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domingo, 3 de maio de 2020

BÁRBAROS





Nós é que éramos os bárbaros.
Pensando em nós é que vocês tremiam nos vossos palácios.
Era por estarem à nossa espera 
que o vosso coração batia desordenadamente.
Das nossas línguas é que vocês diziam:
talvez se componham só de consoantes, 
de frufus, sussurros e folhas secas.
Nós é que vivíamos nas florestas negras.
De nós é que tinha medo Ovídio em Tomi,
Nós é que adorávamos deuses com nomes
que vocês não conseguiam pronunciar.
Mas também nós conhecemos a solidão
e a angústia, e desejámos a poesia.


Adam Zagajewski





domingo, 19 de abril de 2020

A si próprio, para o seu diário





Primeiras horas da manhã; ainda não escreves
(nem tentas escrever), preguiçosamente lês apenas.
Tudo é imóvel, sossegado, cheio, como
se fosse uma prenda oferecida pela musa da lentidão,

como aquele tempo, na infância, nas férias, quando durante muito tempo
se estudava o mapa colorido antes da excursão, o mapa
que tanto prometia,

ou mesmo antes de adormecer, quando ainda não há sonhos,
mas já se pressente o sobrevir deles de várias partes do mundo,
a marcha deles, o peregrinar, o velar deles ao pé da cama do doente
(doente de vigília) e a animação entre figuras medievais

contraídas numa eterna imobilidade por cima da catedral;
as primeiras horas da manhã, o silêncio
                                                               - ainda não escreves,
ainda tanto percebes.
                                  Aproxima-se a alegria.




Adam Zagajewski
in, Sombras de Sombras






quarta-feira, 15 de abril de 2020

TENTA LOUVAR O MUNDO ESTROPIADO


İlhan Maraşlı





Tenta louvar o mundo estropiado.
Recorda os longos dias de Junho,
e os morangos selvagens, as gotas de vinho rosé.
As urtigas que metodicamente invadem
as herdades abandonadas dos exilados.
Tens que louvar o mundo estropiado.
Olhaste os iates e os barcos;
um deles preparava-se para uma longa viagem,
enquanto um esquecimento salgado aguardava os outros.
Viste os refugiados partindo para nenhures,
escutaste os carrascos a cantar alegremente.
Devias louvar o mundo estropiado.
Recorda os momentos em que estávamos juntos,
num quarto branco e as cortinas esvoaçavam.
Regressa em pensamento ao concerto onde a música explodia.
Apanhaste bolotas no parque no Outono
e o redemoinho das folhas cobria as cicatrizes da terra.
Louva o mundo estropiado,
e a pena cinzenta que um tordo perdeu,
e a luz afável que se afasta e se desvanece
e regressa de novo.


Adam Zagajewski







sexta-feira, 27 de março de 2020

Sedento


Alexander Lefler




Havia meses que não escrevia 
nem um único poema. 
Vivia com humildade, lendo os jornais,
pensando no enigma do poder 
e nas causas da obediência. 
Olhava para os pores-do-sol
(escarlates, cheios de inquietação), 
escutava o emudecimento das vozes dos pássaros 
e o silêncio da noite. 
Via os girassóis a pendurarem 
as cabeças ao lusco-fusco, como se um carrasco distraído 
passeasse por entre os jardins. 
No parapeito recolhia-se
a doce poeira de Setembro enquanto os lagartos 
se escondiam nas curvaturas dos muros. 
Dava longos passeios, 
sedento duma coisa só:
dum relâmpago, 
duma mudança, 
de ti. 



