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terça-feira, 11 de abril de 2017

Amor

 



as minhas horas não têm sido as tuas horas.
as minhas pernas têm andado longe das tuas. 
o meu pé, à noite, demora a encontrar-se com o teu.
as minhas mãos trabalham em coisas tão díspares das tuas.
a minha cabeça trabalha a tantos de quilómetros de distância da tua.
mas há uma coisa, sabes, que está sempre.
sempre perto. 
como a folha de um caderno. como um dos fios da mesma embalagem de esparguete.
como "aquela" nota única de uma sonata. como o atacador de uma sapatilha.
e essa coisa - o amor - tem a mesma boca e a mesma língua.
tem a mesma cadência e a mesma orientação.
posso estar longe, ocupada, absorvida, mergulhada.
posso andar desvairada de coisas para fazer
posso passar-me de nervosos miúdos
posso comportar-me às vezes como uma miúda.
mas o meu amor e a minha boca - ai esses dois -
vão andar sempre no teu encalço.
esses sim, serão a tua sombra e a minha luz.
sempre.


Laura Avelar Ferreira






sábado, 25 de fevereiro de 2017

Operação Delicada

 



Amputar angústias. Cirurgicamente. 
Dissecá-las com minúcia. Mão firme. Olhos seguros. 
Manuseio. Olfato. Olhar demoradamente. Abocanhar. 
Demorar neles, nos apertos, o tempo que seja preciso. Sem tempo. 
Deixar escurecer, decompor, clarear, regenerar. 
Voltar a incorporar. Coser. Bordar. 
Ataviar. 
Olhar demoradamente. 
Demorar nelas, nas angústias permutadas, o tempo que seja preciso. 
Porque agora elas pertencem-nos de foram diferente. 
Porque agora já sabemos viver com elas. 



Laura Avelar Ferreira







quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Viro-me para dentro e encontro-me no avesso

 



troco-me de sítio entre dentes 
entre telas entre paredes 
faço-o à noite em silêncio 
com dedos de especiarias 
e sons minúsculos que me saem das pontas dos pés. 
faço-o meia nua meia tonta meia eu: 
viro-me para dentro e encontro-me no avesso 
ponho a cabeça nos pés e o coração nas omoplatas
faço da saliva cabelos e da nuca inspiração. 

preciso disso para me saber viva: 
do caos, da trasladação. 
só assim me sei viva 
e me faço, inteira, em pedaços.



Laura Avelar Ferreira





quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O escuro dos dias

 



são poucos aqueles que me conhecem a cor.
há dias de escuro, há dias de branco, cinzento.
dias de cores alegres ou de cores esfumadas.

hoje estou num desses dias - escuro. sem olhos. sem saliva na boca.
sem quente da pele. apenas sombras sem contornos definidos.
dias em que nem tudo corre como queremos ou esperamos.
dias em que a serenidade se transformou num  
mar mais agitado, com bandeira amarela.
dias em que o vento despenteia e a areia 
dói, de encontro ao corpo.

mas, mesmo assim,
dias em que não deixarei de ir à praia.


Laura Avelar Ferreira