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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Natal – 1950

 





Nenhum Natal será possível: sei
que tudo enfim suspenso aguarda
não já Natais sempre de guerra mas
a morte iluminada como aurora
entre esta gente que se junta rindo
e as luzes interiores, muitas cabeças juntas;
entre as lágrimas de ternura e os murmúrios de esperança,
entre as vozes e os silêncios, as pedras e as árvores,
entre muralhas de janelas sob a chuva,
entre agonias dos que lutam porque são mandados
e a cobarde angústia dos que apenas mandam,
no meio da vida, círculo de fogo,
à luz de que se vê uma calçada suja
de restos de comida e de papéis rasgados
– se sei, embora saiba, quanto soube:
ah canto do meu canto, olhar do meu olhar,
nenhum Natal, bem sei, mas outra gente,
e tanta gente, e mesmo que um só fosse,
já louco, envelhecido, apenas hábito,
que poderei fazer, senão humildemente
cantar?


Jorge de Sena
in, Natais in Pedra Filosofal



quinta-feira, 31 de outubro de 2024

NÃO SUBSCREVO

 





 Não, não, não subscrevo, não assino 
que a pouco e pouco tudo volte ao de antes, 
como se golpes, contra-golpes, intentonas 
(ou inventonas - armadilhas postas 
da esquerda prá direita ou desta para aquela) 
não fossem mais que preparar caminho 
a parlamentos e governos que 
irão secretamente pôr ramos de cravos 
e não de rosas fatimosas mas de cravos 
na tumba do profeta em Santa Comba, 
enquanto pra salvar-se a inconomia 
os empresários (ai que lindo termo, 
com tudo o que de teatro nele soa) 
irão voltar testas de ferro do 
capitalismo que se usou de Portugal 
para mão-de-obra barata dentro ou fora. 
Tiveram todos culpa no chegar-se a isto: 
infantilmente doentes de esquerdismo 
e como sempre lendo nas cartilhas 
que escritas fedem doutras realidades, 
incompetentes competiram em 
forçar revoluções, tomar poderes e tudo 
numa ânsia de cadeiras, microfones, 
a terra do vizinho, a casa dos ausentes, 
e em moer do povo a paciência e os olhos 
num exibir-se de redondas mesas 
em televisas barbas de faláeia imensa. 
E todos eram povo e em nome del' falavam, 
ou escreviam intragáveis prosas 
em que o calão barato e as ideias caras 
se misturavam sem clareza alguma 
(no fim das contas estilo Estado Novo 
apenas traduzido num calão de insulto 
ao gosto e à inteligência dos ouvintes-povo). 
Prendeu-se gente a todos os pretextos, 
conforme o vento, a raiva ou a denúncia, 
ou simplesmente (ó manes de outro tempo) 
o abocanhar patriótico dos tachos. 
Paralisou-se a vida do pais no engano 
de que os trabalhadores não devem trabalhar 
senão em agitar-se em demandar salários 
a que tinham direito mas sem que 
houvesse produção com que pagá-los. 
Até que um dia, à beira de uma guerra 
civil (palavra cómica pois que 
do lume os militares seriam quem tirava 
para os civis a castanhinha assada), 
tudo sumiu num aborto caricato 
em que quase sem sangue ou risco de infecção 
parteiras clandestinas apararam 
no balde da cozinha um feto inexistente: 
traindo-se uns aos outros ninguém tinha 
(ó machos da porrada e do cacete) 
realmente posto o membro na barriga 
da pátria em perna aberta e lá deixado 
semente que pegasse (o tempo todo 
haviam-se exibido eufóricos de nus, 
às Áfricas e às Europas de Oeste e Leste). 
A isto se chegou. Foi criminoso? 
Nem sequer isso, ou mais do que um guião 
do filme que as direitas desejavam, 
em que como num jogo de xadrez a esquerda 
iria dando passo a passo as peças todas. 
É tarde e não adianta que se diga ainda 
(como antes já se disse) que o povo resistiu 
a ser iluminado, esclarecido, e feito 
a enfiar contente a roupa já talhada. 
Se muita gente reagiu violenta 
(com as direitas assoprando as brasas) 
é porque as lutas intestinas (termo 
