Mostrar mensagens com a etiqueta Alexandre O'Neill. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alexandre O'Neill. Mostrar todas as mensagens

sábado, 7 de janeiro de 2023

Soneto Inglês

 






Como o silêncio do punhal num peito, 
O silêncio do sangue a converter 
Em fio breve o coração desfeito 
Que nas pedras acaba de morrer, 

Vive em mim o teu nome, tão perfeito 
Que mais ninguém o pode conhecer! 
É a morte que vivo e não aceito; 
É a vida que espero não perder. 

Viver a vida e não viver a morte; 
Procurar noutros olhos a medida, 
Vencer o tempo, dominar a sorte, 
Atraiçoar a morte com a vida! 

Depois de morrer de coração aberto 
E no sangue o teu nome já liberto...


Alexandre O'Neill
in, No Reino Da Dinamarca






domingo, 4 de outubro de 2020

A NOITE-VIÚVA

 








Uma pequena angústia sentida nos joelhos
Como o bater do próprio coração
E é a noite que chega
Não a noite-diamante
Mas a noite-viúva a noite
Sete vezes mais impura do que eu
Em passo obsceno em obscena força
Minúscula perversa venenosa
.
Escrevo o teu nome
Noite de amor que de longe me defendes
Escrevo o teu nome contra a noite obscena
Que a meu lado espera seduzir-me
Levar-me consigo
À porca solidão onde trabalho
À insónia sem margens ao vinho solitário
Duma pequena angústia
Escrevo todos os teus nomes
Puxo-os para mim tapo-me com eles
Na noite da surpresa
Noite feroz da surpresa
Noite do amor atacado de perto e conseguido
Alto e convulsivo
Noite dos amantes deslumbrados
Iluminados pelo demónio mais puro
Noite como uma punhalada ritual no invisível
Noite da vítima-triunfante
.
Escrevo o teu nome a meu favor e contra
Esta noite este murmúrio esta invenção atroz
A que chamam o dia-a-dia
Estas quatro minúsculas patas
Venenosas da angústia
.
Escrevo o teu nome cruel
Puro e definitivo.



ALEXANDRE O'NEILL
in, TOMAI LÁ DO O'NEILL!





sábado, 30 de novembro de 2019

POEMA DO DESAMOR






Desmama-te desanca-te desbunda-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Beija embainha grunhe geme
Não se pode morar nos olhos de um gato

Serve-te serve sorve lambe trinca
Não se pode morar nos olhos de um gato

Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arfa arqueja moleja aleija
Não se pode morar nos olhos de um gato

Ferra marca dispara enodoa
Não se pode morar nos olhos de um gato

Faz festa protesta desembesta
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arranha arrepanha apanha espanca
Não se pode morar nos olhos de um gato



ALEXANDRE O´NEILL
in, DEZANOVE POEMAS
POESIAS COMPLETAS




domingo, 19 de agosto de 2018

PELA VOZ CONTRAFEITA DA POESIA

 




Ah
onde estão os relógios que nos davam
o tempo generoso
os dedos virtuosos os pezinhos
musicais do tempo
as salas onde o luxo abria a asas
e voava de cadeira em cadeira
de sorriso em sorriso
até cair exausto mas feliz
na almofada muito azul do sono

Onde está o amor a sublime
rosa que os amantes desfolhavam
tão alheios a tudo raptados
pela mão aristocrática do tempo
o amor feito nos braços do regaço
de um tempo fácil
perdulário 
vosso

Hoje não é fácil o tempo
já não é vosso o tempo
viajantes de sonho que divide
doces irmãos da rosa
colunas do templo do Imóvel
prudentes amigos da vertigem
deliciados poetas duma angústia
sem visceras reais
já não é vosso o tempo.

Noivas do invisível
não é vosso o tempo
Relógios do eterno
não é vosso o tempo.


