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sábado, 27 de abril de 2019

Desejos Vãos





Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta a vastidão imensa!
Eu queria ser a pedra que não pensa,
A pedra do caminho rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz imensa,
O bom do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as pedras… essas… pisa-as toda a gente! …


Florbela Espanca





sexta-feira, 19 de outubro de 2018

ONDE?

 

Laura Zalenga




Em busca da Verdade, o bem sagrado,
Tenho corrido todos os caminhos,
Ferido os pés em todos os espinhos,
Os horizontes todos perscrutado.

Aos tropeções, portanto ter andado,
A alma queimada em todos os cadinhos
Da Dor e da Amargura, bens mesquinhos,
Cheguei ao fim sem nada ter achado.

Exausta e só, voltei desiludida,
Mísera, nua, ao ponto da partida,
Sem, vislumbrar o bem que tanto almejo.

Meu Deus, suma Verdade, onde te escondes
Que aos meus brados de dor me não respondeis?
Onde existes, meu Deus, que não te vejo?



FLORBELA ESPANCA
in, OS ÚLTIMOS POEMAS DE FLORBELA ESPANCA





terça-feira, 12 de junho de 2018

Saudades

 




Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?... 
Se o sonho foi tão alto e forte 
Que pensara vê-lo até à morte 
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão! 
Que tudo isso, Amor, nos não importe. 
Se ele deixou beleza que conforte 
Deve-nos ser sagrado como o pão.

Quantas vezes, Amor, já te esqueci, 
Para mais doidamente me lembrar 
Mais decididamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim: 
Quanto menos quisesse recordar 
Mais saudade andasse presa a mim!


Florbela Espanca
in, "Livro de Sóror Saudade"






terça-feira, 29 de agosto de 2017

A uma rapariga

 





A Nice

Abre os olhos e encara a vida! A sina
Tem que cumprir-se! Alarga os horizontes!
Por sobre lamaçais alteia pontes
Com tuas mãos preciosas de menina.

Nessa estrada da vida que fascina
Caminha sempre em frente, além dos montes!
Morde os frutos a rir! Bebe nas fontes!
Beija aqueles que a sorte te destina!

Trata por tu a mais longínqua estrela,
Escava com as mãos a própria cova
E depois, a sorrir, deita-te nela!

Que as mãos da terra façam, com amor,
Da graça do teu corpo, esguia e nova,
Surgir à luz a haste duma flor!...



Florbela Espanca 
in, "Charneca em Flor"






quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Canção Grata

 




Por tudo o que me deste
inquietação cuidado
um pouco de ternura
é certo mas tão pouca
Noites de insónia
Pelas ruas como louca
Obrigada, obrigada

Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui
Sem ironia aceita
A minha gratidão

Que bem que me faz agora
o mal que me fizeste
Mais forte e mais serena
E livre e descuidada
Sem ironia amor obrigada
Obrigada por tudo o que me deste


Florbela Espanca




domingo, 23 de julho de 2017

Vão orgulho

 




Neste mundo vaidoso o amor é nada, 
É um orgulho a mais outra vaidade 
A coroa de louros desfolhada 
Com que se espera a eternidade. 

Ser Beatriz, Natércia. Irrealidade! 
Mentira...Engano de alma desvairada... 
Onde está desses braços a verdade, 
Essa fogueira em cinzas apagada?... 

Mentira! Não te quis..não me quiseste... 
Efluvios subtis de um bem celeste? 
Gestos, palavras sem nenhum condão... 

Mentira, não fui tua não...Somente 
Quis ser mais do que sou, mais do que gente, 
No alto do orgulho de o ter sido em vão. 



Florbela Espanca 
in, Reliquiae 





quinta-feira, 6 de julho de 2017

Voz Que Se Cala

 




Amo as pedras, os astros e o luar 
Que beija as ervas do atalho escuro, 
Amo as águas de anil e o doce olhar 
Dos animais, divinamente puro. 


Amo a hera, que entende a voz do muro 
E dos sapos, o brando tilintar 
De cristais que se afagam devagar, 
E da minha charneca o rosto duro. 

Amo todos os sonhos que se calam 
De corações que sentem e não falam, 
Tudo o que é Infinito e pequenino! 

Asa que nos protege a todos nós! 
Soluço imenso, eterno, que é a voz 
Do nosso grande e mísero Destino!... 


Florbela Espanca





quarta-feira, 28 de junho de 2017

O Meu Desejo

 




Vejo-te só a ti no azul dos céus,
Olhando a nuvem de oiro que flutua...
Ó minha perfeição que criou Deus
E que num dia lindo me fez sua!

