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terça-feira, 13 de agosto de 2019

Com a tua letra





Fala-se de amor para falar de muitas coisas
que entretanto nos sucede.
Para falar do tempo, para falar do mundo
usamos o vocabulário preciso
que nos dá o amor.
Eu amo-te. Quer dizer: eu conheço melhor
as estradas que servem o meu território.
Quer dizer: eu estou mais acordado,
não me enredo nas silvas, não me enredo,
não me prendo nos cardos, não me prendo.
Quer dizer: amar-te-ei
cada dia mais, estarei cada dia
mais acordado. Porque este amor não para.
Porque eu amo-te, quer dizer, eu estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.
Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.


Fernando Assis Pacheco





domingo, 17 de março de 2019

POETA NO SUPERMERCADO





Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
erguer-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.
Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há os poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte...
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.



Um homem tem que viver.
e tu vê lá não te fiques
- um homem tem que viver
com um pé na Primavera.
Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.
Cheio de luz - como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio de mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.
Palavra, um homem tem que ser 
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.


Fernando Assis Pacheco 
in, "Cuidar dos Vivos"







segunda-feira, 4 de março de 2019

COM A TUA LETRA


Souldigger





Fala-se de amor para falar de muitas
coisas que entretanto nos sucedem.
Para falar do tempo, para falar do mundo
usamos o vocabulário preciso
que nos dá o amor.
.
Eu amo-te. Quer dizer: eu conheço melhor
as estradas que servem o meu território.
Quer dizer: eu estou mais acordado,
não me enredo nas silvas, não me enredo,
não me prendo nos cardos, não me prendo.
Quer também dizer: amar-te-ei
cada dia mais, estarei cada dia
mais acordado. Porque este amor não pára.
.
E para falar da morte; da enorme
definitiva irremediável morte,
do carro tombado na valeta
sacudindo uma última vez (fragilidade)
as rodas acendedoras de caminhos
- eu lembraria que o amor nos dá
uma forma difícil de coragem,
uma difícil, inteira possessão
de nós próprios, quando aveludada
a morte surge e nos reclama.
.
Porque eu amo-te, quer dizer, eu estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.
.
Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra



FERNANDO ASSIS PACHECO
in, A MUSA IRREGULAR




sábado, 5 de maio de 2018

Sem Que Soubesses

 




Falei de ti com as palavras mais limpas,
viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.

Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.

Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.



Fernando Assis Pacheco
in, A Musa Irregular




sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

VOLTA À AMADA EM UMA SEMANA

 




No primeiro dia eu disse para mim mesmo
que o amor era a casa da minha vida.


No segundo dia as maravilhas
do amor quase me cegavam.


Guardei o terceiro dia para meditação.
Precisava reentrar em mim.


No quarto dia senti-me sábio,
cheio de janelas e fragrâncias.


Ó quinto dia, gritei, nunca tu viesses,
dominador, devorador!


Mas no sexto dia eu era um oceano
banhando esse país rumorejante


aonde, com a guitarra ao ombro,
aportei no sétimo dia.



Fernando Assis Pacheco





segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

SEM QUE SOUBESSES

 




Falei de ti com as palavras mais limpas,
viajei, sem que soubesses, no teu interior. 
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra 
ali posta para não reparares em mim. 

Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêncio, madrugada. 
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo. 

Hoje os versos são para entenderes. 
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada 
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias. 



Fernando Assis Pacheco 
in, A Musa Irregular





sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Esta areia fina

 




Não sei 
se o que chamam amor é este apaziguamento. 
Não sei se comias fogo. Tuas abelhas 
voam agora em círculos tranquilos. 
Mães serenam seus filhos no ventre, 
não sei se o que enfim chamam 
amor é esta areia fina.

Agora estamos um dentro do outro, 
fazemos longas visitas deslumbradas 
porque "o nosso prazer lembra um rio vagaroso
no meio de juncos ao cair da tarde."