ALEXANDRE O'NEILL
in, TEMPO DE FANTASMAS






quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Pretextos para fugir do real

 




A uma luz perigosa como água
De sonho e assalto
Subindo ao teu corpo real
Recordo-te
E és a mesma
Ternura quase impossível
De suportar
Por isso fecho os olhos
(O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da
provocação. É assim que te faço arder triunfalmente
onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos)
Por isso fecho os olhos
E convido a noite para a minha cama
Convido-a a tornar-se tocante
Familiar concreta
Como um corpo decifrado de mulher
E sob a forma desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência 
Nua nos meus braços

Experimento um grito
Contra o teu silêncio
Experimento um silêncio
Entro e saio
De mãos pálidas nos bolsos


Alexandre O´Neill






quarta-feira, 22 de novembro de 2017

6 Poemas confiados à memória de Nora Mitrani

 


I

Para ti o tempo já não urge,
Amiga.
Agora és morta.
(Suicida?)
Já Pierrot-vomitando-fogo
(sempre ao serviço dos amantes)
não entra no nosso jogo
como dantes.
Mas esse obscuro servidor,
que promovemos uma vez
(ainda eu não te dedicara
‘aquele’ adeus português…),
corre, lesto, como uma chama,
entre nós dois (o saltarim!)
e desafia-nos prà cama.
Esperas por mim?



II

Se eu pudesse dizer-te: — Senta aqui
nos meus joelhos, deixa-me alisar-te,
ó amável bichinho, o pêlo fino;
depois, a contra-pêlo, provocar-te!
Se eu pudesse juntar no mesmo fio
(infinito colar!) cada arrepio
que aos viajeiros comprazidos dedos
fizesse descobrir novos enredos!
Se eu pudesse fechar-te nesta mão,
tecedeira fiel de tantas linhas,
de tanto enredo imaginário, vão,
e incitar alguém: — Vê se adivinhas…
Então um fértil jogo amor seria.
Não este descerrar a mão vazia!


III

Sê como és: o sol é bom,
o ar vivaz.
Do azul aos azuis, do verde aos verdes,
a terra é menina e o tempo rapaz.
Também tu és menina
(um bichinho rebelde, de tão natural!)
e correr descalça era mesmo o que querias,
mas seria indecente nesta capital…
E enquanto, doutro verde possuído,
em versos me explico, bem ou mal,
à primavera corres, já descalça,
por uma relva ideal!


IV

Passam os anos a caretear…
Com ou sem sorte,
não será tempo de viver, de amar,
de resistir à morte?
Ouve amor-o-eterno e o que ele diz
a quem se dá.
Não esperes pelo tempo: sê feliz
que a felicidade é já!
E a felicidade é esse rosto eleito
por ti,
é esse palmo de ternura e o jeito
com que sorri.
E a felicidade é a melancolia
que nesse rosto existe,
quando te quer dizer que só por ele
é bom estar triste…
Passem, então, os anos a deitar-nos
línguas de fora…
Se morrermos será de nos amarmos
em cada hora!
Mais um ano de esperança? Não o queiras
se a esperança é adiar,
e vive-o como se fosse a vida inteira
se tiveres de esperar!…


V

Eu estava bom p’ra morrer
nesse dia.
Não tinha fome nem sede,
nem alarme ou agonia.
Eu estava tal como está
esse que perdeu a amiga,
o homem que sofreu já
tanto (nem se imagina!)
que ficou bem atestado
de fadiga
e copiou-se em alegre,
mas de uma torpe alegria,
que não era mesmo alegre,
mas alegre se fingia
só para enganar o morto
que dentro de si trazia.
Este é um modo de dizer
em que ninguém acredita,
mas não sei melhor dizer:
era assim que eu me sentia!
A solidão o que era?
O amor o que seria?
Já ninguém à minha espera,
para nenhures é que eu ia.
Eu estava bom p’ra morrer
— e ainda hoje morria…
Assim me quisesses dar
e tirar — só tu! — a vida.


