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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Natal – 1950

 





Nenhum Natal será possível: sei
que tudo enfim suspenso aguarda
não já Natais sempre de guerra mas
a morte iluminada como aurora
entre esta gente que se junta rindo
e as luzes interiores, muitas cabeças juntas;
entre as lágrimas de ternura e os murmúrios de esperança,
entre as vozes e os silêncios, as pedras e as árvores,
entre muralhas de janelas sob a chuva,
entre agonias dos que lutam porque são mandados
e a cobarde angústia dos que apenas mandam,
no meio da vida, círculo de fogo,
à luz de que se vê uma calçada suja
de restos de comida e de papéis rasgados
– se sei, embora saiba, quanto soube:
ah canto do meu canto, olhar do meu olhar,
nenhum Natal, bem sei, mas outra gente,
e tanta gente, e mesmo que um só fosse,
já louco, envelhecido, apenas hábito,
que poderei fazer, senão humildemente
cantar?


Jorge de Sena
in, Natais in Pedra Filosofal



segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Nascença Eterna

 

Svetlanamax






Nascença Eterna, 
Nasce mais uma vez! 
Refaz a humílima Caverna 
Que nunca se desfez. 

Distância Transcendente, 
Chega-te, uma vez mais, 
Tão perto que te aqueças, como a gente, 
No bafo dos obscuros animais. 

Os que te dizem não, 
Os épicos do absurdo, 
Que afirmarão, na sua negação, 
Senão seu olho cego, ouvido surdo? 

Infelizes supremos, 
Com seu fracasso alcançam nomeada, 
E contentes se atiram aos extremos 
Do seu nada. 

Na nossa ambiguidade, 
Somos piores, nós, talvez, 
E uns e outros só vemos a verdade 
Que, Verdade de Sempre!, tu nos dês. 

Se nada tem sentido sem a fé 
No seu sentido, Sol que não te apagas, 
Rompe mais uma vez na noite, que não é 
Senão o dia de outras plagas. 

Perpétua Luz, Contínua Oferta 
A nossa escuridade interna, 
Abre-te, Porta sempre aberta, 
Mais uma vez, na humílima Caverna.


José Régio




sábado, 14 de dezembro de 2024

Quando um homem quiser

 





Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão 

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão 

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher 

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão 

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão 

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher.


Ary dos Santos
in, As Palavras das Cantigas



quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

É Tempo de Natal

 


É tempo de Natal. Exibe-se um pinheiro,
Com lâmpadas de cor, sobre o balcão.
Tem, também, pendurados, a isca do dinheiro
E flocos finos de algodão.

Nas férias, foge a freguesia
Do final das manhãs,
Com os seus kispos disformes, de inflada fantasia,
E o conforto das lãs.

Bebem-se mais bebidas quentes.
O chão, mais húmido, incomoda.
E há apelos insistentes
Do cauteleiro que anda à roda.

Os embrulhos, nas mesas, nos regaços,
Com vistosos papéis,
Florescem de acetinados laços,
Lembram o oiro, o incenso, a mirra, em mãos de reis.

Muitos adultos. Pouca criançada.
Muito cansaço. Pouca animação.
A vida (a cruz!) tão cara, tão pesada!
E dão-se as boas-festas sem se sentir que o são.

Consigo mesa junto à vidraça.
E é em mim que procuro, ou é lá fora,
A estrela que não luz, o pastor que não passa,
O anjo que não vem anunciar a hora?


ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA







domingo, 26 de dezembro de 2021

Falavam-me de Amor

 






Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,
menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.


Natália Correia
in O Dilúvio e a Pomba




quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

UMA ESPÉCIE DE CONTO DE NATAL

 






