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sábado, 21 de março de 2026

matéria alquímica

 

 




A paisagem move-se no poder 
da observação. As coisas 
parecem recusar os seus nomes, 
não estão contentes. 
Então é necessário recomeçar o mundo. 

Mordo o pão gelado pela estação 
e penso na minha condição imóvel. 
O sol atinge-me como uma pedra 
que subitamente viesse 
esmagar o coração. 

A dor é uma poderosa matéria alquímica. 

A paisagem abre-se mais e mais 
no meu sangue. Por vezes 
paro diante da enorme cascata. 
Haverá um qualquer lugar 
por trás dessas águas pesadas. 
Uma região intocada. 

Estudo a forma como uma palavra germina. 

De novo as coisas na paisagem 
lançam-se a protestar. As palavras 
são como pregos. É preciso arrancá-las 
quando a ferrugem ameaça. 
É preciso espreitar consecutivamente 
o mundo.

Não há ponte entre duas margens,
só quem habita a corrente
pode aspirar a todas as moradas.


Vasco Gato


quarta-feira, 18 de março de 2026

muito pouca

 

Bruno Guerreiro
 






a morte é uma coisa muito pouca

em nada se compara ao crescimento das constelações

a morte não respira nem se expande desde o centro

como fazem as estações desde o coração da terra

 

e assim eu sei que um sorriso é precioso

porque respira e alarga-se dentro dos olhos

e quando chega ao lugar em que a mão se abre

é já uma forma de sossego uma lua coberta de luar

um modo certo de trocar nomes em dias de excepção


Vasco Gato
in,  Um Mover de Mão




segunda-feira, 16 de março de 2026

Fera Oculta

 







 I

Durante essa tua natação de fera oculta
há um papiro que se desdobra na minha boca
e nunca o futuro teve o sabor
de palavras tão sobejamente pronunciadas
família rapaz umbigo
palavras com que se poderia redigir
tão pouca coisa
se não fosse a reinvenção da tua chegada
inscrita no mundo como pedra preciosa
que não é pedra
antes um modo inalienável de reluzir
pelos braços fora

Sei que haverás de te deslocar
timidamente
por estas ruas e prédios que bocejam
dos nomes que lhes deram
e que contigo terão uma razão mais forte
para conspirarem na longa malha
inanimada
em que se decidem os bichos
a que chamamos homens
e que tão pobremente os têm habitado — garanto-te —
à excepção de uma ou outra carne
mais obstinada em escapar
à bala comum

Para tudo isso terás tempo
ainda que rapidamente te dês conta
de que tudo é já tão tarde
eu próprio lamento o tempo que esperei
e que não terei para testemunhar
o incêndio dos teus olhos
o fruto magro que hás-de roer noite dentro
nalgum bairro de pormenor
quando o escasso amor que te deram
for o alimento oportuno
de um amor mais desenvolto
— estranho comércio, sim —
o tempo que não terei para nos lançarmos
os dois ao mar
nalguma noite desesperada
partilhando o sal de tudo largar
esse gosto tão raro
tão sigilosamente próximo

Perdoa a falta de graça
o tom melancólico a guerra
mas é que vivo numa época
que como muitas antes dela
repetiu os subsídios ao nojo
bateu o sangue em castelo
para se levar ao forno da ambição
deu uma sova às pequenas respirações
— sim, intersticiais, subtis, difíceis —
sem as quais um corpo é apenas
um estorvo à sua própria morte
percebes isso?
um estorvo à sua própria morte

Porque essas finuras de que te falo
são sem dúvida a única ousadia
frente à inevitável conflagração do espaço
— perdoa uma vez mais, eu reformulo —
tudo isto que ainda não vês mas verás
tudo isto que ainda não tocas mas tocarás
não durará mais do que a sua própria
experiência
e é essa a única lei
e é esse o único hino
país tão desabitado que festejas
cada desembarque como se te trouxessem
oceano

Se a eternidade fosse um espelho
o que mostraria?
Isto agora porque é aqui
que vive a luz e é esta a paisagem
que nenhum deus pode apagar
senão à custa da sua fome
não receies por isso deus nenhum
nem eternidade nenhuma
a tua carne é o único tesouro
— sei-o enquanto nadas —
digno de ser embrulhado pela treva

