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terça-feira, 8 de junho de 2021

Cartas

 






Escreves-me cartas, sou o destinatário 
da tua solidão. E sempre compreendo 
tudo, mesmo o que não dizes, o que tinge 
as entrelinhas de um branco desespero
 
que é tanto teu como meu: não tens 
quem te salve, envelheceste, trataste mal 
de um jardim que não chegou a vingar. 
Se nos cruzássemos nas ruas desta cidade 

entre desconhecidos de toda a sorte, talvez 
nos sentássemos a falar da nossa vida, isto é, 
de como vamos ficando cada vez mais órfãos 
de nós próprios. Ou, pensando bem, talvez não.


Rui Pires Cabral





segunda-feira, 28 de setembro de 2020

O destino

 







Não tive a má intenção de te prender
à minha vida. A música, o álcool,
todo o ouropel da noite, eu só quis
sossegar por algum tempo a dúvida

que me castigava, antes que a manhã
chegasse e a aranha do remorso
descesse pelo seu alimento à mesa
do pequeno-almoço. Batemos

à mesma porta e chamaste destino
ao acaso. Zelava por nós, entre
as eléctricas estrelas, o pequeno deus
do amor? Era o que trazia ao peito

a divisa da derrota universal? Como vês,
foi sempre outra, e inútil, a minha
fé - mas perdoa, se puderes, o pouco
que soube fazer pela solidão dos dois.


Rui Pires Cabral






sexta-feira, 21 de agosto de 2020

NÃO HÁ OUTRO CAMINHO






Os poemas podem ser desolados 
como uma carta devolvida, 
por abrir. A sua verdadeira consequência
raramente nos é revelada. Quando, 
a meio de uma tarde indistinta, ou então 
à noite, depois dos trabalhos do dia, 
a poesia acomete o pensamento, nós 
ficamos de repente mais separados 
das coisas, mais sozinhos com as nossas 
obsessões. E não sabemos quem poderá 
acolher-nos nessa estranha, intranquila 
condição. Haverá quem nos diga, no fim 
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta? 
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda 
assim. Regressamos a essa solidão 
com que esperamos merecer, imagine-se, 
a companhia de outra solidão. Escrevemos, 
regressamos. Não há outro caminho. 


Rui Pires Cabral
in, Morada





domingo, 19 de julho de 2020

RESTAURANTE POLACO







A noite é sustentada pelos seus enfeites
como um homem morto ligado às máquinas.
Os clientes folheiam livros, tudo polacos
do mesmo quarteirão. Percebemos
de repente: há qualquer coisa acima das palavras
que não se deixa decifrar. Em cidades estranhas
dispomos melhor dos sentidos, somos arriscados
nas nossas intuições. E depois da sopa, do chá
morno, ao sair para a rua, podemos descobrir
que ainda estamos vivos e que no fim de contas
nunca conhecemos outra condição. Esta é a hora
que nos representa. E aquilo a que chamamos realidade
segue connosco na mesma direcção.



Rui Pires Cabral




quarta-feira, 8 de julho de 2020

Charlecote Gardens


Jack Savage






Entregas as rédeas da vida ao teu gémeo,
um monstro de maneiras impecáveis.
Viver é ser cúmplice da estupidez do mundo,
decerto as tuas próprias ilusões to dirão.
Já deste de comer ao escuro no teu quarto
e sabes que foste precedido em todos os teus
pensamentos. Mas descansa. Tem fé.
Não foste o primeiro nem serás o último
a deixar morrer a alma antes do corpo.

Ela ressuscita.


Rui Pires Cabral






sexta-feira, 3 de julho de 2020

We are flint and steel to each other


László Janik Jr 




Ontem choveu sem descanso
e fizemos tudo mal. São dias
de pedra e aço – alguém sabe
onde nos levam? Dão-nos
um amor volúvel que lisonjeia
os sentidos, mas não podem
consolar-nos da penúria
de existirmos, tu e eu, cada um
na sua pele, no seu áspero

lugar. E lembram-nos a todo
o instante do que já estava perdido
no escuro de uma gaveta
antes de ter começado,
como um verso interrompido
nas costas de um envelope
ou uma velha cassete
que mal chegámos a ouvir,
hora e meia de remorso

e distorção. Não te salvo,
não me salvas – nem é certo,
quando o medo demora,
que haja ainda o que salvar.
Contra o frio que nos ronda,
resta o lume que ateamos
por ternura, desfastio
ou vontade de vingar
o dissabor de viver.



Rui Pires Cabral




segunda-feira, 29 de junho de 2020

And so on, and so forth






Mas vejam que miséria quando o clube
perde em casa, quando chove no molhado
do recreio a tarde toda, quando o carteiro

faz greve e o outono se insinua –
vejam que miséria este défice de razões
para pôr em movimento a roda perra

do dia, esta pomba trucidada pela ambulância
que guina, enquanto o vizinho almoça e o poeta
transfigura – mas vejam que miséria

quando a arte não resgata e a orquestra
não anima e o amor torna mais árdua
a triste faina da vida.


Rui Pires Cabral




sexta-feira, 19 de junho de 2020

HE LOVED BEAUTY THAT LOOKED KIND OF DESTROYED


Leszek Bujnowski  




Gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel.