extremamente adequado ao caso) 
dos esquerdismos competindo o permitiram. 
Também não vale a pena que se lave 
a roupa suja em público: já houve 
suficiente lavar que todavia 
(curioso ponto) nunca mostrou inteira 
quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano 
usada foi por tanto entusiasta, 
devotamente adepto de continuar ao sol 
(há conversões honestas, sim, ai quantos santos 
não foram antes grandes pecadores). 
E que fazer agora? Choro e lágrimas? 
Meter avestruzmente a cabeça na areia? 
Pactuar na supremíssima conversa 
de conciliar a casa lusitana, 
com todos aos beijinhos e aos abraços? 
Ir ao jantar de gala em que o Caetano, 
o Spínola, o Vasco, o OteIo e os outros, 
hão-de tocar seus copos de champanhe? 
Ir já fazendo a mala para exílios? 
Ou preparar uma bagagem mínima 
para voltar a ser-se clandestino usando 
a técnica do mártir (tão trágica porque 
permite a demissão de agir-se à luz do mundo, 
e de intervir directamente em tudo)? 
Mas como é clandestina tanta gente 
que toda a gente sabe quem já seja? 
Só há uma saída: a confissão 
(honesta ou calculada) de que erraram todos, 
e o esforço de mostrar ao povo (que 
mais assustaram que educaram sempre) 
quão tudo perde se vos perde a vós. 
Revolução havia que fazer. 
Conquistas há que não pode deixar-se 
que se dissolvam no ar tecnocrata 
do oportunismo à espreita de eleições. 
Pode bem ser que a esquerda ainda as ganhe, 
ou pode ser que as perca. Em qualquer caso, 
que ao povo seja dito de uma vez 
como nas suas mãos o seu destino está 
e não no das sereias bem cantantes 
(desde a mais alta antiguidade é conhecido 
que essas senhoras são reaccionárias, 
com profissão de atrair ao naufrágio 
o navegante intrépido). Que a esquerda 
nem grite, que está rouca, nem invente 
as serenatas para que não tem jeito. 
Mas firme avance, e reate os laços rotos 
entre ela mesma e o povo (que não é 
aqueles milhares de fiéis que se transportam 
de camioneta de um lugar pró outro). 
Democracia é isso: uma arte do diálogo 
mesmo entre surdos. Socialismo à força 
em que a democracia se realiza. 
Há muito socialismo: a gente sabe, 
e quem mais goste de uns que dos outros. 
É tarde já para tratar do caso: agora 
importa uma só coisa - defender 
uma revolução que ainda não houve, 
como as conquistas que chegou a haver 
(mas ajustando-as francamente à lei 
de uma equidade justa, rechaçando 
o quanto de loucuras se incitaram 
em nome de um poder que ninguém tinha). 
E vamos ao que importa: refazer 
um Portugal possível em que o povo 
realmente mande sem que o só manejem, 
e sem que a escravidão volte à socapa 
entre a delícia de pagar uma hipoteca 
da casa nunca nossa e o prazer 
de ter um frigorifico e automóveis dois. 
Ah, povo, povo, quanto te enganaram 
sonhando os sonhos que desaprenderas! 
E quanto te assustaram uns e outros, 
com esses sonhos e com o medo deles! 
E vós, políticos de ouro de lei ou borra, 
guardai no bolso imagens de outras Franças, 
ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas, 
ou de Estados Unidos que não crêem 
que latinada hispânica mereça 
mais que caudilhos com contas na Suíça. 
Tomai nas vossas mãos o Portugal que tendes 
tão dividido entre si mesmo. Adiante. 
Com tacto e com fineza. E com esperança. 
E com um perdão que há que pedir ao povo. 
E vós, ó militares, para o quartel 
(sem que, no entanto, vos deixeis purgar 
ao ponto de não serdes o que deveis ser: 
garantes de uma ordem democrática 
em que a direita não consiga nunca 
ditar uma ordem sem democracia). 
E tu, canção-mensagem, vai e diz 
o que disseste a quem quiser ouvir-te. 
E se os puristas da poesia te acusarem 
de seres discursiva e não galante 
em graças de invenção e de linguagem, 
manda-os àquela parte. Não é tempo 
para tratar de poéticas agora.


