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quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Mãe, eu quero ir-me embora

 





Mãe, eu quero ir-me embora — a vida não é nada 
daquilo que disseste quando os meus seios começaram 
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande, 
murcharam tão depressa as rosas que me deram —
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu 
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer. 
.
Mãe, eu quero ir-me embora — os meus sonhos estão 
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos, 
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais 
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos 
os sonhos que tiveste para mim — tenho a casa vazia, 
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei 
e o que amei de verdade nunca acordou comigo. 
.
Mãe, eu quero ir-me embora — nenhum sorriso abre 
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca. 
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez 
não chames pelo meu nome, não me peças que fique — 
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me 
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue 
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito 
como uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer. 
.
Mãe, eu vou-me embora — esperei a vida inteira por quem 
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta 
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem. 
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas 
essa voz, tu sabes, não é a tua — a última canção sobre 
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias 
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão 
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam 
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.



MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA
in, O CANTO DO VENTO NOS CIPRESTES





sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Chegam cedo demais

 




Chegam cedo demais, quando ainda não podem escolher 
nem decidir. Vêm carregados de espectros, de memórias
e de feridas que não souberam sarar; mas trazem a confiança
da cura nas palavras. Convencem-se de que amam outra vez

quando nos tocam os pequenos lugares, esquecendo-se do rumo
incerto dos seus passos nas estradas tortuosas que os 
trouxeram. Abafam-se num cobertor de mentiras sem saber e 
falam de injustiça quando tentamos chamá-los à verdade. 

Dormem de vez em quando nas nossas camas e protegemo-los 
da dor como aos filhos que não iremos ter nunca
porque não nos resignamos a perdê-los. E, um dia, partem, vão 

culpados, não chegam a explicar o que os arrasta. Escrevem
cartas mais tarde - uma ou duas para se aliviarem dessa espada.
E nós ficamos, eternamente, sem vergonha, à espera que regressem. 



Maria do Rosário Pedreira
in, Poesia Reunida




quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Foi sempre tão incerto o caminho até ti

 




Foi sempre tão incerto o caminho até ti:
tantos meses de pedras e de espinhos, de
maus presságios, de ramos que rasgavam a
carne como forquilhas, de vozes que me
diziam que não valia a pena continuar, que
o teu olhar era já uma mentira; e o meu

coração sempre tão surdo para tudo isso,
sempre a gritar outra coisa mais alto para
que as pernas não pudessem recordar as
suas feridas, para que os pés ignorassem
as penas da viagem e avançassem todos
os dias mais um pouco, esse pouco que
era tudo para te alcançar. Foi por isso que,

ao contrário de ti, não quis dormir nessa
noite: os teus beijos ainda estavam todos
na minha boca e o desenho das tuas mãos
na minha pele. Eu sabia que adormecer
era deixar de sentir, e não queria perder os
teus gestos no meu corpo um segundo que
fosse. Então sentei-me na cama a ver-te
dormir, e sorri como nunca sorrira antes
dessa noite, sorri tanto. Mas tu falaste de
repente do meio do teu sono, estendeste o
braço na minha direcção e chamaste baixinho.
Chamaste duas vezes. Ou três. E sempre tão
baixinho. Mas nenhuma foi pelo meu nome.



Maria do Rosário Pedreira





quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Temporal

 




Estavas sentado e havia uma paisagem agreste
nos teus olhos: as nuvens a prometerem chuva,
os espinheiros agitados com a erosão das dunas,
um mar picado, capaz de todos os naufrágios.

O teu silêncio fez estremecer subitamente a casa —
era a força do vento contra o corpo do navio; uma
miragem fatal da tempestade; e o medo da tragédia;
a ameaça surda de um trovão que resgatasse a ira
dos deuses com o mundo. Quando te levantaste,

disseste qualquer coisa muito breve que me feriu
de morte como a lâmina de um punhal acabado
de comprar. (Se trovejasse, podia ser um raio
a fracturar a falésia no espelho dos meus olhos.)
Hoje, porém, já não sei que palavras foram essas —
de um temporal assim recordam-se sobretudo os despojos
que as ondas espalham de madrugada pelas praias.