Adam Zagajewski






sábado, 29 de fevereiro de 2020

SEM FORMA





Se houvesse só isto,
uma árvore na qual uma estrela dorme,
a catedral vazia de Chartres
e um guia impaciente
e mulheres esperando pelo comboio
e música fria como a saudade?
Se houvesse só isto,
governos alugando ministros
e ministros alugando polícias
e um anjinho
beijando os seus lábios de cera na cama
e dissidentes protestando
e manifestantes marchando
com crianças sorridentes
a música fria como a saudade
e a força que nunca dorme?
Se houvesse só isto,
as máscaras de morte dos poetas e os esqueletos
dos gigantes nas altas montanhas
e livros sobre o orgasmo dos animais
e negros bem vestidos que não
me vêm, e Keats gritando
e aqueles que estão ausentes e vestígios
tão leves como o arsénico
no cabelo de Napoleão, e máscaras imóveis
em rostos petrificados; os museus fechados
dos sonhos e a força que não quer
dormir e os símbolos maçónicos
Mozart escondido no seu Requiem,
enganando Deus desse modo: tanto por dizer,
e mulheres, que têm que viver neste momento
sem o terem pedido,
e países, livres uma vez,
descascados agora como maçãs,
e o tempo, que não cessa de mudar, e eu, eu próprio, maduro,
sem forma.


Adam Zagajewski






sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

ODE À MULTIPLICIDADE



Anh Nguyen 





Não compreendo tudo e até
me alegro por o mundo — como um irrequieto
oceano — superar a minha capacidade
de entendimento do sentido da água, da chuva,
dum mergulho no Lago do Padeiro, perto
da fronteira entre a Alemanha e a Chéquia, em
Setembro de 1980; um pormenor, sem grande
importância, um profundo lago germânico.
Deixem o não-oxigenado Ego serenamente
respirar, deixem o nadador cortar a linha
do meridiano, é de noite, os mochos acordam
do sono diurno, ao longe
preguiçosamente rodam os carros. Quem alguma vez
tocou a filosofia, está perdido,
não o salvará o poema, há-de
ficar sempre um resto, um arrependimento, uma saudade
impossível de quantificar. Quem alguma vez adquiriu a noção da desvairada
corrida da poesia não vai conhecer nunca mais
o pedregoso sossego da prosa familiar,
em que cada capítulo é o ninho
duma geração. Quem alguma vez viveu não
se vai esquecer do mutável prazer das estações
do ano, até com as bardanas e as urtigas
há-de sonhar, e com as aranhas não muito
mais feias do que as andorinhas. Quem alguma vez deparou
com a ironia vai-se rir às gargalhadas
durante a conferência do profeta. Quem alguma vez
rezou com mais do que uma boca seca
há-de lembrar-se para sempre da presença dum estranho eco
proveniente de uma das paredes. Quem alguma vez
ficou calado, não vai querer falar
no momento da sobremesa, quem ficou paralisado pelo choque
do amor há-de voltar aos livros de
rosto transfigurado.
Ergues-te, ó alma singular, perante
o excesso. Dois olhos, duas mãos,
dez engenhosos dedos e
um único Ego, um gomo de laranja,
a mais jovem das irmãs. O prazer
de ouvir não estraga o prazer
de olhar, mas a embriaguez da liberdade corrompe
o sossego dos restantes e suaves sentidos.
Sossego, espesso nada, cheio de doce
sumo como as peras em Setembro.
Os breves instantes de felicidade desaparecem
sob uma avalanche de oxigénio, no Inverno a gralha-calva
solitária golpeia com o bico o branco
gelo da lagoa, noutro momento
um par de pica-paus assustados
com um machado procura para lá
da minha janela um choupo suficientemente doente.
Uma mulher ausente escreve longas
cartas e a saudade intumesce como
ópio; no museu egípcio num papiro
castanho está espalhada essa mesma
saudade, mais velha alguns milhares
de anos, inabalável e inabalada.
As cartas de amor acabam sempre
no museu. Os curiosos são mais
tenazes do que os apaixonados. O Ego
sorve o ar com avidez, a razão acorda
do sono diurno, o nadador sai
da água. Uma bela mulher faz o papel
duma mulher feliz, os homens fingem ser
mais corajosos do que realmente são,
o museu egípcio não esconde as fraquezas
humanas. Existir, oxalá se possa ainda existir,
entregando-se talvez ao poder
duma das estrelas frias. E às vezes
troçar dela, por ser fresca e escorregadia
como uma rã num charco. O poema cresce
na contradição mas não consegue recobri-la.



Adam Zagajewski
in, Sombras de Sombras