Jorge de Sena




domingo, 25 de junho de 2023

Noutros Lugares

 

Vika Lowa






Não é que ser possível ser feliz acabe,
quando se aprende a sê-lo com bem pouco.
Ou que não mais saibamos repetir o gesto
que mais prazer nos dá, ou que daria
a outrem um prazer irresistível. Não:
o tempo nos afina e nos apura:
faríamos o gesto com infinda ciência.
Não é que passem as pessoas, quando
o nosso pouco é feito da passagem delas.
Nem é também que ao jovem seja dado
o que aos mais velhos se recusa. Não.

É que os lugares acabam. Ou ainda antes
de serem destruídos, as pessoas somem,
e não mais voltam onde parecia
que elas ou outras voltariam para sempre
por toda a eternidade. Mas não voltam,
desviadas por razões ou por razão nenhuma.

É que as maneiras, modos, circunstâncias
mudam. Desertas ficam praias que brilhavam
não de água ou sol mas solta juventude.
As ruas rasgam casas onde leitos
já frios e lavados não rangiam mais.
E portas encostadas só se abrem sobre
a treva que nenhuma sombra aquece.

O modo como tínhamos ou víamos,
e que com tempo o gesto sempre o mesmo
faríamos com ciência refinada e sábia
(o mesmo gesto que seria útil,
se o modo e a circunstância persistissem),
tornou-se sem sentido e sem lugar.

Os outros passam, tocam-se, separam-se,
exactamente como dantes. Mas
aonde e como? Aonde e como? Quando?
Em que praias, que ruas, casas, e quais leitos,
a que horas do dia ou da noite, não sei.
Apenas sei que as circunstâncias mudam
e que os lugares acabam. E que a gente
não volta ou não repete, e sem razão, o que
só por acaso era a razão dos outros.

Se do que vi ou tive uma saudade sinto,
feita de raiva e do vazio gélido,
não é saudade, não. Mas muito apenas
o horror de não saber como se sabe agora
o mesmo que aprendi. E a solidão
de tudo ser igual doutra maneira.
E o medo de que a vida seja isto:
um hábito quebrado que se não reata,
senão noutros lugares que não conheço.


Jorge de Sena



terça-feira, 20 de abril de 2021

Súplica Final

 

 


Senhor: não peço mais que silêncio, 
o silêncio das noites de planície como enevoadas águas, 
o silêncio dos montes quando a tarde acabou e as pedras 
se afiam na friagem que é azul-celeste, 
o silêncio do sol encarquilhando as folhas, 
e o do vento na areia depois de ter passado, 
o silêncio das ondas ao longe espumejando tranquilas, 
o silêncio das mãos e o dos olhos, 
e o das aves negras que pairam nas alturas 
de um céu silencioso e límpido. Não peço 
mais que silêncio. O silêncio das ideias que deslizam no 
teto escorregadio da memória silente. 
E o silêncio dos sonhos coloridos, e o dos outros 
a preto e branco imagens desejadas 
que não pensei que desejava e esqueço 
ao querer lembrá-las. E o silêncio 
dos sexos que se possuem sem uma palavra. 
E o do amor também, tão silencioso esse, 
que não sei quem amo. 

Não peço mais. Afasta 
de mim o estrondo: não o das cidades, 
ou dos homens, das águas, do que estala 
na memória ou penumbra das salas desertas. 
Afasta de mim o estrondo com que a vida 
se acabará contigo, num rasgar de súbito 
em que ficarei inerte e silencioso. O estrondo 
em que não ouvirei mais nada. O estrondo 
em que não mexerei um dedo. O estrondo 
em que serei desfeito. O estrondo 
em que de olhos abertos 
alguém mos fechará. 

Senhor: não peço mais do que o silêncio do mundo, 
o silêncio dos astros, o silêncio das coisas 
que outros homens fizeram, e o das coisas 
que eu próprio fiz. E o teu silêncio 
de senhor que foi. Não peço mais. 
Não é nada o que peço. Dá-me 
o silêncio. Dá-me o que não fui: 
silêncio (porque calei tanto): 
o que não sou (pois que calo tanto): 
o que hei de ser (já que falar não adianta): 
silêncio. 