Nos vultos que diviso pela rua,
Que cruzam os seus passos com os meus...
Minha boca tem fome só da tua!
Meus olhos têm sede só dos teus!

Sombra da tua sombra, doce e calma,
Sou a grande quimera da tua alma
E, sem viver, ando a viver contigo...

Deixa-me andar assim no teu caminho
Por toda a vida, Amor, devagarinho,
Até a morte me levar consigo...



Florbela Espanca






terça-feira, 20 de junho de 2017

A vida

 




É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo,
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...

Amar-te a vida inteira eu não podia.
A gente esquece sempre o bem de um dia.
Que queres, meu Amor, se é isto a vida!


Florbela Espanca




quinta-feira, 1 de junho de 2017

NOITE DE SAUDADE

 




A noite vem poisando devagar
Sobre a Terra,que inunda de amargura...
E nem sequer a bênção do luar
A quis tornar divinamente pura...

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura...
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!

Por que és assim tão'scura,assim tão triste?!
É que,talvez,o Noite,em ti existe
Uma saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei donde me vem...
Talvez de ti, ó Noite!...Ou de ninguém!...
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!



FLORBELA ESPANCA
in, LIVRO DE MÁGOAS





quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Amar!

 



Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…
Amar!  Amar!  E não amar ninguém!

Recordar?  Esquecer?  Indiferente!…
Prender ou desprender?  É mal?  É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi para cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… para me encontrar…


Florbela Espanca








domingo, 9 de outubro de 2016

Ódio?

 





Ódio por Ele? Não... Se o amei tanto, 
Se tanto bem lhe quis no meu passado, 
Se o encontrei depois de o ter sonhado, 
Se à vida assim roubei todo o encanto, 

Que importa se mentiu? E se hoje o pranto 
Turva o meu triste olhar, marmorizado, 
Olhar de monja, trágico, gelado 
Com um soturno e enorme Campo Santo! 

Nunca mais o amar já é bastante! 
Quero senti-lo doutra, bem distante, 
Como se fora meu, calma e serena! 

Ódio seria em mim saudade infinda, 
Mágoa de o ter perdido, amor ainda! 
Ódio por Ele? Não... não vale a pena... 



Florbela Espanca
in, "Livro de Sóror Saudade"




segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Eu

 



Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada … a dolorida …

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!…

Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê…

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!


Florbela Espanca






sábado, 16 de julho de 2016

Fanatismo

 



Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver.
Não és sequer razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!…

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!…”



Florbela Espanca |





domingo, 20 de março de 2016

Para quê?!






Tudo é vaidade neste mundo vão…
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, esta canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!…

Beijos de amor! Para quê?! … Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só neles acredita quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!…



Florbela Espanca






sábado, 19 de março de 2016

Frémito do meu corpo







Frémito do meu corpo a procurar-te, 
Febre das minhas mãos na tua pele 
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel, 
Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte, 
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel, 
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma 
Junto da minha, uma lagoa calma, 
A dizer-me, a cantar que me não amas...

E o meu coração que tu não sentes, 
Vai boiando ao acaso das correntes, 
Esquife negro sobre um mar de chamas...


Florbela Espanca





terça-feira, 15 de março de 2016

Ambiciosa








Para aqueles fantasmas que passaram,
Vagabundos a quem jurei amar,
Nunca os meus braços lânguidos traçaram
O vôo dum gesto para os alcançar…

Se as minhas mãos em garra se cravaram
Sobre um amor em sangue a palpitar…
– Quantas panteras bárbaras mataram
Só pelo raro gosto de matar!

Minha alma é como a pedra funerária
Erguida na montanha solitária
Interrogando a vibração dos céus!

O amor dum homem? – Terra tão pisada!
Gota de chuva ao vento baloiçada…
Um homem? – Quando eu sonho o amor dum deus!…



Florbela Espanca








sábado, 13 de fevereiro de 2016

Amar






Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi para cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... para me encontrar...


Florbela Espanca
in , "Charneca em Flor",
Poesia Completa



segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Se Tu Viesses Ver-me...




Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, 
A essa hora dos mágicos cansaços, 
Quando a noite de manso se avizinha, 
E me prendesses toda nos teus braços... 

Quando me lembra: esse sabor que tinha 
A tua boca... o eco dos teus passos... 
O teu riso de fonte... os teus abraços... 
Os teus beijos... a tua mão na minha... 

Se tu viesses quando, linda e louca, 
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo 
E é de seda vermelha e canta e ri 

E é como um cravo ao sol a minha boca... 
Quando os olhos se me cerram de desejo... 
E os meus braços se estendem para ti... 


Florbela Espanca
in, "Charneca em Flor" 





domingo, 20 de dezembro de 2015

Mistério




Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!


Florbela Espanca