VI

A que vens, solidão, com teu relógio
de ponteiros de visgo, de bater de feltro?
Ombro nenhum ao meu ombro encostado,
a que vens, ó camarada solidão?
Companheira, amiga, até amante,
até ausente, ó solidão, te amei,
como se ama o frio até o frio dar
a chama que tu dás, ó solidão!
A que vens, enfermeira? Não sabes que estou morto,
que se digo o meu sim ou o meu não
é só para que os outros me julguem mais um outro,
é só para que um morto não tire o sono aos outros?
A que vens, solidão? Vai antes possuir
os que amam sem esperança e sem saber esperam,
dá-lhes o teu conforto, encosta-lhes ao ombro
o teu ombro nenhum, ó solidão!



Alexandre O'Neill
Poemas com Endereço
in, Poesias Completas




segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Canção de Embrulhar

 




boa noite meninos não

não levantar da cama

não ir pé ante pé ver os pais ao

quarto diz que eles são quatro foles

agarrados uns aos outros ar

quejando diz que é o amor

ou quejando diz que é

o pai com uma coisinha assim

a meter um recado na caixinha que a mãe

tem diz que não que não é a da

costura que é aquela onde se

guardam os meninos antes de se poder

comprar o berço e eles poderem

nascer para o amor dos seus pais.



Alexandre O’Neill






sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Soprónia Insuflávia

 




Soprónia Insuflávia, ó minha noiva cauchutada,

minha câmara-de-ar nupcial,

coito do coitado, coutada do solitário

cervo que nos galhos trazia à dependura

o retrato da que diziam verdadeira…

Verdadeira és tu, Soprónia! Machucada,

logo repões a glória da tua carne

na opulência das tuas formas,

as mesmas que, pelo catálogo, escolhi.

Porque fui eu que, à velha maneira, te escolhi

e a teus pais te paguei para poder trazer-te

a este quarto onde, dando novos sentidos à estafada canção,

o amor é uma coisa maravilhosa!

Que obediência devemos a práticas que não sejam as mais antigas?

Nós não fazemos amor, como diz a de hoje tão dessorada gente;

nós, está bem de ver, FORNICAMOS!

Não precisamos de Kahn, Egas Moniz ou Freud,

sequer de Reich, pensador orgasmático,

nem dessa trupe que dá pelo nome de As Femininistas

e que ao homem, quando quer, fecha obscenamente as pernas,

como santola que, já no prato, se recusasse.

Tão-pouco necessitamos de dar as nossas mãos

e fazer rodas infantis em casa de senhores idosos

para que a língua-de-sogra neles se desenrole

e eles digam:”- Te adoro!”

Somos absolutamente pela moral.

… … … … … … … … … … … … … … … … … … …

Ao Algarve, Soprónia, que o tempo tástupendo!

Desinflada, meto-te na mala.

Em Albufeira, recobro a forma do meu amor

e, naquele mar que nasceu para estar deitado,

deitamo-nos perdidamente a amar!




Alexandre O’Neill





sexta-feira, 7 de agosto de 2015

O amor é o amor - e depois?!






O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?


O meu peito contra o teu peito,

cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!


Na nossa carne estamos

sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos, somos um? somos dois?
espírito e calor!
O amor é o amor - e depois?!


Alexandre O´Neill





quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Amigo




Amigo
Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».


«Amigo» é um sorriso

De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!


«Amigo» (recordam-se, vocês aí,

Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!


«Amigo» é o erro corrigido,

Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.


«Amigo» é a solidão derrotada!



«Amigo» é uma grande tarefa,

Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!


Alexandre O'Neill 
in, 'No Reino da Dinamarca'






quinta-feira, 19 de julho de 2012

Há palavras que nos beijam






Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.


(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Alexandre O'Neill






quarta-feira, 20 de junho de 2012

Um Adeus Português




Alexandre O'Neill




Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti



Alexandre O'Neill