Senhor: não peço mais.


Jorge de Sena 
in, peregrinato ad loca infecta






sexta-feira, 9 de outubro de 2020

A Piaf

 





Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do «ça ira»,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.

Quem tinha assim a morte na sua voz
e na vida.
Quem como ela perdeu
toda a alegria e toda a esperança
é que pode cantar com esta ciência
o desespero de ser-se um ser humano
entre os humanos que o são tão pouco.



Jorge de Sena






quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Tu És A Terra





Tu és a terra em que pouso.
Macia, suave, terna, e dura o quanto baste
a que teus braços como tua pernas
tenham de amor a força que me abraça.

És também pedra qual a terra às vezes
contra que nas arestas me lacero e firo,
mas de musgo coberta refrescando
as próprias chagas de existir contigo.

E sombra de árvores, e flores e frutos,
rendidos a meu gesto e meu sabor.
E uma água cristalina e murmurante
que me segreda só de amor no mundo.

És a terra em que pouso. Não paisagem,
não Madre Terra nem raptada ninfa
de bosques e montanhas. Terra humana
em que me pouso inteiro e para sempre.



Jorge de Sena



sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Ascensão





Nunca estive tão perto da verdade.
Sinto-a contra mim, Sei que vou com ela.

Tantas vezes falei negando sempre,
esgotando todas as negações possíveis,
conduzindo-as ao cerco da verdade,
que hoje, côncavo tão côncavo,

sou inteiramente liso interiormente,
sou um aquário dos mares,
sou apenas um balão cheio dessa verdade do mundo.

Sei que vou com ela,
sinto-a contra mim, –
nunca estive tão perto da verdade.


Jorge de Sena
in, ‘Perseguição’





sexta-feira, 31 de julho de 2020

A Cidade Feliz





Não sei porque não falam disto.
Será porque falar ameaça no hálito tão ténue
a flor lindíssima que o menor sopro mata?
Falando todavia, tudo se suspende;
E que não existe para sempre mesmo depois das palavras?

Cidade ensolarada, fumegante a meus pés:
telhados, vozes, pombas, trepadeiras…
De longe se não vê que toda a gente luta,
se devora e desvairadamente contempla
que a sua flor, lindíssima, resista.

Como, poesia, quando suspenso o tempo,
se cadencia em passos de palavras,
Quando a memória, a angústia, a esperança, a própria vida,
se ordenam em cortejo e vêm passando em frente
do olhar que as bebe, de um tremor, de um pranto,
como não dizes também da flor que defendemos?
Será que não é difícil, que não é esquiva,
uma flor que um gesto, o mesmo amor destrói?

Ah fidelidade, coisa humilde, coisa que não basta,
coisa que não vive, como te chamo flor?
O Sol e o ar sobre a cidade passam.
Do alto as pombas na cidade pousam.
Como te chamo flor?
Como até nisto eu posso atraiçoar-te?


Jorge de Sena





terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Metamorfose


Laura Zalenga



Ao pé dos cardos sobre a areia fina 
que o vento a pouco e pouco amontoara 
contra o seu corpo (mal se distinguia 
tal como as plantas entre a areia arfando) 
um deus dormia. Há quanto tempo? Há quanto? 
E um deus ou deusa? Quantos sóis e chuvas, 
quantos luares nas águas ou nas nuvens, 
tisnado haviam essa pele tão lisa 
em que a penugem tinha areia esparsa? 
Negros cabelos se espalhavam onde 
nos braços recruzados se escondia o rosto. 
E os olhos? Abertos ou fechados? Verdes ou castanhos 
no breve espaço em que o seu bafo ardia? 
Mas respirava? Ou só uma luz difusa 
se demorava no seu dorso ondeante 
que de tão nu e antigo se vestia 
da confiada ausência em que dormia? 
Mas dormiria? As pernas estendidas, 
com um pé sobre outro pé e os calcanhares 
um pouco soerguidos na lembrança de asas; 
as nádegas suaves, as espáduas curvas 
e na tão leve sombra das axilas 
adivinhados pêlos... Deus ou deusa? 
Há quanto tempo ali dormia? Há quanto? 
Ou não dormia? Ou não estaria ali? 
Ao pé dos cardos, junto à solidão 
que quase lhe tocava do areal imenso, 
do imenso mundo, e as águas sussurrando - 
-ou não estaria ali?... E um deus ou deusa? 
Imagem, só lembrança, aspiração? 
De perto ou longe não se distinguia.