Maria do Rosário Pedreira
in, O Canto do Vento nos Ciprestes




segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Guarda-o

 




Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi
talvez para sempre ― a casa e o cheiro dos livros,
a suave respiração do tempo, palavras, a verdade,
camas desfeitas algures pela manhã,
o abrigo de um corpo agitado no seu sono. Guarda-o

serenamente e sem pressa, como eu nunca soube.
E protege-o de todos os invernos ― dos caminhos
de lama e das vozes mais frias. Afaga-lhe
as feridas devagar, com as mãos e os lábios,
para que jamais sangrem. E ouve, de noite,
a sua respiração cálida e ofegante
no compasso dos sonhos, que é onde esconde
os mais escondidos medos e anseios.

Não deixes nunca que se ouça sozinho no que diz
antes de adormecer. E depois aguarda que,
na escuridão do quarto, seja ele a abraçar-te,
ainda que não te tenha revelado uma só vez o que queria.

Acorda mais cedo e demora-te a olhá-lo à luz azul
que os dias trazem à casa quando são tranquilos.
E nada lhe peças de manhã ― as manhãs pertencem-lhe;
deixa-o a regar os vasos na varanda e sai,
atravessa a rua enquanto ainda houver sol. E assim
haverá sempre sol e para sempre o terás,
como para sempre o terei perdido eu, subitamente,
por assim não ter feito.



Maria do Rosário Pedreira





segunda-feira, 27 de novembro de 2017

De que serviu

 




De que serviu ir correr mundo,
arrastar, de cidade em cidade, um amor
que pesava mais do que mil malas; mostrar
a mil homens o teu nome escrito em mil
alfabetos e uma estampa do teu rosto
que eu julgava feliz? De que me serviu

recusar esses mil homens, e os outros mil
que fizeram de tudo para eu parar, mil
vezes me penteando as pregas do vestido
cansado de viagens, ou dizendo o seu nome
tão bonito em mil línguas que eu nunca
entenderia? Porque era apenas atrás de ti

que eu corria o mundo, era com a tua voz
nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo
do amor de cidade em cidade, o teu nome
nos meus lábios de cidade em cidade, o teu
rosto nos meus olhos durante toda a viagem,

mas tu partias sempre na véspera de eu chegar.



Maria do Rosário Pedreira
in, Nenhum Nome Depois




sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Tenho um decote pousado no vestido e não sei se voltas

 




Tenho um decote pousado no vestido e não sei se voltas,
mas as palavras estão prontas sobre os lábios como
segredos imperfeitos ou gomos de água guardados para o
verão. E, se de noite as repito em surdina, no silêncio
do quarto, antes de adormecer, é como se de repente
as aves tivessem chegado já ao sul e tu voltasses
em busca desses antigos recados levados pelo tempo:

Vamos para casa? O sol adormece nos telhados ao domingo
e há um intenso cheiro a linho derramado nas camas.
Podemos virar os sonhos do avesso, dormir dentro da tarde
e deixar que o tempo se ocupe dos gestos mais pequenos.

Vamos para casa. Deixei um livro partido ao meio no chão
do quarto, estão sozinhos na caixa os retratos antigos
do avô, havia as tuas mãos apertadas com força, aquela
música que costumávamos ouvir no inverno. E eu quero rever
as nuvens recortadas nas janelas vermelhas do crepúsculo;
e quero ir outra vez para casa. Como das outras vezes.

Assim me faço ao sono, noite após noite, desfiando a lenta
meada dos dias para descontar a espera. E, quando as crias
afastarem finalmente as asas da quilha no seu primeiro voo,
por certo estarei ainda aqui, mas poderei dizer que, pelo
menos uma ou outra vez, já mandei os recados, já da minha
boca ouvi estas palavras, voltes ou não voltes.


Maria do Rosário Pedreira





quarta-feira, 3 de maio de 2017

As palavras começam a ficar velhas

 




As palavras começam a ficar velhas: têm
dores nas articulações e rangem, de vez
em quando, sem razão; reclamam óleos
e resinas, tempo e açúcares mais lentos.