II

Sem saber ainda os traços do teu rosto
sei que me reconhecerei em ti
não fisionomicamente
mas no que é comum a todos os corpos
esses tropeços primeiros que a memória não segura
para que nada possa ser comparado
com o júbilo da encarnação
com a extrema vulnerabilidade
capaz de concentrar em si
as apostas circundantes

Gostaria no entanto de te receber
num outro lugar
não neste boi tombado
que dá pelo nome de vinte e um
peso morto arrastado pelos cornos
apenas para que não o devassem
as moscas
— aprenderás a amar também o trabalho alquímico
das moscas
a sua centralidade nas salas
como se pudessem medir todo o espaço
e concluir que é no meio —
um outro lugar mais consentâneo
com o uso dos dentes
com a urgência de cuidar
com as loucas passadas dos cães

Sinto já a força dos teus dedos sucintos
em torno do meu polegar
o calor que esbanjamos em cada gesto
na imensa consanguinidade
das coisas vivas
não há como fugir-lhe
vamos de mãos dadas com o que nos rodeia
em ininterrupta dedicatória
os dados são lançados e apanhados
sem tocar a mesa
e a sorte sai conforme
a sorte que se der
pois de tudo se sabe apenas
a medida da sua entrega

De ti carregarei até ao fim
o anúncio cardíaco em pleno silêncio
a ruína de uma espécie de solidão
que se julgava inamovível
e que a correnteza dos teus tambores
os cascos do teu nome incógnito
esboroaram num segundo
para no seu lugar
instaurarem uma costura
que nos entrança pelos pulmões
o número 3 deitado / como barca frente às vagas
a equipagem para o futuro

Ouço-te nadar sempre nestes meus dias
de náufrago posto em estrela
sobre as águas
e assim estarás tu também
no teu elemento
os dois talvez quietos
e ser ela quem nos encurta aos dois
para o seu ventre alucinado
a mulher que transpôs comigo
o limiar do cinismo
a angústia do salão espelhado
a tua mãe

III

Os momentos em que a claridade
é um capricho dos eléctricos
e os corpos se demoram nas praças
como se de fato houvesse alma
e devêssemos salva-la
da crueldade e do tédio
são esses os momentos que te desejo
nalguma cidade futura
nalguma encruzilhada de gente
mas sobretudo que haja eléctricos ainda
pois é à janela levantada
de um eléctrico
que a realidade é premente
e o vento toda história do mundo.

Vem isto a propósito
do cansaço em que ando
e que nada tem a ver com a matéria
da existência
– da qual és ainda magma –
antes com este logro quotidiano
em que um homem e uma mulher
se esfalfam para manter à tona
a ampulheta instável dos seus nomes
quando esse punhado de areia
subtraído à erosão dos deuses
merecia o sopro pleno
de um dia sem rodeios
um batismo mais vasto e súbito
que não prendesse cada coisa
aos seus próprios pés

Se algo tiveres absolutamente de fazer
que seja a travessia
das cerradas cordilheiras interiores
em que acabarás por tropeçar
não que sejas empurrado para lá
mas porque vivem numa espécie
de maturação do sangue
que mais do que a pretensa inclinação
dos teus músculos
deverás escutar
os animais noturnos as febres
a tua solidão pactuada
com a longínqua saga
dos que se despenham
em busca de um estrondo musical
pequeníssima nota reverberada
entre pálpebras
que só os escafandristas
puxam para a altura do olhar

Ter dos teus lábios essa sílaba nítida
de língua nenhuma
mera articulação de uma água antiga
que me pende sobre a cabeça
essa a espada que me falta
e que me permitirá afugentar
a angústia da pouca vida
que sempre nos pertence
recuando aos vocábulos indefesos
com que a paisagem
nos entra pela garganta
e nos alaga os pulmões

Ninguém sabe ao certo
com que esmero será capaz de arrombar
a frágil película das horas
e pilhar esses instantes de fraternidade
com o espanto de existir
porque é verdadeiramente digno de pasmo
que uma coisa se precipite
contra a lápide da sua própria duração
e se ache na veleidade de dizer
que está aqui
ponto de chegada
na atribulada imaginação do espaço

IV

Que não te enganem
os que compram as horas por atacado
para do teu suor extraírem
a bandeira de um país que nunca será o da atenção
que nunca será o da morada
mas sempre e sempre
o território homeopático da extinção
em que os troféus são
joelhos vergados à condição de cera
para os soalhos do progresso
cujo verdadeiro nome é
despovoamento

