certas visões aciduladas
enquanto te escrevo esta última carta
é também a última vez que penso em ti
sempre habitei este país de água por engano
estas planícies asfaltadas pelo tédio estes prédios de urina
estas paredes vomitadas
onde as diáfanas aves da solidão embatem e definham
deixam cair dos bicos fios de sangue e de cuspo que te evocam
vou migrando de corpo para corpo
sem nunca conseguir definir o voo complexo do meu
escrevo-te ainda lúcido
no entanto ignoro se chegarei vivo ao fim da noite
quem poderá afirmar que daqui a instantes
não atravessarei os espelhos impossíveis da noite?
ferindo o corpo rasgando borboletas de luz
no écran da cidade amanhecendo em mim
esqueço como me chamo
e tenho a certeza de que nunca mais nos veremos
mesmo no caso de eu permanecer aqui
neste país de água por engano
descobri que a morte calça o mesmo número de sapatos que eu

sabes
por vezes queria beijar-te
sei que consentirias
mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter-nos-íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos
foi melhor sabermos quanto nos queríamos
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos
hoje tenho pena
parto com essa ferida
tenho pena de não ter percorrido teu corpo
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti
do pescoço às mãos da boca ao sexo
tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro
acordado
perto de ti as noites teriam sido de ouro
e as mãos teriam guardado o sabor de teu corpo
ah meu amigo
estou definitivamente só

estou preparado para o grande isolamento da noite
para o eterno anonimato da morte
mas perdi o medo
a loucura assola-me
preparo a última viagem às índias imaginadas
disseram-me que só ali se pode descansar da vida
e da morte
perscruto a razão profunda desta viagem
ou talvez seja já a torna-viagem o que vislumbro
e não valha a pena partir porque já estou de volta
sem o saber
hesito em deixar-te escrito mais que um simples adeus
de qualquer maneira por muito longe que me encontre
se pousares a tua mão sobre a minha testa senti-lo-ei
esse gesto aliviar-me-á de todas as dores
a manhã aproxima-se cortante
ouço barcos largarem do cais
preparo a lâmina
estendo as velas em agonia uma lâmina de vidro
para fender as águas imperturbáveis do dia sem bússola
destruo cartas papéis manuscritos outros sinais
destruo as imagens que me chamam e me querem reter aqui
releio estas poucas palavras para ti: child of the moon
debaixo das cerejeiras uma serpente antiga adormeceu
em tuas mãos de pétalas lunares
movem-se astros em cima da alba da pele
olharemos os insectos perfurarem a treva da noite
e tecerem claridades
mas já não tínhamos mais noite a desvendar
lembro-me
a cidade está cada vez mais rente à nossa separação
caminhamos em direcções opostas
ou melhor
eu caminho enquanto tu não existes
a noite aproxima-se com seus territórios de sombra e fábula
areias penumbras oscilantes apagando resíduos de corpos
teu corpo minúsculo arrefece dentro de mim
quando as feras despertam nos olhas abandono-me
à lama colorida dos terrenos vagos
dói-me a voz ao chegar aos lábios
os dedos penetram o metal cintilam
conchas abertas ao sonho
onde terei abandonado a nossa paixão?

um cristal flutua no enxofre de remotas cidades
compridos cabelos de jade espalham-se sobre o rosto
indecifráveis vegetações
o sonho torna-se exótico quando abres os braços
surgem nas pálpebras caudalosos rios
neles pouso a cabeça deixo-a flutuar
uma mulher anela aos ziguezagues pelos corredores da casa
vejo peças de vestuário espalhadas pelo chão
a mulher grita
corre à roda do quarto insulta os electrodomésticos
abre o frigorífico
atira com os legumes congelados ao chão espezinha-os
esborracha-os contra as paredes chora
ri pega numa camisa de riscas e rasga-a em mil tiras
recomeça a correr
entra na casa de banho e abre todas as torneiras
abre as janelas e ri
e lambe as vidraças sujas
derrama açúcar dentro do telefone
e por cima das petúnias de plástico fluorescente urina
mas tudo isto se passou há muito tempo noutro lugar
noutro corpo

viro-me para o sul de nossos corpos e descubro uma ilha
percorro demoradas estradas de tabaco e o ouro envelhecido
dos caminhos alquímicos desvendo
os sinuosos mistérios da seda e da pimenta as grandes rotas
do vento bebo o amargor ela vida errante
onde a mulher dorme sossegada sobre a cama desfeita
o telefone toca obsessivamente toca
um corpo translúcido surge do papel em que te escrevo
revela-se-me a água dos gritos repetidos
um foco de luz incide-me sobre a boca fechada
procuro-me na silenciosa cinza de tua memória
pela casa atravessada de ecos de fogos postos respiro
dificilmente ouço zumbidos de flipper
o quarto povoa-se de rostos alados mecânicos olhares
pequenas garras de ar
desfazem-se em finos cordéis de terra
a mulher avança sob o peso da tempestade
aqui está sempre a chover
o frasco de barbitúricos conta-me o falhado suicídio
a mulher tem o teu rosto ou o meu já não sei
a luz percorre-te o corpo
é noite há muito tempo
fixo um ponto invisível da parede estou sentado na cama
escrevo-te
e tenho a certeza de que ninguém será capaz
de roubar a minha morte
porque eu moro neste país líquido por engano
e tenho dificuldade em imaginar o sono fora de meu corpo
se quiseres vem dormir perto de mim vem
sonharemos um país fabuloso junto ao coração das árvores
vem
antes que trema o corpo no frio sem deuses e na loucura
quase amanhece
lá fora as avenidas mantêm-se vazias
subúrbios sonolentos no refrão dum brutal rock'nd roll
vicious you are so vicious
baunilha azul nos lábios orgasmo de baunilha
tarzan de pastelaria um cigarro de chocolate come
chocolates come sentado no cimo do ice cream toute la nuit
fuck fuck
fuck em diferido
os eléctricos já passaram e as mãos já não são as minhas
têm sede
sede de nudez.
mas vou partir deixar-te aí
como se fosses tu que me abandonasses
viajar antes da alba partir
para longe destes inúteis dias
eu
pobre de mim
navegador da noite próxima da morte
vou acendendo no sangue os sonhos dum povo que não sonha
eu
arquipélago de cinzas oceano do nada
vou de veias inchadas e penso que talvez não valha a pena
mas vou
preciso encontrar o lugar certo para o nosso amor
queres vir comigo?
já avisto da gávea inquietantes iluminuras de rostos de afogados
mãos antigas como rochedos peixes fantásticos
bocas aflitas a tua boca mordendo
o cordame avariado pelo sal
ah meu amigo
eis o sofrimento de meus lábios gretados pelo sarro oceânico
eis minhas unhas doentes protegendo o sexo aberto
às monções aos ventos adversos às vagas rumorosas

vou abandonar-te no lado claro da noite
onde o tempo é um fio de luz rasgando a espessura do corpo
vou partir
com estas manchas de frutos sorvados no coração
para sempre vagamundo
no corredor de espelhos sem tempo deixo-te o sonho
onde já não arde nenhum rosto nenhum nome
nenhuma voz da silente treva
nenhuma paixão

abandono-te para além da linha nítida da manhã
onde dizem que tudo existe se transforma e continua vivo
longe
muito longe desta inocente memória das Índias


Al Berto