Mas também eu estou velha demais para
oficinas, tão cansada de livros e papéis,
morta por viver outras coisas – por amor,

talvez espreitasse de novo nas mangas do
mundo e escrevesse uma fiada de búzios
no pulso da areia. Mas quantos dos teus
beijos perderia? Perdoem-me os que

ainda esperam por mim. Não sei se volto.


Maria do Rosário Pedreira





domingo, 30 de abril de 2017

Mãe, Eu Quero Ir-me Embora

 



Mãe, eu quero ir-me embora - a vida não é nada 
daquilo que disseste quando os meus seios começaram 
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande, 
murcharam tão depressa as rosas que me deram – 
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu 
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer. 

Mãe, eu quero ir-me embora - os meus sonhos estão 
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos, 
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais 
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos 
os sonhos que tiveste para mim - tenho a casa vazia, 
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei 
e o que amei de verdade nunca acordou comigo. 

Mãe, eu quero ir-me embora - nenhum sorriso abre 
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca. 
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez 
não chames pelo meu nome, não me peças que fique – 
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-m 
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue 
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como 
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer. 

Mãe, eu vou-me embora - esperei a vida inteira por quem 
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta 
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem. 
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas 
essa voz, tu sabes, não é a tua - a última canção sobre 
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias 
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão 
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam 
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar. 



Maria do Rosário Pedreira





sábado, 15 de abril de 2017

Vieste como um Barco Carregado de Vento

 

Marcel Van Oosten





Vieste como um barco carregado de vento, abrindo 
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa 
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste 
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro 

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste, 
se partiste, 
que dentro de mim se acanham as certezas e 
tu vais sempre ardendo, embora como um lume 
de cera, lento e brando, que já não derrama calor. 

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar 
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes; 
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha: 
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar, 
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam 
no cais como se transportassem no corpo o vaivém 
dos barcos. Dizem-me os seus passos 

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam 
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei 
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde 
para quase tudo. Por isso, vou para casa 

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite. 


Maria do Rosário Pedreira






quarta-feira, 8 de março de 2017

Nada entre nós tem o nome da pressa

 



Nada entre nós tem o nome da pressa.
Conhecemo-nos assim, devagar, o cuidado
traçou os seus próprios labirintos. Sobre a pele
é sempre a primeira vez que os gestos acontecem. Porém,

se se abrir uma porta para o verão, vemos as mesmas coisas –
o que fica para além da planície e da falésia; a ilha,
um rebanho, um barco à espera de partir, uma palavra
que nunca escreveremos. Entre nós

o tempo desenha-se assim, devagar.
Daríamos sempre pelo mais pequeno engano.



Maria do Rosário Pedreira






segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Deixei cair o tempo sobre o teu nome

 




Deixei cair o tempo sobre o teu nome,
como se deita o mármore sobre a terra e
a água se derrama sobre as brasas. Vesti-me

de luto como as mulheres que derrubam
os berços vazios de tanto os olharem; e vi
o sangue calar-se finalmente sobre a ferida,
como a cera que endurece na palma da mão

antes de perder-se nos dedos em poeira. Se
te esqueci, foi porque quis alguém que me
chamasse, um corpo que fosse outro no meu
corpo,uma voz oferecida pela manhã. Mas
nada, mas ninguém. Se o tempo não se

tivesse abatido sobre o teu nome, podia ao
menos agora recordar-te – pois não há
laje sem corpo nem cinza que não tenha
ardido. E a casa está hoje mais fria do que

nunca: deixei passar o tempo sobre o teu
nome e não há lareira, não há lar, não há
filhos que se pudessem perder de mim, nem
velas para encher de memória este silêncio.


Maria do Rosário Pedreira






quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Lembrava-se dele...