 Reuniam-se aos domingos à tarde
na leitaria
com os casacos de pele de zebra e os bichos
ao pescoço de olhos de vidro
na juventude tinham sido
criadas de servir
e toda a vida tinham lutado
por uma boneca loira em cima da cama
com colcha de cetim cor-de-rosa e passamanarias
a ponto de dormirem no chão
transidas de frio
bebiam chá comiam torradas
com muita manteiga
e pediam bolos de creme colorido
uma vez por outra o criado simpático
(havia um outro mas com maus modos para elas)
conseguia arranjar-lhes restos
de bolo de noiva
e as três exultavam então
só por acanhamento não encomendavam
um bolo de noiva para as três
num dia de Natal particularmente frio
sentiram qualquer coisa
nas saias plissadas
era um rato vulgar com um olhar
muito meigo e assustado
afeiçoaram-se logo ao animal
que levaram para casa comovidas
chamavam-lhe o nosso menino lindo
e consentiam-lhe tudo
o rato de noite roía as três bonecas
e as três de manhã iam contemplar os estragos
como aquelas pessoas que se deixam ficar paradas
diante da casa onde se consumou o crime hediondo
ao menos podiam ter arranjado um cão
ou uma criança da Santa Casa
quando o rato adoeceu chegaram a ser insultadas
nas salas de espera das clínicas veterinárias
(a excentricidade nos afectos mais tarde ou mais cedo
sai cara)
o rato ficou internado uns dias
e elas suspeitaram que tinha sido trocado
desconfiaram então muito das instituições
o mundo afinal era uma encenação
e não valia a pena perguntar
se um criado um veterinário ou um bolo de noiva
eram a sério ou a fingir
só se podia tentar averiguar se a encenação
revelava bom gosto ou não


Adília Lopes
in, "Dobra"




domingo, 22 de dezembro de 2019

UM ROSTO DE NATAL





Caiu sobre o país uma cortina de silêncio
a voz distingue o homem mas há homens que
não querem que os demais se elevem sobre os animais
e o que aos outros falta têm eles a mais
no dia de natal eu caminhava
e vi que em certo rosto havia a paz que não havia
era na multidão o rosto da justiça
um rosto que chegava até junto de mim de nicarágua
um rosto que me vinha de qualquer das indochinas
num mundo onde o homem é um lobo para o homem
e o brilho dos olhos o embacia a água.

Caminhava no dia de natal
e entre muitos ombros eu pensava 
em quanto homem morreu por um deus que nasceu.

A minha oração fora a leitura do jornal
e por ele soubera que o deus que cria
consentia em seu dia o terramoto de manágua
e que sobre os escombros inda havia
as ornamentações da quadra de natal.

Olhava aquele rosto e nesse rosto via
a gente do dinheiro que fugia em aviões fretados
e os pés gretados de homens humilhados
de pé sobre os seus pés se ainda tinham pés
ao longo de desertos descampados.

Morrera nesse rosto toda uma cidade
talvez para que às mulheres de ministros e banqueiros
se permita exercitar melhor a caridade.

A aparente paz que nesse rosto havia
como que prometia a paz da indochina a paz na alma.

Eu caminhava e como que dizia
àquele homem de guerra oculta pela calma:
se cais pela justiça alguém pela justiça
há-se erguer-se no sítio exacto onde caíste
e há-de levar mais longe o incontido lume
visível nesse teu olhar molhado e triste.

Não temas nem sequer o não poder falar
porque fala por ti o teu olhar.

Olhei mais uma vez aquele rosto era natal
é certo que o silêncio entristecia
mas não fazia mal pensei pois me bastara olhar
tal rosto para ver que alguém nascia.


RUY BELO
in, TODOS OS POEMAS II 






sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Natal

 




Mais uma vez, cá vimos 
Festejar o teu novo nascimento, 
Nós, que, parece, nos desiludimos 
Do teu advento! 

Cada vez o teu Reino é menos deste mundo! 
Mas vimos, com as mãos cheias dos nossos pomos, 
Festejar-te, — do fundo 
Da miséria que somos. 

Os que à chegada 
Te vimos esperar com palmas, frutos, hinos, 
Somos — não uma vez, mas cada — 
Teus assassinos. 

À tua mesa nos sentamos: 
Teu sangue e corpo é que nos mata a sede e a fome; 
Mas por trinta moedas te entregamos; 
E por temor, negamos o teu nome. 

Sob escárnios e ultrajes, 
Ao vulgo te exibimos, que te aclame; 
Te rojamos nas lajes; 
Te cravejamos numa cruz infane. 

Depois, a mesma cruz, a erguemos, 
Como um farol de salvação, 
Sobre as cidades em que ferve extremos 
A nossa corrupção. 