Vender-te-ão o conforto
a perseverança o brio
como se tivéssemos por fito
a acumulação do tempo
sem o fruirmos boca a boca
desesperadamente
garantir o futuro dir-te-ão
sem repararem na estupidez do repto
pois que poder temos nós
sobre as válvulas biológicas
do nosso prazo
para nos arrogarmos a garantir
o que quer que seja
quanto mais o sumo fruto da inexistência
esse futuro-cano-enfiado-na-boca
para ser disparado sem falta
de manhã e ao deitar

Em volta sucedem-se clarões
e abismos inóspitos
os elementos torcem-se na pesca à linha
dos lugares fundamentais
há uma convulsão de panoramas
para o brevíssimo turismo
dos olhos
mas o importante é a matemática mesquinha
do sangue que furtamos uns aos outros
a medalha de carne pútrida
com que esperamos aparecer
na fotografia da época

Que se foda a época
digo-te já
que se foda a sépia dos futuros
eu quero aparecer no dia
do teu nascimento
desarmado como uma árvore
sem outra missão que não
amparar-te o susto
e dizer-te baixinho
bem-vindo ao continente dos frágeis
podes parar de nadar.


Vasco Gato




sábado, 8 de janeiro de 2022

DO CAIS

  





Todos os barcos partiram já
deste cais improvisado no abandono
das memórias queimadas, partiram sem velas,
e ninguém reconheceu o rasto incerto
do definitivo longe.

Só agora dou pelo peso do esquecimento.
A espuma embrulha-me com limos, espanto e sal.
E uma inviolável concha flutua na minha existência.

Apago as estrelas com a manga da absoluta solidão,
percebo que nenhuma luz me habita os olhos
- e fico cego diante do espelho.

Ninguém reconheceu que se morria.


Vasco Gato
in,  "IMO"




segunda-feira, 18 de outubro de 2021

suspiro tardio

 

 



se ao menos eu sentisse totalmente
o movimento da terra em volta do sol.
se eu pudesse conhecer o segredo
da germinação sem roubar da terra
a vida enorme, o rebentar largamente.


se me fosse permitida a amplitude,
a alegria, o agora das planícies
em fim de tarde, e eu não mais
precisasse de trabalhar a atenção,
assim descalço sobre a realidade.


promete-me que amanhã virá a lua
e que, na imensidão da noite iluminada,
cantaremos o mar um para o outro.


promete-me que no fim terei existido.


VASCO GATO
in, "Um Mover de Mão"





sábado, 16 de outubro de 2021

lua cheia

 

Malthe Zimakoff





nas palavras lavo os panos tristes
que ao fim de uma estação retêm agora
a sensação dos dias, o lume dos passos.


sinto que é um outro tempo,
um outro jeito de dobrar esquinas,
um outro modo de pisar a terra
- é tudo isto comprimido num pulso,
cingido dentro de veias como pequenas vozes
mudadas em canções ao acordar do ano.


vem, vem comigo, neste magnífico nascimento,
ouvir bater a espuma no cinzento das rochas,
e deixar passar as horas como quem flutua
à tona do tempo, inteiramente mergulhado no mundo
- vem dormir sob o luminoso manto da lua cheia.


hei-de dizer-te um dia
como se escolheu a cor do mar.


Vasco Gato




quinta-feira, 15 de julho de 2021

Muito pouca


Erika Anes




 a morte é uma coisa muito pouca
em nada se compara ao crescimento das constelações
a morte não respira nem se expande desde o centro
como fazem as estações desde o coração da terra
 
e assim eu sei que um sorriso é precioso
porque respira e alarga-se dentro dos olhos
e quando chega ao lugar em que a mão se abre
é já uma forma de sossego uma lua coberta de luar
um modo certo de trocar nomes em dias de excepção
 
 
 Vasco Gato
in  Um Mover de Mão




segunda-feira, 3 de maio de 2021

Poema Insone

 

 





Levanta-se a luz 
surpreendendo as coisas
em sua indolência desirmanada 
o calor principia a operar 
o seu motim 
com todo o vazio do espaço
pela frente

esse ruído de fundo
que passa ao lado da nossa fanfarra inútil
essa fábula da morte e da vida
que teimamos em ignorar
como se bastasse encher os pulmões
e ficar em apneia
para impeder a violência
de terminar

se habitamos
a explosão de algo que ruiu
assim seremos
nenhum escândalo
tomar o pulso ao prazo de tudo
e fruí-lo na imensa probabilidade
de ser essa a via
para o nosso real
duramos para sempre 
na medida da nossa revolta
contra o frio
ecoando no crânio
de um simples pensamento

toda a escuridão
é um braço esticado
para a margem
e a margem
esta carne à revelia
com que povoamos
um mesmo lugar
de falta.