 



Lembrava-se dele e, por amor, ainda que pensasse
em serpente, diria apenas arabesco; e esconderia
na saia a mordedura quente, a ferida, a marca
de todos os enganos, faria quase tudo

por amor: daria o sono e o sangue, a casa e a alegria,
e guardaria calados os fantasmas do medo, que são
os donos das maiores verdades. Já de outra vez mentira

e por amor haveria de sentar-se à mesa dele
e negar que o amava, porque amá-lo era um engano
ainda maior do que mentir-lhe. E, por amor, punha-se

a desenhar o tempo como uma linha tonta, sempre
a caira da folha, a prolongar o desencontro.
E fazia estrelas, ainda que pensasse em cruzes;
arabescos, ainda que só se lembrasse de serpentes.


Maria do Rosário Pedreira






sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

De que me serviu ir correr mundo

 




De que me serviu ir correr mundo,
arrastar, de cidade em cidade, um amor
que pesava mais do que mil malas; mostrar
a mil homens o teu nome escrito em mil
alfabetos e uma estampa do teu rosto
que eu julgava feliz? De que me serviu

recusar esses mil homens, e os outros mil
que fizeram de tudo para eu parar, mil 
vezes me penteando as pregas do vestido
cansado de viagens, ou dizendo o seu nome
tão bonito em mil línguas que eu nunca
entenderia? Porque era apenas atrás de ti

que eu corri o mundo, era com a tua voz
nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo
do amor de cidade em cidade, o teu nome
nos meus lábios de cidade em cidade, o teu
rosto nos meus olhos durante toda a viagem,

mas tu partias sempre na véspera de eu chegar.


Maria do Rosário Pedreira






segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Toca-me onde me dói e verás

 



Toca-me onde me dói e verás
uma flor a abrir-se lentamente
sobre a pele, a maravilha nunca
adivinhada de um mistério. Esta

é a tua vez de o desvendares -
paixão é uma palavra demasiado
antiga no meu corpo, já não sei a
última vez, a única vez. Toca-me

por isso devagar, não me lembro
da primavera que fez nascer a
doença sobre a ferida, não sinto
o recorte da cicatriz que o tempo

pousou nela. Agora chama-me ao
teu peito com as mãos, tal como a
chuva chama pelos narcisos sem

cessar, ano após ano; diz o meu
nome com os dedos a serem rios
que latejam no coração adormecido

de uma aldeia. Não me adivinhes -
lá, onde me doer, vou recordar-me.


Maria do Rosário Pedreira






quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Foi sempre tão incerto o caminho até ti

 



Foi sempre tão incerto o caminho até ti:
tantos meses de pedras e de espinhos, de
maus pressá-gios, de ramos que rasgavam a
carne como forquilhas, de vozes que me
diziam que não valia a pena continuar, que
o teu olhar era já uma mentira; e o meu

coração sempre tão surdo para tudo isso,
sempre a gritar outra coisa mais alto para
que as pernas não pudessem recordar as
suas feridas, para que os pés ignorassem
as penas da viagem e avançassem todos
os dias mais um pouco, esse pouco que
era tudo para te alcançar. Foi por isso que,

ao contrário de ti, não quis dormir nessa
noite: os teus beijos ainda estavam todos
na minha boca e o desenho das tuas mãos
na minha pele. Eu sabia que adormecer

era deixar de sentir, e não queria perder os
teus gestos no meu corpo um segundo que
fosse. Então sentei-me na cama a ver-te
dormir, e sorri como nunca sorrira antes
dessa noite, sorri tanto. Mas tu falaste de

repente do meio do teu sono, estendeste o
braço na minha direcção e chamaste baixinho.
Chamaste duas vezes. Ou três. E sempre tão
baixinho. Mas nenhuma foi pelo meu nome.