Jorge de Sena




segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Elogio da vida monástica






Outrora, uma pessoa retirava-se do mundo,
amortalhava-se em vida, fazia-se monge,
ou porque a vida lhe dera tudo e a agonia sobrevinha,
ou porque desistia de lutar com ela pelo que não vinha nunca
(nem mesmo sob a forma de agonia que facilitasse as coisas).
Depois, porque o espírito precisa de ocupar-se,
a pessoa tratava de salvar a própria alma,
de mortificar o corpo, e preparava-se para a morte
(um acidente para que só pelo acaso feliz de ter nascido,
uma pessoa, naquele tempo sem recurso algum,
estava, por estar viva, sempre preparada).
Era uma aposentadoria honrosa, olhada com respeito,
e que não podia deixar de encher a solidão
como gente e amor não tinham preenchido a vida.
Era um estar só, rodeado de calor humano,
sem os inconvenientes e a incomodidade
que o convívio humano traz consigo,
desde os sentimentos a mais aos sentidos a menos,
ou ao facto lamentável de quem amamos não cheirar
como quereríamos: a um misto de rosas e de sexo,
com alguma imaginação de como o amor cheira.

Hoje, não há mais mundo
de que uma pessoa possa retirar-se.
O mundo se retirou de nós. E a solidão
é como um convento gigantesco em que,
na rua, nos transportes colectivos, na cama,
olhamos a vizinhança com a mesma convicção
com que os carmelitas descalços ao cruzarem-se no claustro
mutuamente se saudavam dizendo
que era preciso morrer.
Na dor, na alegria, no prazer, em tudo,
somos monges laicos cuja morte sobrevém
de uma qualquer maneira estúpida e sem graça.
E o nosso olhar de espanto não é o de termos sido
colhidos de surpresa antes de estar salva a alma,
mas o de ela estar salva, desde que o mundo
se retirou de nós. É o olhar de espanto do funcionário público
que descobre, ao contarem-lhe o tempo de aposentadoria,
que nunca figurara na folha de pagamento,
nem no quadro dos funcionários efectivos,
ou mesmo sequer nas listas do comissariado
do desemprego. Não tem direito sequer
à agonia que todavia sente como antigamente
era sentida a que justificava tudo:
o prazer de decidir entre duas coisas:
o ir ou o ficar, o estar ou o partir,
O ter-se uma alma que jogar e perder.


Jorge de Sena
in, 40 Anos de Servidão





quarta-feira, 15 de maio de 2019

VARIAÇÃO PRIMEIRA





Ao sol ardente, ao mar azul, ao vento que
lhes faz vibrar a pele, os deuses dão-se
numa nudez total de agreste juventude
que impudica se exibe e se deseja,
se acaso olhos humanos os espiam.
.
Promíscuos tombam num tropel de corpos,
de pernas, braços, bocas e cabelos,
ancas e mãos, de línguas e gemidos,
uivos de espasmo, seios e tremuras,
e sexo é tudo o que se entrega e tudo
o que num ritmo seguro arranca
sacões em que se ajusta mais ao fundo
e túrgido se escoa e recomeça.
Torcem-se os corpos, arfam e agitam-se,
soerguem-se e arqueiam-se e descaem,
e pouco a pouco vão ficando plácidos
e como que dormindo na difusa,
anónima e divina confusão final.
.
De súbito, levantam-se altíssimos
ao pé dos corpos que ainda jazem trémulos.
Mais outros se levantam, se recortam
na luz que irisa a negridão dos sexos.
As gargalhadas tinem pela praia clara
num cascalhar sereno da ressaca
lambendo a areia que, trazida, fica
como suspensa no limiar do vento.
.
Ao mar acorrem que espadanam breves,
enquanto um só dos deuses se demora
à beira de água e se espreguiça erguendo
ao alto os braços num curvar das ancas
sobre as retesas pernas que espraiada
a espuma molha pelos tornozelos.
Num grito atira-se e mergulha e segue
os outros que são pontos na distância,
ou sombras só de pequeninas vagas
quebrando-se, e ao longe, contra a luz.
.
Silvos ligeiros, lépidos, irónicos
alisam pela praia o que ficou dos corpos
— areia remexida, vagos moldes
de ancas e torsos, calcanhares e nucas,
e até gotas dispersas de vertido amor.
.
Promíscuo o amor dos deuses, se os espiam
olhares humanos, sequiosos, turvos,
e dissipado, violento, abrupto.
.
Apenas o tinir das gargalhadas
subsiste ainda, e na memória o vulto
do deus que se espreguiça à beira de água.