Vasco Gato








sexta-feira, 16 de abril de 2021

FLUVIOGRAFIA

 

 


Não se trata de viagem
com itinerário.
A espuma decifrada oculta ainda
um leito que jamais
renunciará
ao seu insuspeito modo de amar:
sugar lentamente
os dedos incautos
com que atestamos a frieza das águas.
Tudo o que esperámos
terminou cilindrado
sob o sigiloso motim
das horas reais,
e só assim se pôde encarar a paisagem
em que de facto estávamos
e de facto fingíamos.
As viagens só são belas
para quem não as faz.
Nós, munidos de trapos e
especiosas madeiras,
estremunhados de todos os dias,
mergulhámos no tenebroso e desidêntico
vocábulo da vida: isto.


5.


Que nenhum se aflija
da pulsação tremida com que o outro
filigrana o seu coração.
Como guitarra incerta
nos fossos do silêncio,
como voz coroada
no heroísmo de falhar.
Assim, e só assim, encontraremos
a nossa religião:
sem o escândalo de a cultivarmos. 


7.


Perdoas o medo como
quem se abstrai de uma agulha.
O soro flui pelos teus olhos
fechados,
ainda que reluzam,
absorve-se no teu sangue como 
um panfleto siciliano,
não viste,
não ouviste,
sanaste dentro de ti o cancro
que lentamente te soprará - dente de leão -
os cabelos. 


17.


Cambaleando pelo alcatrão que choveu,
o bêbado soletra
ao descaso os lábios confiscados pelo torpor.
As malhas da memória
distendem-se, abrindo túneis
por onde sopra o hálito feroz
do que subsiste adiado
e agora o semáforo parece
intermitir-lhe o aceno
de um quarto mais escuro, um álcool sem amanhã.
Ninguém nunca
adormeceu a sentir os pés. 



Vasco Gato
in, A Fábrica






quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

JANEIRO

 







 É esta a completude dos dias
Quando se reúnem sobre a cidade
Os sossegos da nossa idade já meiga.
São estas as palavras que ficam
Desde o interior do nosso mais antigo nome.
.
É o inverno aberto de janeiro
Com as árvores despidas e o frio azul,
É o ano que começa no tempo que é nada,
Os bolsos que se enchem de mãos,
As casas que parecem mais juntas.
.
Por esta altura estarão a nascer
As horas mais felizes das nossas vidas
- bebemos chá escutando o lume
E amanhã será um dia a menos,
Um outro som acrescentando à voz,
Um abraço fechando-se até ao amor.


VASCO GATO
in, UM MOVER DE MÃO





sexta-feira, 6 de novembro de 2020

O perigo dos espelhos

 






O perigo dos espelhos é exporem-se os ossos. 
A luz reflui através das omoplatas, distribui-se 
pelos flancos, concentra-se nos pés. 
Entramos na obscuridade com o fascínio 
de um dom próprio. 
Não possuímos um deus, mas duas mãos lisas 
e uma boca de vidro - e uma voz 
que vai morrer. 

Fazer estalar a amnésia, pouco a pouco, 
ou de um só golpe. Ninguém acorda 
senão numa sala de pânico. 
Levas o dedo à ferida: uma fechadura. 
E, rodando o dedo, há por baixo 
uma tulipa aberta, 
decifrada. 
Podias amar concretamente esta dolorosa, 
solitária investigação dos interiores, 
as malhas soltas da luz. 

Porque o mundo é um contínuo acto de costura. 
Rompemos com o mistério apenas para 
que se teça um mais alto e apaixonante enigma. 
Tudo o que nos fulmina, cresce devagar. 
Entende-se que seja assim, trôpego, o existir? 
Não, não temos uma súbita iluminação, 
mas recantos e recantos, penumbras 
- e uma voz exausta que vai morrer. 