Maria do Rosário Pedreira



terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Lê , são estes os nomes das coisas que deixaste

 



Lê , são estes os nomes das coisas que
deixaste – eu, livros, o teu perfume
espalhado pelo quarto; sonhos pela
metade e dor em dobro, beijos por
todo o corpo como cortes profundos
que nunca vão sarar; e livros, saudade,
a chave de uma casa que nunca foi a
nossa, um roupão de flanela azul que
tenho vestido enquanto faço esta lista:

livros, risos que não consigo arrumar,
e raiva – um vaso de orquídeas que
amavas tanto sem eu saber porquê e
que talvez por isso não voltei a regar; e
livros, a cama desfeita por tantos dias,

uma carta sobre a tua almofada e tanto
desgosto, tanta solidão; e numa gaveta
dois bilhetes para um filme de amor que
não viste comigo, e mais livros, e também
uma camisa desbotada com que durmo
de noite para estar mais perto de ti; e, por

todo o lado, livros, tantos livros, tantas
palavras que nunca me disseste antes da
carta que escreveste nessa manhã, e eu,

eu que ainda acredito que vais voltar, que
voltas, mesmo que seja só pelos teus livros.


Maria do Rosário Pedreira







sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Eu não me importo com nada do que me digas esta noite






Hoje podes deitar-te na minha cama
e contar-me mentiras - dizer, não sei,
que o amor tem a forma da minha mão
ou que os meus beijos são perguntas que
não queres que ninguém te faça senão eu; 
que as flores bordadas na dobra do meu lençol 
são de jardins perfeitos que
antes só existiam nos teus sonhos; 
e que na curva dos meus braços 
as horas são mais pequenas 
do que uma voz que no escuro se apagasse. 
Hoje podes rasgar cidades no mapa do meu corpo e
inventar que descobriste um continente
novo - uma pátria solar onde gostavas
de morrer e ter nascido. 
Eu não me importo com nada do que me digas 
esta noite: amo-te, e amar-te é reconhecer 
o pólen excessivo das corolas, 
o seu vermelho impossível. 
Mas amanhã, antes de partires,
não digas nada, 
não me beijes nas costas do meu sono. 
Leva-me contigo para sempre
ou deixa-me dormir - eu não quero ser
apenas um nome deitado entre outros nomes.


Maria do Rosário Pedreira





domingo, 10 de maio de 2015

Eu sabia que adormecer era deixar de sentir






Foi sempre tão incerto o caminho até ti:
tantos meses de pedras e de espinhos, de
maus presságios, de ramos que rasgavam a
carne como forquilhas, de vozes que me
diziam que não valia a pena continuar, que
o teu olhar era já uma mentira; e o meu

coração sempre tão surdo para tudo isso,
sempre a gritar outra coisa mais alto para
que as pernas não pudessem recordar as
suas feridas, para que os pés ignorassem
as penas da viagem e avançassem todos
os dias mais um pouco, esse pouco que
era tudo para te alcançar. Foi por isso que,

ao contrário de ti, não quis dormir nessa
noite: os teus beijos ainda estavam todos
na minha boca e o desenho das tuas mãos
na minha pele. Eu sabia que adormecer

era deixar de sentir, e não queria perder os
teus gestos no meu corpo um segundo que
fosse. Então sentei-me na cama a ver-te
dormir, e sorri como nunca sorrira antes
dessa noite, sorri tanto. Mas tu falaste de
repente do meio do teu sono, estendeste o
braço na minha direcção e chamaste baixinho.
Chamaste duas vezes. Ou três. E sempre tão
baixinho. Mas nenhuma foi pelo meu nome.


Maria do Rosário Pedreira




sábado, 15 de novembro de 2014

Vamos ser velhos...






Vamos ser velhos ao sol nos degraus
da casa; abrir a porta empenada de
tantos Invernos e ver o frio soçobrar
no carvão das ruas; espreitar a horta
que o vizinho anda a tricotar e o vento
lhe desmancha de pirraça; deixar a

chaleira negra em redor do fogão para
um chá que nunca sabemos quando
será – porque a vida dos velhos é curta,
mas imensa; dizer as mesmas coisas
muitas vezes – por sermos velhos e por
serem verdade. Eu não quero ser velha

sozinha, mesmo ao sol, nem quero que
sejas velho com mais ninguém. Vamos
ser velhos juntos nos degraus da casa –

se a chaleira apitar, sossega, vou lá eu; não
atravesses a rua por uma sombra amiga,
trago-te o chá e um chapéu quando voltar.


Maria do Rosário Pedreira