JORGE DE SENA
in, VARIAÇÕES SOBRE UM CORPO




sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

FIDELIDADE





Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?

Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.


JORGE DE SENA
in, POESIA





sábado, 15 de dezembro de 2018

NATAL

 




Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?



Jorge de Sena







terça-feira, 6 de novembro de 2018

Uma pequenina luz

 




Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.



Jorge de Sena
in, Fidelidade








sábado, 9 de dezembro de 2017

Denúncia

 




Sonharei, no teu seio calmo,

O sonho invisível do cego de nascença.

Dormirei, no teu cerrar de pálpebras,

Como um peixe desliza entre os ramos de árvore

Reflectidos na água.

Dormirei, nas tuas mãos pousadas no meu corpo,

O desejo de te acariciar sem perigo

– não vá tirar-te escamas, borboleta presa.

Dormirei, no teu sexo, a solidão do meu

Ao existir para que eu pense em ti.

Dormirei, na tua vida, a teimosia humana

De um sentido universal para as coisas connosco.

E se, depois, meu amor, formos estéreis,

Se a demora do tempo tiver tido um gesto abandonado,

E a morte, à nossa volta, um moleiro sem trigo,

O mundo que vier inveja-nos

E o nosso espírito há-de perdoar-nos.




Jorge de Sena




domingo, 12 de novembro de 2017

Cantar do Amigo Perfeito

 





Passado o mar, passado o mundo, em longes praias, 
de areia e ténues vagas, como esta 
em que haverá de nossos passos a memória 
embora soterrada pela areia nova, 
e em que sobre as muralhas quanta sombra 
na pedra carcomida guarda que passámos, 
em longes praias, outras nuvens, outras vozes, 
ainda recordas esta, ó meu amigo? 

Aqui passeámos tanta vez, por entre os corpos 
da alheia juventude, impudica ou severa, 
esplêndida ou sem graça, à venda ou pronta a dar-se, 
ido na brisa o sol às mais sombrias curvas; 
e o meu e o teu olhar guiando-se leais, 
de nós um para o outro conquistando 
- em longes praias, outras nuvens, outras vozes, 
ainda recordas, diz, ó meu amigo? 

Também aqui relembro as ruas tenebrosas, 
de vulto em vulto percorridas, lado a lado, 
numa nudez sem espírito, confiança 
tranquila e áspera, animal e tácita, 
já menos que amizade, mas diversa 
da suspeição do amor, tão cauta e delicada 
- em longes praias, outras nuvens, outras vozes, 
ainda as recordas, diz, ó meu amigo? 

Também aqui, sorrindo em branda mágoa, 
desfiámos, sem palavras castamente cruas, 
não já sequer os íntimos segredos 
que o próprio amor, porque ama, não confessa, 
nem a vaidade humana dos sentidos, mas 
subtis fraquezas vis, ingénuas e secretas 
- em longes praias, outras nuvens, outras vozes, 
ainda recordas, diz, ó amigo? 


Partiste e foi contigo a juventude. 
Ficou o silêncio adulto, pensativo e pródigo, 
e o terror de não ser minha estátua jacente 
sobre o túmulo frio onde as cinzas da infância 
desmentem - palpitar de traiçoeira fénix! - 
que só do amor ou só da terra haja saudade. 
Em longes praias, outras nuvens, outras vozes, 
tu sabes que a levaste, ó meu amigo? 



Jorge de Sena
in, "Pedra Filosofal"