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quinta-feira, 29 de outubro de 2020

O PÁSSARO DO CHÃO

 








O Bailarino é um pássaro do chão, como outros são do céu.
São a inveja das árvores que não voam
a inveja das pedras com musgo
dos pesados Homens que não dançam.

Quem te ensinou a voar?
Foi a magia do vento?
Foi o vento que te ensinou a ser folha bailadeira em vez de árvore?
A ser poeira malabarista em vez de pedra?
A ser artista e a altear os pés sem estar preso?
A recolher as raízes, a vomitar o peso?

O Bailarino é um pássaro do chão, como outros são do céu.
O seu corpo é uma recta onde cabem todas as curvas de um véu.
Feito de ar, nervos d’aço, é fio-de-prumo aberto em compasso.

Quem te ensinou a voar?
Foi o milagre dos deuses?
Foram os deuses que te ensinaram a intensidade e a leveza?
O brilho dos reflexos, a elegância da espuma?
O enlaçar da poesia e das emoções uma a uma, uma a uma?

O Bailarino é um pássaro do chão, como outros são do céu.
Quem te ensinou a voar?

- Aprendi na dor…!
Sim, o Bailarino é um pássaro
as suas asas são da dimensão da dor
um pássaro moldado em rasgado movimento
que se repete, se repete, se repete…
quantas vezes? - setenta vezes sete
até que reste um corpo alquebrado
maltratado, castigado, torturado
e se abra um sulco de arado na alma…

- Sem direito ao céu, o Bailarino é um pássaro bastardo
que sem magias nem milagres aprende a voar em contraluz
deixando o sangue no estrado onde apenas o suor reluz!

- Ahhh… mas quando dança…
quando dança é pássaro por inteiro
esquece a mágoa e o sofrimento
desliza como água, é música em movimento
ganha asas, ganha vento, ganha os ares a sonhar
abre em arco os seus braços, risca lume no ar
e em pose de conquistador, rei d’aquém e d’além dor
vai onde o corpo alcança
e é num segundo
senhor do mundo
num subtil passo de dança!


JOÃO MORGADO
in, CNB E OS POETAS





quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Eu TA NÁ SIA


Luisa Azevedo






Tinha receio da morte até que a vida me cansou.
Até que maldisse a sorte e a vida me desgastou
ao ponto de sofrer

Este candelabro, corpo físico da minha dor,
já não sustenta a vela a arder, Alma flamejante.
E se nada se reinventa, tudo é sem cor doravante
e ante o nada, nada a fazer,
que dor não é futuro,
que a dor não é viver.

E se nada é o que já foi, nada é, e nada resta,
o que nos prende? que vida é esta?
- Esta vida já findou.

Que a chama desta vela suba aos céus e se liberte,
que fuja no desacerto do que fui e do que sou,
que se liberte do corpo que a cercou
que desperte, a bendita Alma, que desperte,
desta massa falida que restou.

Que me liberte então o apego mundano do que fui,
os laços daqueles que tanto me amam,
dos tantos que me odeiam
dos tantos que me esqueceram,
dos tantos que venci,
dos nem tantos que me venceram.

Que seja egoísta por um dia, um dia derradeiro,
um dia que seja o último e na fé se torne o primeiro

Se só chega quem parte,
que o medo de ficar vença o medo de partir

Por vontade, deixem que a minha Alma,
a minha Alma parta a sorrir!



JOÃO MORGADO
in, CONTINUUM - ANTOLOGIA POÉTICA





sábado, 17 de agosto de 2019

LIÇÃO DE LEITURA





O velho dizia: Ler, é como comer uma maçã!
Mas o jovem mergulhava os olhos no livro
mergulhava a cabeça e todo o corpo.

Mergulhava e mergulhava tempos infinitos
no mar de palavras.
Bebia frases inteiras, páginas, capítulos...
bebia sem respirar.

E bebia outros livros que se seguiam aos livros que lia.
Bebia sem parar.
E o velho dizia:
- Não esqueças... ler é como comer uma maça!

E a cada manhã, o jovem lia, lia e lia.
E a cada manha o velho repetia:
Ler, é como comer devagar, bem devagar, uma maça!

E o jovem de tanto ler não lia,
porque era jovem e como jovem não sabia
que há um tempo para consumar o dia,
antes de chegar um novo amanhã!

- Levanta os olhos - falava o velho no seu afã.
Levanta os olhos e lê...
Levanta os olhos
como quem trinca e mastiga uma maçã
Levanta, levanta e fecha os olhos,
que só quem fecha os olhos é que vê.
Ler é mais que somar palavras
pois não se lê apenas com os olhos
é preciso ler com a razão, é preciso chamar a emoção,
e uma pausa não é vã
é preciso trincar, saborear, é preciso degustar a maçã.

Lê e levanta os olhos, mastiga as palavras que leste.
Que te subam à cabeça, invadam o coração
se acomodem, se aconcheguem...

Só depois trinca de novo a maçã, morde as letras,
mastiga-as de olhos fechados.
Trinca, mastiga, trinca, mastiga
sorve as palavras uma-a-uma.

Respira.
Leva calmo o teu afã, já que ler não é voragem,
é o entranhar da maçã!
Não leias de empreitada, que a gula não é nada.

Lê, ergue os olhos, embebe.
Depois, por fim, guarda o caroço
- que é a lombada do livro que acabas de ler,
que se foi cada página saboreada,
fica eterno na tua estante
na biblioteca do saber!



JOÃO MORGADO
in, CONTINUUM - ANTOLOGIA POÉTICA