Vasco Gato
in, Contra Mim Falo





terça-feira, 10 de março de 2020

Um Mover De Mão







se ao menos eu sentisse totalmente 
o movimento da terra em volta do sol. 
se eu pudesse conhecer o segredo 
da germinação sem roubar da terra 
a vida enorme, o rebentar largamente. 

se me fosse permitida a amplitude, 
a alegria, o agora das planícies 
em fim de tarde, e eu não mais 
precisasse de trabalhar a atenção, 
assim descalço sobre a realidade. 

promete-me que amanhã virá a lua 
e que, na imensidão da noite iluminada, 
cantaremos o mar um para o outro. 

promete-me que no fim terei existido.


Vasco Gato
in, Contra Mim Falo





domingo, 11 de agosto de 2019

E O ABISMO POR CIMA





Claro que não é para o nosso
tempo.
.
Nós, os de olhos vorazes,
os tombados do alto de um penhasco
em que vigora a impureza:
o filme exigiria
um vagar de louco.
.
A única via então
— admitamo-lo —
é supor um recorte fulminante
na meticulosa ordem
das coisas
onde seja possível
nadar de costas,
desalmadamente,
.
sem ver para onde.
.
Impuros, sim,
mas inteiros de ignorância e fome,
com um lume intransmissível
numa arcada
do peito.
.
E o abismo por cima,
a estender-nos
as mãos.


VASCO GATO
in,  UM PASSO SOBRE A TERRA 





terça-feira, 24 de abril de 2018

Se existe uma chave

 




Se existe uma chave,
se existe uma chave que não derreta na boca,
se existe uma boca capaz de se abrir para outra boca,
então eu amo, eu beijo, eu deixo de esperar.

Então tu saltas e arrastas contigo toda a terra.
Convidas-me para o teu corpo
no gesto sem mágoa de um ombro que se expõe.
Tens anos de combustão solar,
e moves-te assim:
tocando simultaneamente o resgate e o perigo.

Ah forte como a loucura é o amor,
o amor como a electricidade dos campos.
O amor-pirâmide,
o amor-trevo-de-quatro-folhas,
o amor-moeda-achada-no-chão.
Não digas sorte, diz privilégio.
Não peças perdão, pede chuva.
Não recues, assombra-te.


Vasco Gato






segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Fogo

 





A tua beleza é o cano de uma espingarda encostado à minha têmpora.
Como as tuas mãos folha-de-estanho me cegam, por isso te
toco - procurando saber onde estou.

Porém o teu corpo se dispara, e então eu sou a paisagem posta a um
canto para entrar a música. Sou um braço solto com a pulseira
em rotação, fita amarela nos cabelos da morte, madeira para o 
lume da tua boca. 

Debaixo dos holofotes da loucura, os anjos caem aturdidos. Assim
nós, carnais pelo excesso de luz , veia de pólvora que rebenta na
cabeça da solidão.

Beija-me, beija-me com o fogo das noites em branco.


Vasco Gato






quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Caí no silêncio há vários dias

 



Quero falar-te das horas incandescentes 
que antecedem a noite e não sei como fazê-lo. 

Às vezes penso que vou encontrar-te na rua mais 
improvável, que nos sentamos diante do rio 
e ficamos a trocar pedaços de coisas 
subitamente importantes: a tua solidão, por exemplo. 

Mas depois, virando a esquina, todas as esquinas 
de todos os dias, esperam-me apenas as aves que 
ninguém sabe de onde partiram.


| Vasco Gato |





quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Se existe uma chave

 



Se existe uma chave,
se existe uma chave que não derreta na boca,
se existe uma boca capaz de se abrir para outra boca,
então eu amo, eu beijo, eu deixo de esperar.

Então tu saltas e arrastas contigo toda a terra.
Convidas-me para o teu corpo
no gesto sem mágoa de um ombro que se expõe.
Tens anos de combustão solar,
e moves-te assim:
tocando simultaneamente o resgate e o perigo.

Ah forte como a loucura é o amor,
o amor como a electricidade dos campos.
O amor-pirâmide,
o amor-trevo-de-quatro-folhas,
o amor-moeda-achada-no-chão.
Não digas sorte, diz privilégio.
Não peças perdão, pede chuva.
Não recues, assombra-te.


Vasco Gato