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segunda-feira, 18 de abril de 2022

Ressurreição

 






 Porque a forma das coisas lhe fugia, 
O poeta deitou-se e teve sono. 
Mais nenhuma ilusão lhe apetecia, 
Mais nenhum coração era seu dono. 

Cada fruto maduro apodrecia; 
Cada ninho morria de abandono; 
Nada lutava e nada resistia, 
Porque na cor de tudo havia Outono. 

Só a razão da vida via mais: 
Terra, sementes, caules, animais, 
Descansavam apenas um momento. 

E o vencido poeta despertou 
Vivo como a certeza de um rebento 
Na seiva do poema que sonhou. 


Miguel Torga
in, "Libertação"



segunda-feira, 13 de julho de 2020

Mãe







Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!


Miguel Torga
in, 'Diário IV'



sábado, 30 de maio de 2020

SÍSIFO









Recomeça…

Se puderes,

Sem angústia e sem pressa.

E os passos que deres,

Nesse caminho duro

Do futuro,

Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances

Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,

Vai colhendo

Ilusões sucessivas no pomar

E vendo

Acordado,

O logro da aventura.

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

Onde, com lucidez, te reconheças.



MIGUEL TORGA

in,  DIÁRIO XIII






segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

ABSOLVIÇÃO

 




Incendeiam-me ainda os beijos que me não deste
E cegam-se os acenos que me não fizeste
Da janela irreal onde o teu vulto
Era uma alucinação dos meus sentidos.
Mas, decorrida a vida, e oculto
Nestes versos doridos,
A saber que não sabes que te amei
E cantei,
E nem mesmo imaginas quem eu sou
E como é solitária e dói a minha humanidade,
Em vez de te acusar
E me culpar
Maldigo o arbítrio da fatalidade
Que cruelmente nos desencontrou.


MIGUEL TORGA
in, ANTOLOGIA POÉTICA






terça-feira, 27 de novembro de 2018

SÚPLICA

 




Agora que o silêncio é um mar sem ondas, 
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto. 
Só soubemos sofrer, enquanto 
O nosso amor 
Durou. 
Mas o tempo passou, 
Há calmaria... 
Não perturbes a paz que me foi dada. 
Ouvir de novo a tua voz seria 
Matar a sede com água salgada.


MIGUEL TORGA
in, CÂMARA ARDENTE 





sábado, 17 de fevereiro de 2018

Não tenho limites

 




Não. Não tenho limites. 
Quero de tudo 
Tudo. 
O ramo que sacudo 
Fica varejado. 
Já nascido em pecado, 
Todos os meus pecados são mortais. 
Todos tão naturais 
À minha condição, 
Que quando, por excepção, 
Os não pratico 
É que me mortifico. 
Alma perdida 
Antes de se perder, 
Sou uma fome incontida 
De viver. 
E o que redime a vida 
É ela não caber 
Em nenhuma medida. 


Miguel Torga





quinta-feira, 22 de junho de 2017

Depoimento

 




De seguro,
Posso apenas dizer que havia um muro
E que foi contra ele que arremeti
A vida inteira.
Não. Nunca o contornei.
Nunca tentei
Ultrapassá-lo de qualquer maneira.

A honra era lutar
Sem esperança de vencer.
E lutei ferozmente noite e dia.
Apesar de saber
Que quanto mais lutava mais perdia
E mais funda sentia
A dor de me perder.


MIGUEL TORGA 
in, DIÁRIO XIII 





segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

E adias esta urgência?

 



Porque 
não vens agora, que te quero 
E adias esta urgência? 
Prometes-me o futuro e eu desespero 
O futuro é o disfarce da impotência. 

Hoje, aqui, já, neste momento, 
Ou nunca mais. 
A sombra do alento é o desalento 
O desejo o limite dos mortais.


Miguel Torga






sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Súplica





Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.


Miguel Torga






domingo, 29 de novembro de 2015

Nada Sei




Não me perguntes,
porque nada sei
Da vida,
Nem do amor,
Nem de Deus,
Nem da morte.
Vivo,
Amo,
Acredito sem crer,
E morro, antecipadamente
Ressuscitando.
O resto são palavras
Que decorei
De tanto as ouvir.
E a palavra
É o orgulho do silêncio envergonhado.
Num tempo de ponteiros, agendado,
Sem nada perguntar,
Vê, sem tempo, o que vês
Acontecer.
E na minha mudez
Aprende a adivinhar
O que de mim não possas entender.

Miguel Torga







sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Livro de Horas




Aqui, diante de mim, 
Eu, pecador, me confesso 
De ser assim como sou. 
Me confesso o bom e o mau 
Que vão ao leme da nau 
Nesta deriva em que vou. 

Me confesso 
Possesso 
Das virtudes teologais, 
Que são três, 
E dos pecados mortais, 
Que são sete, 
Quando a terra não repete 
Que são mais. 

Me confesso 
O dono das minhas horas. 
O das facadas cegas e raivosas 
E o das ternuras lúcidas e mansas. 
E de ser de qualquer modo 
Andanças 
Do mesmo todo. 

Me confesso de ser charco 
E luar de charco, à mistura. 
De ser a corda do arco 
Que atira setas acima 
E abaixo da minha altura. 

Me confesso de ser tudo 
Que possa nascer e mim 
De ter raízes no chão 
Desta minha condição. 
Me confesso de Abel e de Caim. 

Me confesso de ser Homem 
De ser um anjo caído 
Do tal céu que Deus governa. 
De ser um monstro saído 
Do buraco mais fundo da caverna. 
Me confesso de ser eu 
Eu, tal e qual como vim 
Para dizer que sou eu 
Aqui, diante de mim! 


Miguel Torga