Mostrar mensagens com a etiqueta Daniel Faria. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Daniel Faria. Mostrar todas as mensagens

domingo, 21 de agosto de 2022

Daniel e Tacita (um oxigénio difícil)

  

Jonathan Koons




Falo daquilo que vejo, embora possas pensar que sou cego
seguindo as mãos - sim, toco as palavras nas suas superfícies 
e utensílios.

A primeira palavra que os olhos viram, agora que a recordo,
parecia uma imagem - sim, um som desenhado como um fóssil
(falo de fóssil, mesmo
que ele demore a aparecer no que digo),
um som do tamanho de um azulejo; agora que me lembro que era uma palavra

que brilhava nos meus olhos ao vê-la
(ver uma palavra era uma planta muito diferente,
um oxigénio muito difícil de se respirar).

Sim, agora vejo que falo, embora possas pensar que sigo pelo tacto a escrita.
Sim, eu leio e decifro. E agora sei que oiço as coisas devagar.



Daniel Faria




quinta-feira, 8 de abril de 2021

Dia Transformado

 

Eduard Francés




Este é o dia novo. Sei-o pelo desejo 
De o transformar. Este é o dia transformado 
Pelo modo como apoio este dia no chão. 
Coloco-o na posição humilde dos meus joelhos na terra 
Abro-o com os olhos que retiro de todas as coisas quando os fixo 
Na atenção. 

E fico atento, fico deitado porque não sei crescer 
Num terreno que se levante. 
Cresço na clareira de um homem que é uma palavra 
Na sua túnica inteira 
Porque este é o sítio do dia sem horário 

Sem divisões 

E ponho-me de frente no seu lado, 
Nos seus braços abertos para me unir 
E entro pelo lado aberto e ardo - como Elias 
Em chamas subindo para o céu.


Daniel Faria



segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Explicação da Espera



Luiz Laercio




Estou dentro de paredes brancas.
Quatro paredes: a minha cela,
O Frio, a solidão e o meu catre.
A luz entra sempre de noite.

Não tinha nada donde vim. Aqui não encontrei
O que tive e a cadeira não serve o meu repouso.
Ainda não há lugar no mundo onde possa sossegar de tu não seres
O vazio que persiste à minha beira.

Tenho um pequeno sonho de uma janela para abrir:
E que paisagem não seria estar feliz!


DANIEL FARIA
in, POESIA 




quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

EXPLICAÇÃO DA AUSÊNCIA


Sebastien Del Grosso






Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer - fosse abertura -
E a saudade é tudo ser igual.


DANIEL FARIA
in, POESIA






quinta-feira, 28 de março de 2019

Examinemos um homem no chão





Examinemos um homem no chão
Testemos a transformação de um homem por terra 
A sua natureza tão diferente da lava, a sua maneira mineral 
De adormecer. 
O que mais interessa é ver o seu lugar rodando para perceber o eixo 
Que o move no mundo 
Ou como pode a sua posição orientar as aves e os astros. 

Interessa também a pedra que ele agarra como alimento 
Ou que mão escolhe par lhe servir de funda
- se é que não usa a própria boca para lançar o grito. 

Examinemo-lo quando desperta para percebermos de onde vem
Para sabermos se o caminho se repete. Se abre os olhos
Prontos a receber imagens ou então alguém que desmaiou
Ao chocar contra si próprio
Interessa perceber os motivos da colisão, se acaso
Terá mastigado a pedra até a misturar no sangue.

Examinemos a sua semelhança com um meteoro que cai 
Uma fisionomia sem vocação para subir ao céu 
O peso do seu corpo quando o nosso olhar o levanta. 
Interessa perceber o íman que cria para nós um lugar junto dele 
Um lugar dentro dele. Há um olhar que nos desloca - 
A placa giratória do amor? 

Interessa também o coração que ele agarra como fruto que colhe 
Ou que veia abre no corpo para beber 
- se não é que é a pedra o que ele bebe com as mãos. 

Examinemo-lo como quem sai de casa e vê o seu irmão 
Examinemo-lo voltado, em viagem, a orientação discreta 
De quem cava no peito a bússola. 
Interessa reparar como tropeça no mistério 
E se levanta a pedra para compreender.


Daniel Faria
in, "Homens que são como Lugares mal Situados"





quinta-feira, 14 de março de 2019

Mas Basta-me um Quadrado de Sossego






Amanhecemos sem materiais suficientes para a luz total
Embora nos estiquemos como cabras nos penhascos para os arbustos
Mais tenros, esticamo-nos para não nos doer a lembrança
Das manhãs tão sossegadas dos cavalos nos pastos

Explico que amanhecemos mastigando as ervas venenosas
Buscando um som mais poderoso do que o bater dos cascos
Um balido interior reunindo rebanhos
Uma palavra fonte múltipla como o úbere das cabras

Amanhecemos cheios de sede como se viéssemos de um outro hemisfério
Num galope rápido
Esticando-nos como arbustos tenros chamando
Amanhecemos nocturnamente fincando os joelhos nos penhascos
Levantamo-nos para sacudir as crinas para escovar os cavalos

Amanhecemos sem braçados bastantes para a luz
Queimados pelas palavras.
Organizamos rebanhos junto das águas
Andamos nas margens no meio da tarde.
Esticamo-nos para seremos setas de fogo
Ou o som dos chocalhos trespassando
Os mais tenros rebentos das chamas.



Daniel Faria
in, "Homens que são como lugares mal situados"





sexta-feira, 8 de março de 2019

Homens que são como lugares mal situados





Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar

#

Homens que são como projectos de casas
Em suas varandas inclinadas para o mundo
Homens nas varandas voltados para a velhice
Muito danificados pelas intempéries

Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Parados à espera
De um companheiro possível para diálogo interior

Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber

Homens à chuva com as mãos nos olhos
Imaginando relâmpagos
Homens abrindo lume
Para enxugar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior.



Daniel Faria
in, "Homens que são como lugares mal situados"




sexta-feira, 9 de junho de 2017

Estranho é o Sono que não te Devolve

 



Estranho é o sono que não te devolve. 
Como é estrangeiro o sossego 
De quem não espera recado. 
Essa sombra como é a alma 
De quem já só por dentro se ilumina 
E surpreende 
E por fora é 
Apenas peso de ser tarde. Como é 
Amargo não poder guardar-te 
Em chão mais próximo do coração.



Daniel Faria 
in, "Explicação das Árvores e de Outros Animais"






quinta-feira, 8 de junho de 2017

Amo-te nesta ideia nocturna da luz nas mãos

 




Amo-te nesta ideia nocturna da luz nas mãos
E quero cair em desuso
Fundir-me completamente.
Esperar o clarão da tua vinda, a estrela, o teu anjo
Os focos celestes que a candeia humana não iguala
Que os olhos da pessoa amada não fazem esquecer.
Amo tão grandemente a ideia do teu rosto que penso ver-te
Voltado para mim
Inclinado como a criança que quer voltar ao chão.


Daniel Faria
in, "Dos Líquidos"