Rui Pires Cabral




domingo, 17 de maio de 2020

LIVROS


Eleanor Dante Heks 





O tempo cumpriu as promessas que nos fez
e o dia já não é corrigido pela música:
estas casas não terminam em nenhum jardim,
estão viradas de frente para o inverno, a nossa
direcção. Mas não deixa de ser estranho
reler agora os livros de que gostávamos, os livros
que não podíamos compreender ainda:
enchemos com eles as estantes do futuro,
para o dia em que não poderíamos suportá-los,
de tão próximos. A bela geometria das superfícies
não pode continuar a distrair-nos de tudo
o que nos atormenta: a vida é isto, esta imensa
e inútil espera, e os livros afinal
jamais nos ensinaram outra coisa.


Rui Pires Cabral






quinta-feira, 7 de maio de 2020

FOTOGRAFIAS


Mahdi Rezaei




Nesta vida — é um facto — estamos sempre
a desaprender coisas novas. O mundo
vai guardando a luz nas suas bainhas negras
e temos a melindrosa companhia dos fantasmas
que nos procuraram: eles governam rudemente
os nossos pequenos reinos e há um ceptro novo

para cada coroação. De repente, com a volta
das estações, damos por nós muito mais velhos
nas fotografias. As razões que nos assistiam
empalidecem em paisagens cruelmente coagidas
pela luz. Fomos expulsos dos grandes palácios

da alegria? Onde estão os mapas que nos guiavam
lá dentro, exactos como o instinto? Não sabemos
responder: o caminho turva-se: são as incertezas
da maturidade. As palavras não nos iluminam
e o amor está condenado aos defeitos naturais
do coração, que ainda assim há-de voltar a arder

sem defesa nem socorro uma vez mais.



Rui Pires Cabral






sábado, 12 de outubro de 2019

Ainda não é tarde





Ainda não é tarde, dizem os amigos 
aos quarenta anos. Amam as canções 
e as cidades estranhas que o desejo 
guarda: a pressa de Junho nas escadas 
do metro e essa livraria à beira do rio -
só a descobrimos no último dia, a pena

que foi. No fim da estação regressam 
iguais com histórias diferentes, gratos 
souvenirs. Ainda não é tarde, nada 
está perdido (e ninguém lhes dá 
a idade que têm). Aos quarenta anos 
não sabem dizer o que aconteceu, 

mas quando se juntam à roda da mesa 
na vaga euforia que a hora consente, 
já quase acreditam que podem voltar 
à pequena praça, à luz entrevista de 
um quarto de hotel, onde a noite é nova 
e toda a beleza se há-de cumprir.


Rui Pires Cabral
in, Morada





terça-feira, 5 de dezembro de 2017

NÃO HÁ OUTRO CAMINHO

 




Os poemas podem ser desolados
como uma carta devolvida,
por abrir. E podem ser o contrário
disso. A sua verdadeira consequência 
raramente nos é revelada. Quando,
a meio de uma tarde indistinta, ou então 
à noite, depois dos trabalhos do dia,
a poesia acomete o pensamento, nós
ficamos de repente mais separados
das coisas, mais sozinhos com as nossas
obsessões. E não sabemos quem poderá 
acolher-nos nessa estranha, intranquila
condição. Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho. 



Rui Pires Cabral 
in, Morada




sexta-feira, 16 de junho de 2017

HE LOVED BEAUTY THAT LOOKED KIND OF DESTROYED

 

Albulena Panduri




Gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrebalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel.


Rui Pires Cabral





quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Teria gostado de te levar comigo outra vez





A claridade estava a crescer
numa cama que já se tinha atravessado no escuro
como uma nave enfileirando para a guerra.

Eu não tinha ficado para conhecer a vista
das tuas janelas: imaginava um pátio riscado por ervas
mas não cheguei a levantar as persianas.
Talvez fosse um sítio ao qual não se pudesse regressar
porque quando falávamos os nossos olhos
não coincidiam com nenhuma palavra.

Teria gostado de te levar comigo outra vez
mas era difícil recuperar as razões
para o desejo. E no caso de nos ter acontecido
uma mudança, onde é que havíamos de procurar
os seus indícios? Estavas a dar de comer aos peixes
e eu só falava em livros.


Rui Pires Cabral








sábado, 1 de agosto de 2015

Gnossienne nº 1



Eu acreditei que podia amar
o teu corpo, o teu modo de insinuar o coração
nas palavras. Mas era apenas a forma como a noite
sublinhava as superfícies, eu nunca pude atravessar
essa espessura. Estavas ali para te dispores aos meus sentidos
mas crescias fora de alcance no teu próprio
pensamento. Uma distância que só serviria
aos lobos, um mau caminho arrancado às fragas.

Já só conhecia os dias onde tu os frequentavas, o sítio
em que me mantinhas era mais urgente
que o sangue. Sem dúvida que vinhas pelo meu desejo
mas eu perdia sempre alguma coisa
quando te ganhava. Às vezes era só
a minha vontade, outras vezes era toda a frase
do meu nome.


RUI PIRES CABRAL
in, "Música Antológica & Onze Cidades"