As palavras tornam-se esquivas. Com o silêncio
falaríamos melhor de tudo isto. 
Não sei se o que chamam amor 
é a cama desfeita o sol fugindo, 
uma vontade louca de beber 
a grandes goles a noite entorpecente.

Com o silêncio, o silêncio sem nome: 
morrermos a meio do filme 
simples, calada, dedicadamente. 
Eras tu, amor? - Era eu, era eu!

Um barco junto à margem. E cegonhas.



Fernando Assis Pacheco




sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Seria o amor português

 




Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
- tanto pó sobre os móveis tua ausência.

Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.

Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
"Que me importa que batam à porta..."
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.

Lomgas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.

Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta?


Fernando Assis Pacheco






sábado, 11 de novembro de 2017

Um Campo Batido pela Brisa

 




A tua nudez inquieta-me. 

Há dias em que a tua nudez 
é como um barco subitamente entrado pela barra. 
Como um temporal. Ou como 
certas palavras ainda não inventadas, 
certas posições na guitarra 
que o tocador não conhecia. 

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo 
para um lado misterioso e frágil. 
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe 
contorno, peso. Destrói o meu corpo. 
A tua nudez é uma violência 
suave, um campo batido pela brisa 
no mês de Janeiro quando sobem as flores 
pelo ventre da terra fecundada. 

Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas 
com o vocabulário da tua nudez. 
Tenho «um pensamento despido»; 
maturação; altas combustões. 
De mão dada contigo entro por mim dentro 
como em outros tempos na piscina 
os leprosos cheios de esperança. 
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete 
que lanço com mão tremente desastrada 
para rebentar e encher a minha carne 
de transparência. 

Sete dias ao longo da semana, 
trinta dias enquanto dura um mês 
eu ando corajoso e sem disfarce, 
ilumindo, certo, harmonioso. 
E outras vezes sucede que estou: inquieto. 
Frágil. 
Violentado. 

Para que eu me construa de novo 
a tua nudez bascula-me os alicerces. 



Fernando Assis Pacheco
in, “A Musa Irregular” 





quinta-feira, 13 de julho de 2017

Um Campo Batido pela Brisa

 




A tua nudez inquieta-me.

Há dias em que a tua nudez 
é como um barco subitamente entrado pela barra. 
Como um temporal. Ou como 
certas palavras ainda não inventadas, 
certas posições na guitarra 
que o tocador não conhecia.

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo 
para um lado misterioso e frágil. 
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe 
contorno, peso. Destrói o meu corpo. 
A tua nudez é uma violência 
suave, um campo batido pela brisa 
no mês de Janeiro quando sobem as flores 
pelo ventre da terra fecundada.

Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas 
com o vocabulário da tua nudez. 
Tenho «um pensamento despido»; 
maturação; altas combustões. 
De mão dada contigo entro por mim dentro 
como em outros tempos na piscina 
os leprosos cheios de esperança. 
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete 
que lanço com mão tremente desastrada 
para rebentar e encher a minha carne 
de transparência.

Sete dias ao longo da semana, 
trinta dias enquanto dura um mês 
eu ando corajoso e sem disfarce, 
ilumindo, certo, harmonioso. 
E outras vezes sucede que estou: inquieto. 
Frágil. 
Violentado.

Para que eu me construa de novo 
a tua nudez bascula-me os alicerces.




Fernando Assis Pacheco
in, “A Musa Irregular”





domingo, 28 de maio de 2017

O Sexo e a Idade II

 
Picasso



Pus-vos a mão um dia sem saber
que tão robusta e certa artilharia
iria pelos anos fora ser
sinal também de lêveda alegria

amigos meus colhões quanto prazer
veio até mim em vossa companhia
a hora que tiver já de morrer
morra feliz por tanta cortesia

adeus irmãos é tempo de ceder
à dura lei que manda arrefecer
o fogo leviano em que eu ardia

camaradas leais do bem foder
o brio a fleuma cumpre agradecer
sem vós teria sido uma agonia



Fernando Assis Pacheco 
in, Respiração Assistida