Os que em leilão a arrematamos 
Como sagrada peça única, 
Somos os que jogamos, 
Para comércio, a tua túnica. 

Tais somos, os que, por costume, 
Vimos, mais uma vez, 
Aquecer-nos ao lume 
Que do teu frio e solidão nos dês. 

Como é que ainda tens a infinita paciência 
De voltar, — e te esqueces 
De que a nossa indigência 
Recusa Tudo que lhe ofereces? 

Mas, se um ano tu deixas de nascer, 
Se de vez se nos cala a tua voz, 
Se enfim por nós desistes de morrer, 
Jesus recém-nascido!, o que será de nós?! 


José Régio
in, 'Obra Completa'





sábado, 15 de dezembro de 2018

NATAL

 




Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?



Jorge de Sena







quarta-feira, 11 de julho de 2018

Segunda Elegia de Natal

 




Teria hoje dezasseis anos
a nossa filha que nasceu morta
Só no silêncio a recordamos
tanto a sentimos à nossa volta

Ano após ano sempre em silêncio
emocionados fomos seguindo
todos os passos de um crescimento
no seu sorriso que nunca vimos

Subiu aos ferros da nossa cama
sem termos medo de que tombasse
Tocou nos livros que fui comprando
sem que rasgasse nem uma página

Andou connosco por longe e perto
sem ter saído do seu abrigo
Hoje intercede pelos meus netos
que nem suspeitam ser seus sobrinhos

Não teve nome    Não há retrato
E de tais dados não precisamos
Mesmo sem rosto cresceu-lhe o rasto
ao longo destes dezasseis anos

Senta-se à mesa da consoada
numa cadeira que não existe
mas cujas tábuas trazem a marca
das mãos aladas de Jesus Cristo

Agora vejo-a da tua altura
com uma fita sobre o cabelo
Vem ilibar-me de toda a culpa
dentro dos versos em que a descrevo

É tão sensata que até parece
ser mais adulta que nós os dois
Os nossos laços ela os aperta
Mal-entendidos ela os transpõe

É ela sempre quem nos reúne
Mais porventura que estando viva
Que importam chamas luas ou lumes
perante o brilho daquela cinza

Da sua morte nunca falamos
Ei-la a velar-nos do alto céu
E já tem hoje dezasseis anos
a nossa filha que não morreu.


David Mourão Ferreira






quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Ladainha dos Póstumos Natais

 




Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que se veja à mesa o meu lugar vazio 
Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido 
Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que só uma voz me evoque a sós consigo 
Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que não viva já ninguém meu conhecido 

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que nem vivo esteja um verso deste livro 
Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que terei de novo o Nada a sós comigo 

Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que nem o Natal terá qualquer sentido 
Há-de vir um Natal e será o primeiro 
em que o Nada retome a cor do Infinito 



David Mourão-Ferreira
in, 'Cancioneiro de Natal' 






sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Natal

 






Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitros de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e comboios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher!


Ary dos Santos







terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Um natal e um ano-novo inventado


Miró




Linhas para amigos e amigas de todas as partes, 
de um natal e de um ano-novo inventado.

Tenho amigos de todos os colores.
Carrego continentes de todas as árias.
Num quase mínimo acorde musical.
Guia-me um deus que senta comigo. 
Assim, ando quase sempre de bicicleta,
margeada por cercas-vivas de papoilas vermelhas e amarelas.
Tem um pipoqueiro na minha paisagem provinciana 
e uma radiadora sentimental.
Eu nunca deixei de brincar.
Amigo é mantra que me adormece e desperta.
E tem mais.
Sou acometida por indignações, desde antes da fala.
Para a mínima coisa que cerceia a liberdade e semeia o medo, não.
Posso ficar meses lá fora e camuflada atrás da porta.
Sou bem pequena, também.
Avisto multidão no olho de quem se ausenta.
E me retraio no pavor de não mais conseguir ver.
Natal é mirar, quotidianamente, a estrela que se oculta,
em linhas de fuga.
Natal é devir-criança, 
no jogo das mão dadas diante de um mundo que se acaba, todos os dias.
E nasce.
É isso que nos desejo,
força-arte para recriar a estrela que nos guia,
flores vivas para adornar desertos.


Gloria Diogenes