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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

EUROPA

  







Apontas para o rosto sarcástico do sol de Inverno  
e disparas. Há tantos meses que não chove – reparaste?
É o próprio céu a desistir de ti. E mesmo assim tu disparas, só sabes disparar.
Estás enganada, Europa. Envelheceste mal e perdeste a humildade.  
Não é contra o sarcasmo que disparas, não é contra o Inverno,
nem sequer contra o insólito, contra o desespero.  
Tu disparas contra a luz.  
Podes atirar-nos tudo à cara, Europa: bombas, palavras, relatórios de contas. 
Podes até atirar-nos à cara um deputado, uma cimeira.
Mas os teus filhos não querem gravatas. Os teus filhos 
querem paz.
Os teus filhos não querem que lhes dês a sopa. Os teus filhos querem trabalhar.  
Há tantos meses que não chove – reparaste?  
A terra está seca. Nem abraçados à terra conseguimos dormir.  
Enquanto te escrevo, tu continuas a fazer contas, Europa.  
Quem deve. Quem empresta. Quem paga.
Mas os teus filhos têm fome, têm sono. Os teus filhos têm medo do escuro.  
Os teus filhos precisam que lhes cantes uma canção, que os vás 
adormecer.
Eu acreditei em ti e tu roubaste-me o futuro e o dos meus irmãos.  
Se estamos calados, Europa, é apenas porque, contrários ao 
teu gesto,
nós não queremos disparar. 


Filipa Leal
in, Vem à quinta-feira






sábado, 21 de março de 2020

O quadro do futuro






Havemos de ir ao futuro
Havemos de ir ao futuro
e quando lá chegarmos
hão-de estar no sofá os nossos pais
a cuidar dos sonhos que nos deram
Os nossos avós a encher de luzes a árvore de natal
Os nossos filhos, e os filhos deles
espantados e atrevidos como nós
Havemos de ir ao futuro
e quando lá chegarmos
hão-de estar todos juntos numa festa à nossa espera
mesmo os amigos que perdemos no caminho
Hão-de lá estar todos com balões de várias cores, bolo-rei
e ao fundo da sala um cartaz do tamanho da nossa idade
onde se lê: ainda bem que vieram
Havemos de ir juntos ao futuro
ou se não houver boleia para todos ao mesmo tempo
havemos de nos encontrar lá
Havemos de ir ao futuro e, no futuro, 
estará finalmente tudo, como dantes.


Filipa Leal
in, «Vem à quinta-feira»